Reminiscências XLV – O Quepe (Parte 1)
(Texto parcialmente psicografado de Tigrão das
Olibeiras, baseado em fatos reais, manipulados para compor o enredo. Qualquer coincidência é mera
semelhança. A Fredinho minha eterna gratidão)
Ao saber de sua aprovação para a EPCAR, Fredinho
atribuiu-se status de vencedor. Nada mais justo. Tinha passado por meses de
testes exaustivos, e comprovado ser um fiel depositário de “mens sana in
corpore sano”. Tornara-se Cadete do Ar, com todas as honras que o fato implicava.
O mundo era seu.
Na noite de 25/02/66, juntamente com outros
privilegiados donos do mundo, embarcou num ônibus fretado pela Força Aérea com
destino ao reduto das águias. Na manhã de 26/02, chegou à metrópole de
Barbacena. Ainda no ônibus, trespassou o Portão da Guarda e desembarcou
triunfante no Pátio da Bandeira, o coração da EPCAR. Diante da grandeza do
pátio e das instalações que o cercavam, seu orgulho pessoal atingiu o nível
máximo: sentia-se Napoleão Bonaparte do Século XX.
Uma vez em terra firme, ele e os demais recém
chegados receberam instruções de permanecer alinhados em pé, de frente para o
mastro. Após alguns minutos na posição, viram aproximar-se um rapaz em trajes
civis. Andava com desenvoltura e demonstrava familiaridade com o meio ambiente.
Dirigiu-se ao grupo e perguntou. Educadamente:
- Alguém dos senhores tem um cigarro que possa
ceder?
Fredinho não teve dúvidas. A julgar pela fineza de
trato e firmeza de caráter, ali estava um belo exemplar de cadete segundanista.
Ceder-lhe um cigarro de boa cepa certamente abriria caminho para uma relação de
alto nível, de vencedor para vencedor. Lamentou não ser fumante e, por isso,
ter de descartar a oportunidade, deixando ao léu os anseios do simpático bem
sucedido pedinte.
O grupo permaneceu imóvel. Tudo levava a crer que
nenhum dos presentes tinha o hábito de fazer fumaça. O pedinte aproximou-se um
pouco mais, cravou os olhos nos olhos dos noviços e repetiu. Pausadamente:
- Eu perguntei se alguém dos senhores tem um cigarro
que deva ceder.
Finalmente alguém se coçou. Era o rapaz que estava
ao lado direito de Fredinho. Meteu a mão no bolso da camisa e sacou um maço de
Continental sem filtro, novinho em folha. Abriu o maço e estendeu-o ao pedinte:
- Pode pegar, amigo.
Lentamente, o segundanista pegou o maço, deu-lhe uma
mini-porrada contra o cutelo da mão e sacou um cigarro. Sob os olhares
incrédulos da rapaziada, devolveu o cigarro que lhe fora doado e apossou-se do
maço. O noviço, sem compreender a graça da atitude, esboçou argumentar:
- Que é que é isso, amigo?
O
segundanista esclareceu. Professoralmente:
- Eu não sou seu amigo. Sou seu senhor, veterano e
superior. Você aqui ocupa o posto de vassalo, bicho e subordinado. A distância
que nos separa é um ano de sabedoria. Você acaba de reverenciar seu senhor
cedendo um maço de cigarros. Por pura cortesia de minha parte, deixo-lhe dois
presentes: um cigarro e esse ensinamento. Agora, repita comigo: “Muito
obrigado, senhor”.
O bicho ficou vermelho feito camarão e calado feito
coruja. O veterano cravou-lhe os olhos nos olhos e enfatizou. Pausadamente:
-Eu mandei repetir comigo: “Muito obrigado, senhor”.
Até reencontrar o tom e a razão, o noviço emitiu
alguns sons desafinados e desconexos. Depois, resmungou entre dentes:
- Muito obrigado, senhor.
Tão discretamente quanto veio, o segundanista
retirou-se deixando atrás de si uma bicharada estupefata e impotente. Neste
preciso momento, Fredinho tomou consciência da realidade. Suas idéias
preconcebidas não passavam de castelos de areia. O status de vencedor ainda
estava longe de acontecer. Napoleão Bonaparte era o cacete, e Cadete do Ar
menos ainda. Ele e seus pares meiameianos não passavam de bichos escrotos
desembarcados numa savana povoada de leões. Eram as mais insignificantes
moléculas do mais repugnante naco de cocô do mais desprezível dos cavalos do
mais vil dos bandidos.
