Histórias Interessantes sobre nosso tempo de Escola
Escola Caetano de Campos(01245) - Sao
Paulo - SP
Itaci da
Cunha Caldeira Vilela Alves
Costa (1957-1966) - Membro # 2584
Aos
“Caetanistas” saudosos
Não sei se
foi há três ou quatro anos...
Estive
visitando o antigo prédio em
que
estudamos,
agora Secretaria de Educação.
Dedico este
protesto a vocês, colegas, amigas, personagens
de minha
infância e juventude que partilharão, certamente, de
meus sentimentos e saberão
compreendê-los.
“
SALVE ESCOLA QUE TANTO ADORAMOS
“
Foi na primeira vez
que tomei a linha Leste-Oeste do Metrô. Ia ao bairro de Santa Cecília, mas não
resisti à murmurante voz anunciando a Estação República... Num átimo vi-me fora
do trem e da Estação.
Da minha praça, onde,
pequena ainda, dava de comer aos patos e peixinhos do lago, pouco havia. Uma
verdadeira fauna subumana substituíra os comerciários e aposentados que ali
passeavam na hora do almoço.
Quase voltei atrás, não fosse a visão do velho “ Caetano “ que, como
quando ali cheguei pela primeira vez, agarrada a mão de meu pai, estendia-me
seus braços amigos. Sua grande porta principal era como um imenso e acolhedor
sorriso naquele rosto de tantos “olhos”.
Atravessei a avenida, hipnotizada pela magia da volta ao lar e subi a
escadaria, sentindo-me a menina de outrora, quase esperando que alguém me barrasse à
entrada, pois “os alunos devem entrar pelas portas laterais”. Inconscientemente,
baixei os olhos para minha roupa, procurando ver se meu uniforme estava em
ordem, se as meias não estavam, como sempre, caindo... Mas não. Estava de jeans,
apenas uma professora a mais.
Como naquele primeiro dia de aula, tomei o corredor da direita no
“primeiro andar” - nunca entendi porque chamavam o térreo de primeiro andar - em
direção à sala da diretoria, que fora, na época, de Da. Coryntha e da Biblioteca
do primário, onde reinava, então Da. Iracema Silveira. Pelos corredores, quase
ninguém. Era hora do almoço. Por algumas portas abertas vi uns poucos
funcionários trabalhando e outros “funcionariando”, estes, a maioria. Quase
podia “ver” Da. Iracema sorrindo, esperando minha visita da leitora assídua para
mostrar a mais nova aquisição: um “Simbad, o marujo”, um “Ivanhoe” com
ilustrações. Não. Ela não estava ali. Nem, na sala dos professores, Da.
Deolinda, minha professora nas terceira e quarta séries, de quem recebi carinho,
compreensão e estímulo numa época em que precisava deles. Nunca lhe agradeci,
pois, criança, não soube o valor do tesouro que dela recebi. Entretanto,
enquanto lecionei, prestei-lhe uma homenagem diária, seguindo seu exemplo de
amor e dedicação ao Magistério.
Voltei sobre meus passos e subi os gastos degraus da escadaria central.
Ainda me sentindo com dez anos, tinha a consciência culpada – “os alunos devem
subir pelas escadas laterais” – e “voei” até o terceiro andar, onde passei
quatro anos da minha vida que, contados agora, perfazem quase um décimo do
total.
Pelo largo corredor vazio passeamos, eu e minha saudade, revivendo a
alegria e despreocupação, “revendo” antigas colegas, muitas das quais jamais
soube o paradeiro. Tantas amigas, tanta saudade: Ana Maria Giorgio, Ana Tereza,
Carmem Lúcia, Hilda, Marisa Carla, Lígia Chacon, Solange, Maria Angela, Nina
Maria, Marilda, Dulce, Gisela, Vera, Maria Lúcia, Mariana...Tantas que me lembro
ainda...Todas meninas em minha memória, como quando escorregávamos pelo
corredor, fazíamos “guerra d’água” – lembra-se Marisa? – e tentávamos fugir à sanha de Da. Guiomar, a Orientadora.
