Reminiscências XLIV – Papa-Anjo Ludovelho Pentevico (Epilogo)
(à memória de Marne, minha eterna gratidão)

Ludovico e Marne percorreram trajetórias idênticas na Força Aérea. Foram bichos na Turma C-1, tornaram-se veteranos segundanistas na Turma Boate C-2 e fecharam o ciclo BQ como membros da Turma Delta Rebu. Ao fim do terceiro ano, ambos levaram um sonoro chute na bunda e cada qual seguiu seu caminho: Ludovico voltou à estaca zero, encornando feito puto num cursinho pré-vestibular da Avenida Presidente Vargas, e Marne incorporou-se ao Exército Brasileiro pela valorosa Academia Militar das Agulhas Negras.

Embora a amizade deles fosse intensa e de mão dupla, cada um tinha uma forma própria de gostar do outro: Marne apreciava a erudição de Ludovico. Era sempre um dos primeiros a incitar a “fffoz da sssuga mental”. Ludovico apreciava a inteligência discreta e as características físicas de Marne. Via nele um terreno fértil para o exercício de sua criatividade.

Pentevico começou a forjar o ícone Marne no ano de 1967, na Boate C-2, e tornou-o obra acabada no primeiro semestre de 1968, na Delta-Rebu.

Marne era um insaciável leitor de livrinhos de bolso. Seu consumo chegava a ultrapassar 2 pbpa (pocket books por aula). Enquanto os alunos-padrão se desdobravam em acompanhar as sugo-nabo-sorumbáticas lições, ele navegava entre personagens de mistério, de faroeste e de FBI, os temas de primeira linha. Para contornar a vigilância dos mestres e do próprio fiscal - o espião que todo o mundo conhecia e que volta e meia assomava no visor da porta para nabatizar as irregularidades – Marne mantinha o livrinho aberto dentro de um livrão didático oficial, dando a falsa impressão de que conferia o que estava sendo ensinado. De vez em quando um mestre desconfiava de sua passividade na aula. Convocava-o de surpresa ao quadro para demonstrar a tese da hora, mas o aluno, safo pela própria natureza, cozinhava a autoridade em fogo baixo e voltava à carteira fortalecido.

Marne era bem dotado em quase todos os fundamentos da aviação de caça: operava em multiprocessamento, assimilava informações por osmose, tinha raciocínio turbinado. Faltava-lhe apenas um requisito: a chamada visão periférica. Foi devido a essa minúscula lacuna que ele veio a se tornar a mais célebre criação pentevica.

Marne conseguia executar simultaneamente e com perfeição as seguintes tarefas: ler o livrinho de bolso, assimilar a suga mental oficial, acompanhar os movimentos do mestre à frente e vigiar o visor da porta à retaguarda. O que ele executava mal – talvez por negligência, talvez por imperfeição no D.N.A. – era vasculhar os flancos, era observar os companheiros que o ladeavam, era precaver-se contra o fogo amigo. E foi justamente ali, pelo flanco direito, que entrou o olhar atento de Ludovico e aplicou-lhe uma calça arriada.

Ludovico observou que Marne, quando lia, tinha um hábito bastante singular: mantinha a boca semi-aberta, a respiração descompassada e a língua à mostra. O grau de exposição lingual guardava certa correlação com a densidade do texto. Quanto maior a tensão na trama, mais a gravata vermelha ultrapassava os limites da boca. Quando o livrinho entrava na fase de fechamento, na hora do mocinho sacar da arma ou o agente “Smart” descobrir a identidade do espião, o aluno bufava descontrolado e a língua, tal como hélice desbalanceada, ameaçava desprender-se do berço.

Foi neste cenário de horror que Ludovico encontrou inspiração para rebatizá-lo de acordo com a imagem. Outorgou-lhe então o codinome de Tamanduá.

A nova identidade encaixou como uma luva. A adesão da Boate C-2 foi maciça. Todos, com exceção da vítima, abraçaram a causa.

Com o surgimento de Tamanduá, o ex-opaco safo Marne perdeu privacidade e tornou-se figura pública. Durante as aulas, citações do codinome eclodiam em forma de gritinhos e de referências sutis provenientes dos mais diversos rincões da sala, drenando-lhe o bom humor e prejudicando-lhe a concentração na leitura. Sua performance despencou vertiginosamente. Os índices de produtividade, antes medidos em pbpa, agora não passavam de pífias páginas por dia.

Não sem razão, Marne rejeitou o codinome. Convocou Ludovico em particular e aplicou-lhe uma mijada na minha presença. Aos bufos e com a língua balançando no berço, disse:

- Ô Burrovico, prestenção. Se você não tem nada prá fazer nas aulas, vê se dá uma morgada, ou então procura algum babaca prá jogar batalha naval. Pára de encher os culhões dos outros, pelo amor que você tem à senhora sua mãe. Tamanduá é a puta que te pariu, teu filho da puta.

Com a autoridade de um observador independente, intervim em favor das boas relações:

- Calma, Tamanduá. O bom cabrito não berra. Você é safo e sabe muito bem que o macete é não chiar. Leva numa boa que não tem erro.