Esse choque de realidade veio a se corroborar nos
dias seguintes. Confinado na Escola em tempo integral, o bicharal foi submetido
a uma espartana rotina de adestramento militar, sugas físico-mentais e pressões
de toda ordem. Nos intervalos das atividades oficiais, o torniquete se tornava
ainda mais apertado: os abutres do segundo ano caiam em cima da bicharada,
esfolando todo e qualquer resquício de auto-estima ainda existente. 24 (vinte e
quatro) horas por dia, 7 (sete) dias por semana.
Segundo o cronograma oficial da Escola, o primeiro
grande licenciamento estava previsto para a Semana Santa, lá pelo mês de abril.
Essa longínqua perspectiva, aliada aos rigores da rotina diária, determinou o
encerramento prematuro de muitas carreiras meiameianas.
Mas Fredinho era duro na queda. Tinha nas veias a
obstinação do sangue africano, miscigenado com o já miscigenado sangue
português e uma possível pitada de ascendência tupi. Se o sucesso imaginado lhe
escapava, ele o buscaria, não importa onde. Conquistá-lo-ia por partes,
trabalhando com metas modestas e de curto prazo, adequadas à nova realidade.
A primeira meta que traçou para si já seguia essa
linha filosófica. Na Semana Santa, quando lhe fosse dada a oportunidade de
voltar ao bairro de Coelho Neto, de onde tinha saído para abraçar o mundo, ele
haveria de apresentar-se à imagem e semelhança de um verdadeiro Cadete do Ar.
Haveria de portar um garboso Quinto “A”, o uniforme de gala do Corpo de Alunos,
com quepe, luvas, cachecol, sapato social e quaisquer outros adereços
publicitários pertinentes. Pelo menos aos olhos do desinformado público
carioca, ele seria um Cadete Aviador da valorosa Força Aérea Nacional
Brasileira.
A exeqüibilidade da meta estava amparada no próprio
cronograma oficial da Escola, que previa a uniformização completa do bicharal
ao longo do mês de março. Em tese, bastaria a Fredinho comer o pão que o diabo amassou
até a chegada da Semana Santa, para então avançar vitorioso sobre as ruas de
Coelho Neto, portanto por sobre a carcaça o impagável uniforme-troféu.
Os fatos, entretanto, não se desenrolaram conforme
programado. Não por culpa de Fredinho, que foi brilhante no cumprimento do
dever. Quem pisou na bola foi o pessoal
da intendência, ao encomendar uniformes sem levar em consideração a grande
variedade de biótipos do bicharal. Em conseqüência, sobraram quepes para
figurinos acima de 55 (cinqüenta e cinco), e faltaram quepes para figurinos
abaixo de 45 (quarenta e cinco).
A calota craniana de Fredinho fugia aos parâmetros
normais. Mal passava de 40 (quarenta) unidades, distribuídas em formato de
mamão papaya. Quando chegou sua vez de receber o uniforme, nenhum quepe
disponível cobria-lhe o morro do piolho com razoável grau de dignidade.
Fredinho tentou de tudo. Requereu a assessoria do
taifeiro-almoxarife, improvisou
enchimentos com retalho de gabardine, inventou calços antiderrapantes,
experimentou posições arrojadas. Em vão. Os quepes afundavam como verdadeiros
fonsecões, tornando sua imagem irremediavelmente abaixo da linha do aceitável.
Orientado pelo taifeiro, Fredinho procurou manter a
calma e esperar por um ressuprimento extemporâneo. Diariamente, visitava o
almoxarifado para saber se haviam chegado novas coberturas de pequeno porte.
Chongas. O mês de março já ia ao apagar das luzes, a Semana Santa já se
aproximava a passos largos e nenhum quepe novo deu entrada no estabelecimento.
Somente então o assessor confidenciou-lhe, na boca pequena: não havia novas
encomendas na pauta.
Fredinho ficou desolado. A primeira meta de sua
carreira estava por morrer na casca. Sem o quepe, seria obrigado a viajar em
traje civil e a expor à comunidade coelhonetina sua imagem submolecular.
Mas Fredinho era duro na queda. Tinha o sangue
polimiscigenado. Se a oportunidade lhe escapava, ele a buscaria, não importa
onde.
De tanto encafifar, acabou se deparando com uma
remota chance de solução. O quepe que lhe faltava estava no interior da turma
de meia cinco, no epicentro do ninho de cobras. Mais precisamente, na cabeça de
Cídio, um dos três maiores ícones da maldade segundanista.
Joner 66-003