Reminiscências XLIII – Papa-Anjo Ludovelho Pentevico (Parte 1)
O precadete Roberto não era um tipo comum. Seu próprio fenótipo denunciava.
Uma espécie de moreno-piche com os olhos mais azuis que o manto de Nossa Senhora.
A voz tinha um timbre metálico, algo grave, oscilando entre barítono e baixo
de floral. Quando lhe vinham as crises de sinusite, ela se tornava mais
encorpada, em decorrência dos bolsões de catarro que vibravam incrustados
nas cordas vocais, acentuando as características e tornando-a ainda mais
bela, mais sepulcral e mais metálica. Nesses momentos Roberto,
convicto de arrastar a audiência pela força da palavra,
enchia o peito e abria seus discursos proferindo, de forma melodramaticamente
arrastada, o bordão tradicional:
- Atenção, Sssala! Aqui lhes fffala a sssoporífera fffozzz da ssssuga mental...
Outro traço marcante da personalidade de Roberto era a postura intelectual.
O puto entendia de tudo: de aviação às Zonas de Baixo Meretrício;
de literatura ao cabo da baioneta; da Segunda Guerra às menininhas da
Praça dos Macacos. Falava com desenvoltura. Seduzia pelo conhecimento.
Fazia da garganta arma de agitação em massa.
E não deixava dúvida sobre dúvida. A audiência, embasbacada, ouvia, ria, aderia. Graças a esse dom, Roberto ganhou a alcunha de Ludovico, personagem-criação de Walt Disney que, também pela sabedoria, brilhava nas revistas em quadrinhos.
Ludovico praticamente dizimou Roberto. No seio da comunidade meiameiana, a imagem do moreno-piche tornou-se arraigada na alcunha Ludovico, enquanto o nome de nascimento Roberto desandou para o saco. Essa tese se sustenta no fato de que mesmo hoje, quando os neurônios da memória meiameiana encontram-se carcomidos pelo tempo, Ludovico é unanimidade e Roberto quase incógnita.
Se Ludovico era virtuoso na voz e na palavra, não o era no item desembaraço. Volta e meia, confundia-se em situações triviais, marchando garbosamente com o passo-de-ganso trocado ou assumindo posição de Sentido sem considerar o fato – à época incontestável - de que o polegar também era dedo. Dessa característica, lhe veio o epíteto Pentelho, incorporado à alcunha Ludovico como uma espécie de sobrenome. Nasceu, portanto, Ludovico Pentelho.
À medida que o período BQ avançava, Ludovico agregava novos valores às suas empentelhações. Suas sugas mentais tornavam-se cada vez mais difusas, tendendo para a linha didática de Ratão. Os temas se misturavam e as conclusões eram multifacetadas, levando a caminhos sem volta. Para melhor adequar o nome ao novo perfil psicossocial, a sabedoria popular meiameiana lhe outorgou uma variante mnemônica. Adveio Ludovelho Pentevico.
No que concernia ao item mulherio, Ludovelho Pentevico não costumava pontuar na faixa etária acima dos 17 (dezessete). Sua performance, entretanto, dava saltos de qualidade à medida que a idade da clientela baixava. Entre as preninfetas da Praça dos Macacos cujos peitinhos emergiam aproados na linha do horizonte, o precadete era imbatível. Vivia fazendo “strike”. A exemplo dos grandes nomes da História Universal como Alexandre o Grande, e Floriano o Marechal de Ferro, surgiu para a humanidade Ludovelho Pentevico o Papa-Anjo.
Pentevico foi um mestre na criação de ícones. Deixava Duda Mendonça comendo poeira. Enquanto este, usando toda a parafernália tecnológica de marketing do terceiro milênio, fracassou em dar uma simples prefeitura a uma sexóloga já consagrada, aquele, com os recursos incipientes dos anos 60, fez do incógnito coceba precadete Chaia o halterofilista por excelência do biênio 67/68.
Ludovico trabalhou Chaia desde a base. Começou outorgando-lhe um lápis Johan Faber número 2 e propondo: “Usa da força que Deus te deu, ergue lenta e gradualmente esta massa e eu te farei um halterófilo”. Chaia aceitou o desafio. Levantou o lápis e conquistou a fama. Pela boca de Ludovico, o evento ganhou notoriedade e se espalhou feito gonorréia. A partir de então os levantamentos de peso promovidos por Chaia tornaram-se shows cômico-esportivos de grande prestígio intra-EPCAR.
Sempre sob o patrocínio de Ludovico, Chaia superou desafios cada vez mais difíceis. Depois do lápis, vieram as borrachas. Depois, veio o apagador, vieram os livros cada vez mais pesados, culminando com um calhamaço de Desenho Técnico. O ápice das demonstrações foi quando o time de futebol da Turma Boate C-2 meteu um chocolate de 3 (três) a 0 (zero) numa co-irmã do Listão estrelada por Rabiola e Cachorrão. Para comemorar o massacre Chaia reuniu, no centro do alojamento, uma multidão de simpatizantes, a quem proporcionou o mais dramático levantamento de bola de que se tem notícia.
A mega-operação consumiu 15 (quinze) minutos e 3 (três) tentativas. Começou com uma platéia de dez apáticos gatos pingados e terminou com a ovação de meio alojamento. Ludovico acumulou as funções de locutor e cabeça-de-ponte. Disse aos presentes na abertura:
- Atenção, alojamento! A Boate C-2 acabou de enfiar um papácu no Rabiola. Nosso beque halterófilo há de soerguer a portentosa bola que em 3 (três) oportunidades balançou a roseira de Cachorrão. Com vocês, a força de .... Chhhhaia!