Posicionou-me:

- Ô Zero Três, prestenção você também. Fica de fora, que esse papo não é contigo. Vai-te tomar no teu cu, antes que eu te mande prá puta que te pariu a ti também e a qualquer outro fila da puta que me encher os culhões.

Considerei o desabafo não só de péssimo gosto como também fora de propósito. Cogitei tomar providências, mas o bom-senso recomendou-me deixar fluírem os acontecimentos.

Papa-Anjo permaneceu calado. Não porque assimilasse a reprimenda, mas porque seu processo de criação ainda estava em andamento. Durante algum tempo, fixou-se nos trejeitos nervosos de Tamanduá em plena fase aguda. Ato contínuo, virou-se para o mundo e disse solenemente, como se encerrasse uma apresentação da “Voz do Brasil”:

- Senhores ouvintes, acabamos de ouvir a fffffoz de sua Excelência o senhor ... Taaaamanduá, o Mouuuuunstro da Língua de Ouro.

Tamanduá ficou transfigurado. A respiração coxeava e a língua já batia no queixo. Tentou xingar alguma coisa, mas o som saiu prejudicado. Tentou de novo, mas o que se ouviu foram grunhidos monossilábicos. Quanto mais se esforçava, mais a língua esticava, e menos se fazia compreender. Esse círculo vicioso só foi quebrado quando Ludovico, incapaz de decifrar o indecifrável, decidiu imitá-lo. E fê-lo de forma tão feliz que a imitação viria a se constituir no grito de guerra representativo do recém-surgido Monstro da Língua de Ouro. Improvisando uma coreografia própria de quem é chegado a formigas, Ludovico posicionou a língua atrás dos dentes, saltou para trás e fez:

- Llllllllê! Llllllllllê!!

Tamanduá perdeu o eixo. Cerrou os punhos, deu um passo à frente e acercou-se do Papa-Anjo. Observou-o de cima para baixo e de baixo par cima, como se analisasse a melhor forma de descer o cacete. Por fim, deteve-se nos olhos do adversário e, talvez contaminado pela placidez do manto de Nossa Senhora, foi aos poucos se acalmando e voltando à razão. Cobrir alguém de porrada, a essa altura dos acontecimentos, além de transformar a vítima em mártir, consagraria o próprio Tamanduá como legítimo Monstro da Língua de Ouro. Safo como era, não daria essa varada na água. Com gestos estudados, mudou o desenho da fisionomia. Os traços nervosos e contraídos deram lugar a um leve sorriso de simulada indiferença. Afastou-se um pouco. Como se cagasse e andasse para tudo e todos, soltou um risinho milimétrico e disse:

- Taí, gostei. Até que é simpático esse apelidozinho de merda. Tamanduá, o Monstro da Língua de Ouro. Como é que é o negócio? É Lllllllê! Lllllê!?

Ludovico corrigiu:

- Não, rapaz. Prestenção. Você imagina uma formiga vindo de lá prá cá. Aí você abre a boca, mete o linguão atrás do dente, dá um salto pra trás e faz assim: Lllllllê! Lllllllê!

Não me foi dado o privilégio de assistir ao desfecho. Evadi-me às pressas para explodir em gargalhada longe dali, sem o risco de prejudicar as negociações.

Fato é que esse evento tornou-se um marco definitivo na iconização de Tamanduá como o único legítimo monstro da língua de ouro. A partir de então, Ludovico passou a refinar sua obra em doses homeopáticas. Semanalmente, emitia uma espécie de Boletim paralelo com versões em português e em inglês acoxambrado, exaltando a figura do Papa-Formiga.

Os boletins pentivicos seguiam um ritual pré-estabelecido. Convocava ele, com a voz empostada em tom grave:

- Atenção ssssssala para a leitura do Boletim!

Quando o silêncio se estabelecia, ele prosseguia, pausadamente:

“Há diversos tipos de monstro espalhados pelo mundo... Na Inglaterra, temos o Fffffantasma de Hyde Park. Na Escócia, o monstro do Lago Nessssssss. No Brasil, todos conhecemos as estórias que nos foram passadas sobre a Mmmula-sem-Cabeça e o Sssaci-Pererê.

Na metrópole de Barbacena, a terrrrra que não afunda, existe um tipo singular de monstro.”

A essa altura, vinha uma pausa tática. Depois, ele apontava na direção de Marne e gritava em tom dramático:

“ E ei-lo que surge, com mais de meio palmo de língua para fora....Tamanduá, o Mounstro da Língua de Ouro” .

Fechando a encenação, a rapaziada da coreografia dava um salto sincronizado para trás e fechava:

- Lllllllê! Lllllllê!

A versão em inglês acoxambrado seguia o mesmo ritual:

“There are several kind of monsters all over the world. In England, we’ve heart about the Hyde Park Phantom. In Scotland, the Ness Lake monster. In Brazil everyone knows about Mula-sem-Cabeça and Saci Pererê.

But, listen to me sirs: at BQ city, the never-sinking place, we have a very, very special kind of monster, different from all the other ones.”

Pausa, aumento na intensidade da voz, indicador apontado no Papa-Formiga.

“And there he is with half a palm of tongue outside the mouth….Tamanduá, the Goooolden Tongue Monster”.

Salto sincronizado e grito de guerra:

-Lllllê! Lllllê!

Joner 66-003