Reminiscências XLVI – O Quepe (Epílogo)

 

Pelo simples fato de ser veterana, a turma de meia cinco não era flor que se cheire. Qualquer bicho de colo, com mais de um dia de Escola, sabia disso.

 

Mas a turma de meia cinco não era homogênea. Nem todos eram maus, é bom que se diga para fazer-lhes justiça. Havia também os péssimos, os que exorbitavam na comezinha arte de tirar o couro do bicharal.

 

Entre estes, os péssimos, três elementos eram show de bola. Faziam do trote uma arte. Representavam o supra-sumo da nata do kaol da iniqüidade veterana. Eram eles: Cídio - o mau -, Balinho - o feio, - e Rommil - o bruto.

 

Cídio – o mau – era, antes de tudo, um virtuoso. Tinha a cabeça pequena – a  calota craniana, tal como a de Fredinho, beirava 40 (quarenta) unidades distribuídas em formato de mamão papaya. Dela saíram os mais criativos trotes aplicados no ano de 1966. Trotes otimizados, adequados ao psicoperfil de cada bicho, administrados na dosagem exata para obtenção de rendimento máximo em tempo mínimo.

 

Balinho – o feio – portava cabelos vermelhos-fogo que o faziam à imagem e semelhança do diabo. Era o arauto do trio. Sobressaia-se não só pelo efeito visual tenebroso como também pelo comportamento histriônico nauseabundo. 

 

Rommil – o bruto – era o peso-pesado por excelência. Falava pouco, mas batia bem. Atuava como fiel da balança. Usava a força física para corrigir desvios de conduta. Dizia-se, na boca pequena, que sua canhota fazia cavalo beijar a lona.

 

O trio operava em esquadrilha e seguia os princípios da física. Qualquer bicho que cruzasse seu campo de atuação em qualquer direção e/ou sentido estaria sujeito à ação das três forças potenciais: a maldade criativa de Cid, a diabrura histriônica de Balinho e o corretivo tonelático de Rômmil.

 

No Rancho da Escola, os três compartilhavam a mesma mesa. Sentavam-se estrategicamente, posicionando-se com eqüidistância, como se fossem vértices de um triângulo eqüilátero inscrito na circunferência da mesa. A seus lados, diversas cadeiras vazias aguardavam a chegada dos convidados de honra pinçados ao acaso. Quem algum dia ali esteve jamais voltou a ser a mesma pessoa.

 

Tal foi o caso de Fredinho. Inadvertidamente, passou nos arredores e foi sugado para o triângulo. Sentou-se à direta do mau e à esquerda do bruto. Ficou de frente para o diabo.

 

Foi na terça-feira da Semana Santa. Era o rancho da ceia. Os iníquos tinham regressado de um licenciamento local. Todos trajavam Quinto “A”. Sobre a mesa, seus quepes reluzentes jaziam dispostos em forma de montinho.

 

Mal Fredinho tomou assento junto ao grupo, Rommil – o bruto - o fez mergulhar embaixo da mesa para pagar, a título de pré-aquecimento, sessões alternadas de canguru e pulinho-de-galo. Quando voltou à superfície, Balinho – o feio – o instruiu a ingerir 9 (nove) pães cacetinhos à velocidade de 3 (três) unidades por minuto. Ainda ruminava os 2 (dois) últimos quando Cídio - o mau – resolveu dar um toque de humor na esfolação. Aproveitando-se da ausência de autoridades no Rancho, convocou um segundo bicho ao local. Em seguida, retirou dois quepes da mesa e cravou-os, de bico para trás, nas cabeças respectivas de Fredinho e do outro bicho. Orientou-os a caminhar pelo Rancho em fila indiana. A Fredinho cabia bradar: “Eu sou Napoleão!”. Ao bicho-consorte, o contraponto: “...E eu o irmão dele”.

 

Por onde passavam, os irmãos Napoleão arrancavam gargalhadas aos borbotões. A alegria se espalhava pelo Rancho, contagiando a todos. Até o bicho-consorte parecia regozijar-se com o papel, ainda que secundário, de irmão do Imperador.

 

Fredinho, no entanto, atuava burocraticamente. No fundo, cagava mole para o sucesso daquela patética representação teatral. Dentro de seu peito, o coração batia mais forte por uma causa nobre, por um objetivo maior. Acabara de vislumbrar uma oportunidade rara de completar seu Quinto “A” para a Semana Santa.

 

O quepe que lhe faltava, o quepe pelo qual tinha passado noites e noites em claro, jazia agora sobre sua cabeça, milimetricamente encaixado. Quis o destino que ele já tivesse dono, e que o dono viesse a ser ninguém menos que Cídio - o mau. Fredinho sabia que as chances de uma eventual piruação eram tecnicamente zero, mas seu sangue polimiscigenado não o permitia refugar diante de obstáculos.

 

Quando acabou a sessão de trote no Rancho, Fredinho e o bicho-consorte foram convidados a se dirigir ao Alojamento do Segundo Ano, para uma “complementação de noitada”. A História não registra o que se passou a partir de então. Mas é certo que eles sífu.

