Reminiscências XL – Madame Hilda (Parte 1) 

 

Junho de meia sete, 22h00.

Com as bucólicas notas do toque de silêncio o corneteiro deu por encerradas as atividades do dia. As luzes do alojamento se apagaram. Desfez-se o clima de zona ostensiva e estabeleceu-se uma quietude sepulcral, entrecortada pelo som de pequenas babaquices ditas em tom de sussurro na penumbra recém-instalada.

Tirei o borzeguim, puxei o cobertor, deixei o corpo tombar sobre a cama e apaguei. Algum tempo depois, fui acometido por um pesadelo de fundo erótico. Acordei assustado, antes que as primeiras gotas trespassassem a cueca para engomar a gabardine.

Abri os olhos. Vislumbrei o Plantão do Alojamento caminhando silenciosamente nas imediações. Sussurrei-lhe:

- Psst! Zé Carioca. Que horas tem aí?

Respondeu no mesmo tom:

- Onze e porrada, mofi. Agora vê se sossega o rabo e pára de agitar no meu serviço. 

Enfiei a mão sob a calça. Felizmente a umidade era incipiente e estava restrita à cueca. Inspecionei o ferramental. Havia evidentes sinais de rigidez e azeitamento. Fixei o olhar no teto e procurei concentrar-me em temas broxo-sugatórios. Era preciso afastar os maus pensamentos, retomar o equilíbrio do corpo e a paz da alma.

Passados 30 (trinta) minutos, a única mudança observada no cenário foi a troca de plantão. Saiu o manemolente Zé Carioca e entrou o rígido Pica-Pau. O teto se mantinha monotonamente imóvel, e eu seguia matando o cachorro a grito. 

Desisti de brigar contra a força da natureza. Levantei-me. Olhei em volta. Havia expressiva quantidade de leitos vazios, sobretudo no lado reservado ao pessoal do kaol. Presumi que os c.d.f. fundamentalistas ainda estariam de vigília intelectual nas salas de aula. Já as carcaças presentes dormiam a sono solto, como se suas necessidades sexuais fossem um conjunto vazio, ou estivessem sincronizadas com os dias oficiais de licenciamento.

Recoloquei o borzeguim. Dirigi-me ao armário. Peguei o cachecol. Enrolei-o ao pescoço. Levantei a gola da japona.

Nesse preciso instante Pica-Pau, que vinha observando minha movimentação, abordou-me no exercício de sua autoridade de Aluno-de-Dia-ao-Alojamento:

- Que é que há, Zero Três? Qual o motivo da alopração?

Sobrepus-lhe minha pergunta:

- Que horas tem aí?

- Meia-noite e pouco. O que é que você tem? Está sentindo alguma coisa?

- É, de fato eu ando meio macambúzio.

- Que? Professor Mabuzzi?

- Não, mofi. Macambúzio, isto é: sorumbático, nauseabundo.

- Tô entendendo. Está precisando de meu apoio?

- Não, não. Pode deixar que eu me viro sozinho.

Percebeu que eu sonegava informações e sentiu-se desprestigiado. Fustigou: 

- Que é que há, rapaz? Tá desmerecendo meu serviço?

Arrefeci:

- Negativo, jovem. Eu sei que seu serviço é padrão, mas nesse caso específico, você é bananeira que não dá cacho. Veja só o meu estado – respondi, apresentando o ferramental.

- Que é que é isso!?? – exclamou, ao tempo em que se afastava preventivamente – Eu não tenho autoridade prá resolver esse assunto. Procura dar uma mijada e esfriar a cabeça que melhora. Caso contrário, eu reporto ao Oficial-de-Dia.

Esclareci:

- Calma, rapaz. Eu tô maceteado. Vou dar um pulinho na sala de aula e estudar um pouco de Filosofia. Antes de chegar à segunda página eu já fico piano. Agora, com sua licença.

Pica-Pau referendou o macete e disse que passaria também a adotá-lo em causa própria. Saí do alojamento. Dobrei à direita. Segui pelo corredor. Dobrei à esquerda. Dobrei à direita. Passei à frente do depósito de material bélico. Passei pela barbearia. Emergi à frente da escola. Acenei para a continência da sentinela. Dei uma leve queda de asa à direita. Segui em frente. Finalmente alcancei o objetivo: a plataforma de acesso à estrada de ferro.

A linha férrea atravessava o terreno da escola, separando a praça de esportes das demais instalações. Ficava a cerca de 4 (quatro) metros abaixo do nível da plataforma. Para ter acesso à linha, o aluno precisava de algum condicionamento físico. Deveria pendurar-se na borda da plataforma e cair sobre as pedras que sustentavam os dormentes.

Uma vez estando na linha, o retorno à plataforma era missão quase impossível. Somente uma minoria privilegiada – minoria essa que portava o número 66-102 - conseguia grudar-se nas porosidades do paredão e subir até a borda da plataforma, no melhor estilo de homem-aranha. Ao cidadão comum restavam as alternativas de ser resgatado por um plataformista, ou contornar a escola para tentar uma escalada por sobre o capitão muro.   

Pela linha, circulavam pedestres que vinham do lado da estação para o lado da rodovia e vice-versa. Do universo de usuários, interessava-nos particularmente o mulherio que dava expediente noturno na fábrica de tecidos,  e as respeitáveis piranhas que atuavam no mercado “spot” como quebra-galho emergencial dos sem-mesada.

O trecho do lado da estação gozava de pouco prestígio. Era movimentado e dispunha de iluminação pública, fatores que o contra-indicavam para a prática de sexo a céu aberto.

O “filet mignon” estava do lado da rodovia. Lá, o tráfego era ralo e a visibilidade tendia a zero, sobretudo quando as nuvens barbacenenses se interpunham entre a lua e o pecado. Mesmo nas noites de lua cheia e céu de brigadeiro, o macambúzio tinha a prerrogativa de mandar pirão sem sobressaltos, bastando para isso selecionar com um pouco mais de rigor o local de fixação da residência.

O colchão de relva densa era preferível ao de chão nu. Sendo mais macio, proporcionava relativo conforto à primeira dama. Recomendava-se inspecionar criteriosamente a vegetação, de forma a prevenir não-conformidades de origem animal – formigueiros, escorpiões e assemelhados – ou vegetal -  plantas espinhentas ou geradoras de comichões na bunda. Outra vantagem da relva, dessa vez em benefício do aluno, era a preservação da roupa de cama. Na relva a chamada japona-de-cama, estendida cavalheirescamente como lençol nupcial, ficava menos sujeita às seqüelas deixadas pela lama e/ou pelo pó de pedra.

Para o fim a que se destinava, a plataforma era um ponto estratégico de primeiro mundo. Dela, o macambúzio tinha visão global das silhuetas passantes, sem a preocupação com detalhes supérfluos. Somente duas informações eram relevantes: se o transeunte portava saia e se fez o sinal de “papo firme à la Roberto Carlos” antes de desaparecer na curva. Satisfeitas tais condições, tornava-se automaticamente viável o tombo nas pedras.

Estabeleci-me num ponto de observação menos iluminado da plataforma. À frente, a linha férrea jazia deserta e adormecida. À retaguarda, a fachada da escola erguia-se com seu porte majestoso e iluminação discreta.

Nada a fazer. Era tempo de aguardar a chegada do destino.

Joner  66-003