Fez-se silêncio. A bola jazia imóvel no chão. Chaia aproximou-se. Encarou-a por alguns instantes. Depois, olhou para cima. Evocou ajuda superior. Voltou a encarar a bola e a pedir a ajuda de cima. Um minuto nessa punhetaria. De repente, caiu de boca, agarrou o peso e iniciou o levantamento. Sobe um pouco, desce um pouco, sobe um pouco, desce um pouco, evoluindo aos peidos até chegar à altura da barriga. Nesse ponto, as pernas começaram a tremer, o centro de gravidade fugiu do umbigo, o precadete desfez-se do peso e desabou pesadamente sobre o assoalho. Ouviu-se uma gargalhada geral, mas Ludovelho reassumiu de pronto o comando:
- Atenção, alojamento! Shhhht! Atenção aí, ó Alojamento!
A voz metálica ecoou no ninho das águias e sensibilizou outros precadetes que, aos poucos, foram se juntando aos gatos pingados iniciais, dando um considerável gás no tamanho da platéia.
Ludovelho reiterou:
- Shhhhhht! O Alojamento encontra-se em regime de atenção!
Fez-se o silêncio. Ludovico prosseguiu, enigmático:
- De quem estamos rindo? De nós mesmos?
Ele mesmo respondeu, com ar nabático-professoral:
- Sim, porque a derrota é de todos. Não é preciso ser Winston Churchill para saber que uma guerra se ganha com todos lutando o tempo todo nas praças, nas ruas, e até na casa do caralho. Portanto eu os convoco a empregar a força de suas mentes para ajudar nosso halterófilo a levantar o balão de couro.
Fez uma pausa estratégica e completou:
- Com vocês a força de Chhhhaia!
Bola no chão. Chaia repetiu todo o ritual pré-levantamento. Pediu a ajuda de cima. Caiu de boca. Fez o sobe-e-desce lento e gradual, dessa vez com envolvimento da assistência. Ultrapassou a altura do peito com certa dificuldade, chegou ao nível do nariz. Nesse ponto, voltou a apresentar sintomas de estol. O joelho dobrou, a perna tremeu e o precadete destabacou-se no taco.
A platéia, já calejada, deu uma gargalhada breve e logo se calou, aguardando a intervenção do Papa-Anjo.
Ludovico cerrou a fisionomia e retomou a palavra. Começou reproduzindo um pseudo Castello entre enfático, histérico e desbocado:
- Tem algum puto cansado aí?
A assistência respondeu a meia bomba:
- Nããão.
Continuou:
- Hoje eu estou meio surdo! Não escutei chongas! Perguntei se tem alguém cansado e vou repetir: tem algum puto cansado aí?
A assistência aderiu em brado retumbante:
- Nãããããããõ!
De tão alta, a voz da massa ultrapassou os limites do alojamento, e atraiu a curiosidade dos desgarrados que bundeavam nos arredores. Estes deslocaram-se em ritmo acelerado para o epicentro das operações, arrastando novos desgarrados que se encontravam no meio do caminho. Rapidamente, um efetivo de meio alojamento já se acotovelava, disputando espaço ao redor dos performáticos.
Empolgado com o inchaço na audiência, Ludovico pagou geral. Afinou a voz e abriu o mijão no estilo Thomé:
- Tem muito malandro aqui me dando golpe. Eu quero incentivo, quero grito. Essa é a última chance. Quem acoxambrar leva ferro.
Recompôs-se e voltou a imitar a si próprio:
- Com vocês a força de... Chaia!!!
No início, os poucos incentivos que se ouviam eram abafados pelas gargalhadas da grande maioria, ainda descomprometida com a grandeza da tarefa. A platéia parecia cagar para as emulações de Papa-Anjo, e o ambiente se deteriorava para o nível de ZBM. Com ar de desânimo, Chaia deu início aos trabalhos. Dispensou a ajuda superior e caiu de boca. Fez um sobe-e-desce burocrático. Passou pela altura do peito sem sobressaltos, chegou ao nível do nariz. Nesse ponto, deu uma vacilada. O joelho dobrou, a perna tremeu, os olhos se esbugalharam. Tal como Júlio César diante de Brutus, o precadete começou a cair.
O que se viu depois foi um raro fenômeno de massa. Algo que o psicólogo-aviador Brevetani chamaria de Empatia Coletiva - capacidade das massas humanas incorporarem sentimentos e sensações de outras pessoas. Já o Bispo Macedo diria ser “a força da fé” escorada nas trombetas de Gideão. Este ensaísta, levado de roldão pela massa, apenas boiou feito bosta na água.
Cada espectador foi Chaia, Chaia foi a força de todos os espectadores. O riso indiferente e generalizado deu lugar aos gritos de guerra, injetando adrenalina diretamente na veia do precadete, turbinando-lhe até o último fiapo de pentelho.
A primeira reação de Chaia, por si só, foi um milagre. Ele congelou a queda em pleno andamento, revogando por um momento a Lei de Newton. Enquanto os gritos aumentavam de intensidade, estabilizou a posição, trouxe o centro de gravidade de volta ao umbigo e retomou a trajetória de subida. Esticou os braços acima da cabeça. Levou o peso à altura máxima. Foi ovacionado como ninguém. Estava levantada a bola. Estava ganha a guerra.
Chaia saiu carregado nos braços da massa e aclamado como herói nacional. Tornou-se figura lendária em assuntos halterófilos e teve seu nome incorporado às grandes criações de Ludovico.
Dos ícones forjados por Ludovico, entretanto, Chaia não foi o mais notável. Essa regalia coube ao precadete Marne, por quem Papa-Anjo tinha um carinho tão especial que a ele dedicou sua obra-prima.
Mas essa é outra história.
Joner 66-003