Reminiscências XLII – Madame Hilda (Epílogo)
Depois de correr sofregamente por sobre os
dormentes da linha férrea, indo no sentido da escuridão, encontrei a silhueta
estática de uma mulher que parecia esperar por alguém.
Eu não a conhecia, mas sabia tratar-se de Hilda.
Madame Hilda, o maior mito sexual da história da EPCAR no triênio 66/68.
Dela, o Corpo de Alunos dizia coisas do arco da
velha. Que fazia sexo com a naturalidade de quem obrava atrás do toco. Que
limpava o trilho sem distinguir o freguês, elevando o coito democrático ao
status de filosofia de vida.Tudo rigorosamente sem sair da linha. Se
solicitada, dava até para camofo à paisana. De graça. Somente para exercer sua
arte em favor de quem precisa. Uma versão herege, porém não menos pura, de
Madre Tereza de Calcutá.
Eu não me perdoava por não conhecê-la. Esse rombo
no curriculum me tornava um comedor desprestigiado até por mim mesmo. Eu era
obrigado a ouvir da concorrência as mais mirabolantes estorinhas de relações
sexo-ferroviárias realizadas sob patrocínio de Hilda, sem ter a possibilidade
de acrescentar um único adendo baseado em experiência pessoal.
Finalmente, era chegado o momento. Madame Hilda, a
“pop star” do setor ferroviário,
estava diante de mim, em carne e
osso, pronta para ser solada.
Dada a responsabilidade do momento, quebrei o gelo
de forma convencional, porém incisiva:
- Boa noite, minha boa senhora.
Ela demorou a reagir, mas acabou cedendo:
- Boa noite, rapazinho.
Estudei o próximo passo. Era preferível avançar com
lentidão e segurança a queimar etapas e espantar a gazela. Enquanto eu pensava,
irrompeu entre nós o famélico cri-cri Brás. Com a sutileza de um trator
desgovernado, foi logo jogando o braço por sobre o ombro da moça e arrastando-a
para sabe-se lá onde.
Embasbacado com a extemporaneidade do gesto,
questionei:
- Me diz uma coisa, rapaz: que porra é essa?
Respondeu, sem olhar para trás:
- Fica na tua aí, Zero Três.
Perdi a compostura. Corri atrás do casal, arranquei
o braço infrator de cima do que era meu, e desabafei:
- Na minha frente ninguém vai me botar chifre não,
senhor.
Brás:
- Que chifre? Ta maluco, rapaz? Quer que te
apresente? Okapa. Essa aqui é Hilda. Não é nenhuma das piranhólogas que você
anda comendo por aí. Ela é e sempre foi caso meu.
O cinismo do arataca violentava os limites da
razão. Toda a escola sabia ser Hilda mulher de domínio público. Reivindicar
exclusividade soava, no mínimo, como desrespeito à própria ideologia que ela
representava. Botei as cartas na mesa:
- Chega de circo! Hilda, você vem comigo. Depois
pode dar pra ele à vontade.
Brás:
- Quer dizer que agora eu é que sou o chifrudo?
Negativo. Hilda, você vem é comigo.
Esticamos a moça, puxando-a para lados opostos. Em
dado momento, ela fez ecoar seu brado de independência:
- Pera aí, me larga, caráio! Tão pensando que eu
sou o que? Resolve logo quem é que vai, se não eu vou embora.
Não havia mais como evitar o confronto direto. A
primazia tinha de ser conquistada a tapa. Mordisquei o crocodilo:
- Então, veadinho. Como é que fica?
Ele:
- Fica desse jeito: eu vou te meter a porrada.
- Então vem, se tu é homem.
Cerrou um punho e socou a palma da própria mão,
procurando intimidar. Avançou. Recuei. Parou. Fustiguei. Recuou. Avancei. Deu
um soco no vento. Contornei-o, aguardando a oportunidade de dar um bote. Quando
completei a terceira volta, Hilda intercedeu:
- Como é que é? Vai ficar rodando que nem peru?
