Histórias Interessantes sobre nosso tempo de Escola
Escola Caetano de Campos
(01245) - Sao Paulo - SP

Itaci da Cunha Caldeira Vilela Alves Costa (1957-1966) - Membro # 2584  

Santos, outubro de 1988.

Aos “Caetanistas” saudosos

Não sei se foi há três ou quatro anos...

Estive visitando o  antigo prédio em que

estudamos, agora Secretaria de Educação.

Dedico este protesto a vocês, colegas, amigas, personagens

de minha infância e juventude que partilharão, certamente, de

meus sentimentos e saberão compreendê-los.

“ SALVE ESCOLA QUE TANTO ADORAMOS


Foi na primeira vez que tomei a linha Leste-Oeste do Metrô. Ia ao bairro de Santa Cecília, mas não resisti à murmurante voz anunciando a Estação República... Num átimo vi-me fora do trem e da Estação.

Da minha praça, onde, pequena ainda, dava de comer aos patos e peixinhos do lago, pouco havia. Uma verdadeira fauna subumana substituíra os comerciários e aposentados que ali passeavam na hora do almoço.

                Quase voltei atrás, não fosse a visão do velho “ Caetano “ que, como quando ali cheguei pela primeira vez, agarrada a mão de meu pai, estendia-me seus braços amigos. Sua grande porta principal era como um imenso e acolhedor sorriso naquele rosto de tantos “olhos”.

                Atravessei a avenida, hipnotizada pela magia da volta ao lar e subi a escadaria, sentindo-me a menina de outrora, quase  esperando que alguém me barrasse à entrada, pois “os alunos devem entrar pelas portas laterais”. Inconscientemente, baixei os olhos para minha roupa, procurando ver se meu uniforme estava em ordem, se as meias não estavam, como sempre, caindo... Mas não. Estava de jeans, apenas uma professora a mais.

                Como naquele primeiro dia de aula, tomei o corredor da direita no “primeiro andar” - nunca entendi porque chamavam o térreo de primeiro andar - em direção à sala da diretoria, que fora, na época, de Da. Coryntha e da Biblioteca do primário, onde reinava, então Da. Iracema Silveira. Pelos corredores, quase ninguém. Era hora do almoço. Por algumas portas abertas vi uns poucos funcionários trabalhando e outros “funcionariando”, estes, a maioria. Quase podia “ver” Da. Iracema sorrindo, esperando minha visita da leitora assídua para mostrar a mais nova aquisição: um “Simbad, o marujo”, um “Ivanhoe” com ilustrações. Não. Ela não estava ali. Nem, na sala dos professores, Da. Deolinda, minha professora nas terceira e quarta séries, de quem recebi carinho, compreensão e estímulo numa época em que precisava deles. Nunca lhe agradeci, pois, criança, não soube o valor do tesouro que dela recebi. Entretanto, enquanto lecionei, prestei-lhe uma homenagem diária, seguindo seu exemplo de amor e dedicação ao Magistério.

                Voltei sobre meus passos e subi os gastos degraus da escadaria central. Ainda me sentindo com dez anos, tinha a consciência culpada – “os alunos devem subir pelas escadas laterais” – e “voei” até o terceiro andar, onde passei quatro anos da minha vida que, contados agora, perfazem quase um décimo do total.

                Pelo largo corredor vazio passeamos, eu e minha saudade, revivendo a alegria e despreocupação, “revendo” antigas colegas, muitas das quais jamais soube o paradeiro. Tantas amigas, tanta saudade: Ana Maria Giorgio, Ana Tereza, Carmem Lúcia, Hilda, Marisa Carla, Lígia Chacon, Solange, Maria Angela, Nina Maria, Marilda, Dulce, Gisela, Vera, Maria Lúcia, Mariana...Tantas que me lembro ainda...Todas meninas em minha memória, como quando escorregávamos pelo corredor, fazíamos “guerra d’água” – lembra-se Marisa? – e tentávamos fugir à sanha de Da. Guiomar, a Orientadora.