Parada ali, eu tinha treze anos. Olhos fechados, revia meus professores, um a um, pelos corredores, saindo das salas. Alguns sérios, outros sorridentes, todos reunidos: Da. Antonieta Paula Souza, Joel, Raul Schwiden, da. Sylvia, “Mme. Marie Julie”, Vizioly, Biral, Adelaide Acaricy, - mais amiga que professora – Rui Cartolano, que sempre me dizia “Caldeira não cante que estraga o coro” - e nem sabe que nunca mais consegui cantar – Da. Amélia, Da. Ernestina, as melhores inspetoras de alunos do mundo.
Perdida no turbilhão de minhas lembranças, nem sei quanto tempo ali
fiquei. Quando dei por mim o movimento no corredor era maior. Devia ter acabado
a hora do almoço.
Desci ao segundo andar. Deixei-o por último, pois, se nos primeiro e
terceiro andar havia passado minha infância, foi no segundo andar que passei
minha juventude.
Fui direto ao “cantinho” onde ficavam as classes do Normal. Já
desencantada, não entrei em nenhuma sala...Eram salas apenas...Vazias de alma.
As pessoas por mim passavam como personagens excedentes das novelas televisivas:
nem elas sabiam porque estavam ali. Não era seu lugar. Ali deveriam estar os
personagens principais daquele prédio e de parte do que sou: Dr. Brólio, Da.
Phrynéia, o Maestro da Chiara, Da. Palu, Da. Paula, Da. Maria José. Aquele era o
lugar onde fora buscar, mocinhas, quase meninas, Marina Racy, Eliana (as duas),
Rosely, Marlene, (também as
duas), Raquel, Clara, Vólia,
Sandra, Célia, Araê, Leitz, Maria Angêlica, Hebe, Bia...Todas de uniforme azul e
branco. Lá, eu fora para me encontrar, mas eu também não estava ali. Não havia
mais nada, nem ninguém que realmente importasse.
Como tantas vezes fiz em anos passados, encostei-me à janela, fitando o
pátio para observar as crianças –a quem, quando mocinha, já no Normal,
secretamente invejava – nas suas eternas brincadeiras de roda. Mas...o pátio,
tão bonito, agora, estava vazio de vozes, de brincadeiras e de crianças para
aproveitar a nova beleza.
Foi só então, quando a melancolia me atingiu fisicamente, fazendo
arderem-me os olhos, no esforço para não chorar, que percebi o quanto estivera
enganada. Quando imaginei que o velho prédio estendia-me os braços, não era ,
como pensei , um gesto de boas-vindas. Ele me pedia socorro. O antigo “Templo do
Bem e do Saber” estava morrendo. Com suas crianças, se fora sua alma. O silêncio
que reina em seus corredores não se deve ao fato de todos estarem trabalhando. É
o silêncio respeitoso dos que velam por um moribundo.
Quando saí, começava a chover. Antes de entrar na estação, voltei-me uma
vez mais e vi lágrimas correrem pelos “olhos” de vidro do velho prédio do
“Caetano de Campos”.
Se era para matarem-no assim, aos poucos esvaziando-lhe a “alma”,
desvirtuando os fins para que foi construído, negando-lhe o cumprimento do dever
sagrado de acolher os pequeninos, garantindo-lhes “brilhante porvir”, produzindo
neles o germe do Amor pela Pátria, por que não o deixaram cair quando da
construção do Metrô?
Na praça da República, agora, ergue-se o fantasma daquilo que foi o
Instituto de Educação “Caetano de Campos”. Assassinado por motivo torpe, de modo
cruel, em nome de um progresso discutível, por alguém que se esqueceu, ou nunca
soube, que o “progresso se funda no ensino e no ensino o Brasil se
fará”.
Ali não se cantará mais o hino de amor ao Brasil.
Ah, velho “Caetano”! Viverás sim, viverás para sempre... Na memória de
todos que acolheste e que de teu seio fecundo sorveram a Ciência e a
Virtude...