Sinalizei arrego e suspendi as hostilidades. Sugeri
resolver a pendenga reservadamente, para evitar a interferência da platéia em
favor do mais fraco. Ele acatou. Brifou a moça:
- Hilda, você espera aqui só um minutinho. Nós
vamos resolver isso de homem para homem, sem ninguém pra separar. Um de nós
volta pra te comer e o outro fica estirado no chão. Ta bom assim?
Hilda:
- Ta bom, ta bom, mas vê se não demora, que meus
penteios tão gelando.
Afastamo-nos até um ponto onde sua visão não nos
alcançava. Baixamos a bola e discutimos cavalheirescamente o assunto, até
alcançarmos o ovo de Colombo: caberia à própria Hilda, na qualidade de usuária,
definir a ordem segundo a qual gostaria de ser servida. Doesse em quem doesse.
Fechamos o acordo e exaltamos a solidez de nossa
amizade, que sobrevivia ilesa a um entrevero de tamanhas proporções. Retornamos
ao ponto onde havíamos deixado a moça, a fim de comunicar-lhe a conclusão e
ouvir o veredicto. Para decepção nossa, ela não mais estava lá. Vasculhamos os
arredores. Nenhum vestígio. Gritamos por ela. Nada. Xingamos. Menos ainda.
Todos os indícios nos levavam a crer que estávamos irreversivelmente de pau na
mão.
Por algum tempo permanecemos calados,
decepcionados, de olhos fixos nos trilhos desertos, como se esperássemos por um
milagre. Foi Brás quem primeiro se manifestou:
- Era isso que tu queria, ô empata-foda
desmaceteado? Agora quem é que vai trocar meu óleo? Quem é que vai pagar minha
zona? Você, por acaso?
Tentei apresentar minha visão do problema, mas ele
não ouvia. Babava de raiva, gaguejava junto comigo e abafava minha fala.
Cogitei de dar-lhe uma porrada para ver como era que ficava, mas percebi que
nem sequer isso era oportuno. Naquele momento, só havia espaço para indiferença
e menosprezo. Falei, de dedo em riste:
- Quer saber de uma coisa?
Ele se eriçou, querendo briga:
- Vai querer o que, porra?
Eu:
- Se você ainda tiver alguma vergonha no chifre,
nunca mais volte a dirigir-me a palavra.
Abriu um sorriso indefinido e ponderou:
- Até que enfim tu bostejou alguma coisa que
preste. Sabe como é que eu ajo com amizades de teu nível? Eu cago e ando pra
não fazer montinho. Nossas relações estão definitivamente cortadas.
O gelo começou ali mesmo, mas a circunstância
obrigou-nos a postergar o início do pacto. Estávamos em pleno exercício de
V.I., e o reingresso na escola dependia de apoio mútuo. Somente depois de
pulado o muro e baipassada a sentinela, cada um seguiu seu destino, e o gelo
pôde finalmente estabelecer-se em caráter definitivo.
O definitivo durou uma semana. Sucumbiu diante da
Lei do Golpe Universal, corruptela da Lei de Gravitação Universal, a qual
preconizava que “o que une os golpistas é mais forte que o que os separa”.
Novas situações de risco surgiram, ambos
voltamos a requerer apoio recíproco e o pacto de gelo eterno acabou em pizza.
Para mim, o evento Hilda foi uma mancha ridícula de
nosso passado juvenil, já que ambos conseguimos a proeza de passar fome diante
de um abundante prato de comida. Para Brás, nem tanto. Ele tem uma versão
diferente para o final da estória. Uma versão que tira o seu (dele) da reta e
me deixa como perdedor solitário.
Diz o outrora além-arataca e hoje respeitável
senhor que, ainda naquela histórica madrugada de meia sete, voltou sozinho à linha
férrea, reencontrou Madame Hilda sentada num dormente e viveu com ela o mais
vulcânico dos sexos ferroviários. Papai Noel existe.
Joner 66-003