                Parada ali, eu tinha treze anos. Olhos fechados, revia meus professores, um a um, pelos corredores, saindo das salas. Alguns sérios, outros sorridentes, todos reunidos: Da. Antonieta Paula Souza, Joel, Raul Schwiden, da. Sylvia, “Mme. Marie Julie”, Vizioly, Biral, Adelaide Acaricy, - mais amiga que professora – Rui Cartolano, que sempre me dizia “Caldeira não cante que estraga o coro” - e nem sabe que nunca mais consegui cantar – Da. Amélia, Da. Ernestina, as melhores inspetoras de alunos do mundo.

                Perdida no turbilhão de minhas lembranças, nem sei quanto tempo ali fiquei. Quando dei por mim o movimento no corredor era maior. Devia ter acabado a hora do almoço.

                Desci ao segundo andar. Deixei-o por último, pois, se nos primeiro e terceiro andar havia passado minha infância, foi no segundo andar que passei minha juventude.

                Fui direto ao “cantinho” onde ficavam as classes do Normal. Já desencantada, não entrei em nenhuma sala...Eram salas apenas...Vazias de alma. As pessoas por mim passavam como personagens excedentes das novelas televisivas: nem elas sabiam porque estavam ali. Não era seu lugar. Ali deveriam estar os personagens principais daquele prédio e de parte do que sou: Dr. Brólio, Da. Phrynéia, o Maestro da Chiara, Da. Palu, Da. Paula, Da. Maria José. Aquele era o lugar onde fora buscar, mocinhas, quase meninas, Marina Racy, Eliana (as duas), Rosely, Marlene,  (também as duas),  Raquel, Clara, Vólia, Sandra, Célia, Araê, Leitz, Maria Angêlica, Hebe, Bia...Todas de uniforme azul e branco. Lá, eu fora para me encontrar, mas eu também não estava ali. Não havia mais nada, nem ninguém que realmente importasse.

                Como tantas vezes fiz em anos passados, encostei-me à janela, fitando o pátio para observar as crianças –a quem, quando mocinha, já no Normal, secretamente invejava – nas suas eternas brincadeiras de roda. Mas...o pátio, tão bonito, agora, estava vazio de vozes, de brincadeiras e de crianças para aproveitar a nova beleza.

                Foi só então, quando a melancolia me atingiu fisicamente, fazendo arderem-me os olhos, no esforço para não chorar, que percebi o quanto estivera enganada. Quando imaginei que o velho prédio estendia-me os braços, não era , como pensei , um gesto de boas-vindas. Ele me pedia socorro. O antigo “Templo do Bem e do Saber” estava morrendo. Com suas crianças, se fora sua alma. O silêncio que reina em seus corredores não se deve ao fato de todos estarem trabalhando. É o silêncio respeitoso dos que velam por um moribundo.

                Quando saí, começava a chover. Antes de entrar na estação, voltei-me uma vez mais e vi lágrimas correrem pelos “olhos” de vidro do velho prédio do “Caetano de Campos”.

                Se era para matarem-no assim, aos poucos esvaziando-lhe a “alma”, desvirtuando os fins para que foi construído, negando-lhe o cumprimento do dever sagrado de acolher os pequeninos, garantindo-lhes “brilhante porvir”, produzindo neles o germe do Amor pela Pátria, por que não o deixaram cair quando da construção do Metrô?

                Na praça da República, agora, ergue-se o fantasma daquilo que foi o Instituto de Educação “Caetano de Campos”. Assassinado por motivo torpe, de modo cruel, em nome de um progresso discutível, por alguém que se esqueceu, ou nunca soube, que o “progresso se funda no ensino e no ensino o Brasil se fará”.

                Ali não se cantará mais o hino de amor ao Brasil.

                Ah, velho “Caetano”! Viverás sim, viverás para sempre... Na memória de todos que acolheste e que de teu seio fecundo sorveram a Ciência e a Virtude...