 

Quando ressurgiu na quarta-feira santa, Fredinho era outra pessoa. Estava nocauteado em pé, mas psicologicamente feliz. Os olhos fundos e a aparência chupada contrastavam com a fisionomia escancarada e o ar vitorioso.

 

Por um desses milagres que ninguém explica, Cídio – o mau – sensibilizou-se com seus apelos. Emprestou-lhe, até o retorno da Semana Santa, o maceteadíssimo quepe de sua propriedade, com distintivo totalmente kaolizado, com as bordas caindo pelas laterais no mais puro estilo Sampaio, e com o bico que, de tão espelhado, dava até para pentear o cabelo do nariz.

 

Fredinho estava exultante. A todos exibia a preciosidade conquistada. No Alojamento, ficava horas a fio diante do espelho, customizando a cobertura de acordo com suas preferências, batendo sucessivas continências para a própria imagem, ensaiando o desembarque em Coelho Neto. 

 

Perguntado sobre as eventuais contrapartidas requeridas pelo cedente, Fredinho respondeu, entre um sorriso e outro:

 

- Só um aluguelzinho.

 

Perguntado sobre o valor do aluguel, quantificou:

 

-Vinte.

 

Permito-me aqui abrir um parêntese para efeito de avaliação de valores. No ano de 1967, o precadete Dente-de-Sabre vendeu-me um relógio Cyma - de boníssima cepa por sinal - pela  importância de 30 dinheiros. Para fazer face a esse valor, tive de solicitar reforço de caixa ao pessoal do Rio além de abrir mão do soldo de vários meses, sendo constrangido a viver unicamente da piruação alheia. O soldo mensal de um bicho em meia meia girava em torno de 6 (seis) dinheiros. É de se presumir que os vinte dinheiros devidos por Fredinho pelo aluguel do quepe tenham deixado no osso seus rendimentos de quase todo o primeiro semestre.

 

Perguntado se Cídio – o mau – havia imposto alguma exigência adicional para cessão do quepe, Fredinho foi enigmático:

 

- Exigência não. Só uma recomendação.

 

Perguntado sobre o teor da recomendação, Fredinho esclareceu acochambrando no português:

 

- Que eu defenda ele como se fosse minha própria vida.

 

Fredinho sabia que a responsabilidade pela guarda do quepe era gigantesca, mas recusava-se a pensar no assunto. A única coisa que lhe importava era apresentar-se “in totum” para a sociedade coelhonetense.

 

Finalmente, chegou o dia do grande licenciamento. No Pátio da Bandeira, os ônibus que levariam os alunos às cidades de origem, estacionaram alinhados em fila dupla.

 

Concluída a formatura, o Comandante do Corpo de Alunos deu o “Fora de Forma”. Ansiosos, os bichos pegaram suas maletas, correram para os ônibus, ocuparam os assentos e aguardaram a autorização de partida. 

 

O ônibus de Fredinho era o quarto ou quinto da fila. A seu lado, a uma distância não maior que 5 (cinco) metros, estava o ônibus do paulistal. Enquanto a autorização de partida não vinha, os bichos se amontoavam nas janelas sacaneando-se mutuamente. Do lado do paulistal, vinha a provocação:

 

- Vão se foder, ó cariocas do brejo!

 

Do lado dos cariocas, a réplica:

 

- Vão chupar umas rolas, ô babacal do caralho!

 

Fredinho era dos mais animados. Parecia extravasar toda a alegria reprimida durante os dias em que nenhum quepe se encaixava em sua cabeça. No momento de maior ênfase, meteu a cabeça com quepe e tudo para fora da janela e provocou:

 

- Morram de inveja, seus putos! Enquanto eu vou dá um mergulhinho em Copacabana, vocês vão nadar no cagalhão do Tietê. Quá, quá, quá.

    

Neste preciso momento, o ônibus deu a partida. De imediato, Fredinho recolocou sua cabeça para dentro. Na passagem, entretanto, o quepe de Cídio – o mau – resvalou no vidro da janela, desprendeu-se do morro do piolho e despencou no chão do Pátio da Bandeira. Fredinho gritou, desesperado:

 

-Pára! Pára! Pára aí, motorista!

 

Assustado, o motorista cravou o pé no freio e interrompeu a trajetória. Fredinho saltou do ônibus e correu para reaver a cobertura. Foi uma puta decepção. O pneu traseiro literalmente esmagou a relíquia. Não deixou o menor sinal do distintivo kaolizado, das bordas caindo pelas laterais, nem do bico espelhado. O que restou foi uma substância indefinida, achatada, e sem vida. O quepe de Cídio virou um cocô.

 

Da janela do ônibus do paulistal, o então aluno Ruy – hoje Tigrão - captou as últimas imagens deste fato. O que Ruy viu, e deixou para trás quando seu ônibus fez a primeira curva no rumo de São Paulo, foi a imagem de um Fredinho em estado de choque, com o olhar fixo no infinito, segurando o que restou daquilo que um dia foi um quepe de boa cepa. 

 

Não há registros posteriores. Ninguém sabe como Fredinho apresentou-se em Coelho Neto, nem como renegociou a devolução do cocô.

 

Fato é que Fredinho sobreviveu a Cídio e galgou o oficialato.

 

Hoje, seu nome é saudade.

 

Joner 66-003