Reminiscências XLI – Madame Hilda (Parte 2)

 

Eu estava há 20 (vinte) minutos espreitando a linha férrea. Ninguém passou por ali. A brisa gelada que vinha do lado da estação perfurava a japona externa, a camisa do meio e a camiseta de dentro, tornando dolorosa a espera e fazendo crer que a decisão de sair do alojamento naquela circunstância tinha sido não mais que uma varada-na-água.

 

Meti a mão no bolso, peguei as luvas, calcei as mãos.

 

Pelo relógio de Pica-Pau, já estaríamos beirando a primeira hora da manhã. O mulherio da fábrica de tecidos teria encerrado o expediente às 22h00 e passado por ali antes das 23h00, fechando o chamado “horário linear nobre”. As franco-atiradoras de Deus-sabe-onde não tinham horário fixo, mas dificilmente trocariam o aconchego de seus lares para aventurar-se na inclemente madrugada bequeana sem garantia de retorno para o investimento.

 

Desisti da empreitada. Dei meia-volta. Quando ia iniciar o retorno aos cobertores, percebi a aproximação de um vulto proveniente do Pátio das Paineiras. Tomei as precauções protocolares, já que poderia ser um papácu noctívago: coloquei o bibico, baixei a gola da japona e mantive a posição. Tranqüilizei-me. O vulto vinha com andar maceteado, a gola da japona suspensa e o pensante descoberto. Era caçador. Era o além-arataca Brás.

 

Chegou manifestando-se surpreso:

 

- Até tu, Zero Três?

 

Respondi:

 

- Até tu o que?

 

- Até tu já descobriu o macete de caçar nas madruga?

 

- Macete? Ficar de pau na mão, congelando até o último fiapo de pentelho é macete? Só se for na tua terra. 

 

Não gostou da referência à sua origem piauiense e passou à agressão verbal:

 

- Tô vendo que além de camofo recalcado tu não entende é porra nenhuma de mulher.

 

- Mulher? Isso mais parece um cemitério. E digo mais, mofi: hoje não se pega nem alma penada.

 

Riu acintosamente:

 

- Quá, quá, quá. Vai, vai dormir, ò papa-anjo. Amanhã eu te apresento um boletim de ocorrências.

 

Deixei-o a sós, mas ainda fui obrigado a assimilar a última alfinetada à retaguarda. Disse o mau elemento:

 

- Olha aí, ô camofinho unicórnio. Antes de ir pra a cama não esquece de dar uma passadinha na cabine pra descascar a banana, ok? Qua, qua, qua! Qua, qua, qua!

 

Ignorei a baixaria e mantive o rumo do alojamento. Ao longo do caminho, entretanto, fiquei encafifado. A autoconfiança do além-arataca não era coisa fortuita. Uma cobra criada como ele jamais haveria de tripudiar sobre meu cadáver sem dispor de trunfo na manga. Em sendo verdadeira essa premissa, ele teria a possibilidade de abocanhar alguém que, pelo princípio da hierarquia, me pertencia. Não. Eu não poderia admitir tamanha usurpação. Acima de mim, só Deus e avião.

 

Dei meia-volta na meia-volta. Acelerei o passo. Reencontrei o crocodilo num ponto mais camuflado da plataforma. Voltou a estranhar minha presença, desta vez com o senso de humor menos apurado:

 

- Voltou por que, ô pentelho? Cruzou com alguma naba?

 

- Mudei de idéia. Minha intuição de A.V. tá dizendo que isso aqui ainda vai dar caldo.

 

Recorreu à pressão psicológica:

 

- Puta que pariu! Às vezes eu me pergunto: que porra de psicotécnico foi esse que fez de você o Zero Zero Três e eu o duzentos e porrada?! Vai dormir, orelhudo. Hoje não pinta chongas. Presta atenção: qual o maluco que vai tirar a roupa numa friagem dessa?  

 

O novo tom do discurso só fez turbinar minha suspeita. Questionei:

 

- Se você tem certeza que não vem ninguém, então o que é que vai ficar fazendo aqui?

 

Simulou ar de tristeza:

 

- Estou com grilo e vim fazer uma meditação.

 

Apelei:

 

- Grilo é os culhões. Cheguei aqui primeiro. Sou o mais antigo no posto. Não abro mão de minha autoridade. Se alguém aqui vai comer alguém, esse alguém serei eu. Doa em quem doer.

 

Exasperou-se. Disse que eu era isso, disse que eu era aquilo Não poupou nem a minha mãe. 

 

Por algum tempo, permanecemos trocando “jabs” verbais diante da ferrovia deserta, em plena madrugada, disputando prioridade sobre uma remota expectativa de pseudo-direito, num espetáculo que só fazia sentido enquanto comédia surrealista. Esgotados os estoques de impropérios, impusemo-nos um silêncio de indiferença, fazendo crer que nossas relações estariam irreversivelmente cortadas.

 

Com o tempo, entretanto, fomos recuperando a calma e restabelecendo a razão: Percebemos a futilidade daquela conduta. Selamos um acordo de cavalheiros alicerçado em três pontos, a saber: 1) O direito de servir-se de uma eventual transeunte seria extensivo a ambos; 2) A ordem no exercício desse direito seria definida por um honesto par-ou-ímpar. O vencedor comeria primeiro e vigiaria depois, e o perdedor vigiaria primeiro e comeria depois; 3) Constituía compromisso moral do vencedor empreender esforços para ejacular com objetividade, liberando a transeunte para o elemento da reta.

 

Acordadas as regras, posicionamo-nos para a definição das prerrogativas. Meu opositor manteve-se de frente para a linha férrea, e eu me virei para a fachada da escola. Coube a ele dar início aos trabalhos. Perguntou:

 

- Par ou ímpar?

 

Eu:

 

- Par.

 

Ele:

 

- Ímpar

 

Eu:

 

- Um, dois, três e...

 

Não me foi dada a oportunidade de completar a fala. Com os olhos esbugalhados e fixos no lado direito, ele exclamou:

 

- Chegou a Hilda!

 

Dito isso, assumiu ares de plenipotenciário. Abandonou a disputa, dirigiu-se à beira da plataforma e começou a procurar um ponto adequado, para saltar na linha com segurança.

 

Percebendo minha autoridade vilipendiada, não medi conseqüências. Atirei-me sobre as pedras e caí correndo na direção em que o nariz do crocodilo tinha apontado.

 

Encontrei Hilda a três piscinas do ponto de toque.

 

Joner  66-003