Reminiscências XXXIX – Coquetel Molotovi (Epílogo)
Girava
ainda a caneca sobre a mesa do rancho, quando o meia cinco Gaúcho deu pela
falta do tijolinho de goiabada cascão por ele piruado em absoluta primeira
hora.
Sua
reação inicial foi de estupefação. Deu-se um tapa na testa e espetou:
-
Porrrra, guri! Não eras tu que devias trazer minha sobremesa?
A
pergunta me pegou de calça arriada. Naquele instante, minhas únicas
preocupações eram a alça da caneca e a periculosidade de Rômmel. Respondi, no
reflexo:
-
Sobremesa? Quem? Eu?
Ergueu-se
da mesa e veio em minha direção, com o firme propósito de apossar-se do objeto
de piruação. Estendeu o gancho e emputeceu-se, ao constatar que o tijolinho
tinha ido para o saco:
- Puta
que o pariu, tchê! Não vais me dizer que deixaste outro babaca piruar minha
goiabada!
Se eu em
bundas estava, em bundas me afundava. Vislumbrei apenas duas opções: contar a
verdade e levar a pecha de bizuzeiro ou cozinhar o galo e vestir a camisa de
bicho burro. A segunda alternativa se adequava mais apropriadamente ao meu
perfil. Falei:
- Eu
vinha andando e de repente... zip! A goiabada sumiu.
Fechou o
punho como se pretendesse baixar a porrada. Refreou o impulso. Botou a mão no
queixo. Voltou a sentar-se. Deu um soco na mesa:
- Bah!
Olha bem nos meus cornos, seu Fela da Puta! Eu tenho cara de débil mental, por
algum acaso?
Olhei-o
com reverência sacerdotal e dei a resposta possível:
- Não, senhor.
- Então o
débil mental és tu, seu bicho escroto da porra.
Conservei-me
fechadinho como mandava o Manual do Bicho Safo, assimilando os predicados com a
serenidade de aviador em início de carreira.
Dirigiu-se
ao resto do bicharal:
- Vocês
aí, seus fedorentos. Despiroquem-se imediatamente. Quero a área limpa, que eu
vou tirar o couro desse caga-pau.
Um a um,
os noviços meia-meianos pegaram as respectivas bandejas e evacuaram entre
felizes e embasbacados com a antecipação da liberdade. À saída do último,
Rômmel levantou-se, apontou-me com o indicador e falou aos companheiros:
- Aqui
tem platina demais prá estolar um merdel desse. Vou deixar os senhores a sós,
que eu ainda tenho de convocar um voluntário prá escoltar minha roupa à
lavanderia, e ir jogar uma sinuquinha no cassino.
O
desenrolar dos fatos me agradava. Se por um lado eu lamentava a ausência do
bicharal à mesa, por outro a saída de Rômmel me deixava tranqüilo para deglutir
o Coquetel Molotovi sem maiores riscos de sofrer penalidades megalômanas
paralelas.
Gaúcho
espumava de raiva. Não queria conversa. Pegou uma colher, imergiu-a no coquetel
e homogeneizou a mistura. Empurrou a caneca em minha direção. Quando ia dar a
voz de comando, Rato interveio:
- Ôpa.
Pera aí. Tò achando esse bicho muito aberto. É melhor reforçar o catalisador e garantir
o resultado.
Tirou do
bolso um vidrinho de mercúrio cromo e entregou ao companheiro.
Gaúcho
abriu a tampa. Despejou o conteúdo na caneca. Pegou a colher. Re-homogeneizou a
mistura. Deu uma cheirada. Fez cara feia. Sorriu com ar vitorioso. Instruiu:
- Vamos
lá, ô subnitrato de merda. Ou bebes ou comes.
Fiquei
mordido. Não por ter recebido o apelido privativo de Arthuro Ximbanski,
co-bicho que merecia minha mais profunda admiração. Mas porque a intenção do
outorgante não era outra senão baixar o moral do outorgado ao nível de menos
infinito. Decidi que uma resposta à altura seria dada à mesa, onde eu haveria
de impor ao Coquetel Molotovi a humilhação de ser deglutido como se fosse um
inócuo Grappette.
Recolhi a
caneca. Levei-a à boca. Prendi a respiração. Engoli. Tudo de uma vez. E ainda
de respiração presa, encarei os dois panacas, para deixar claro quem era de
fato o subnitrato de merda.
Quando
considerei inquestionavelmente demonstrada minha superioridade, permiti-me
finalmente voltar a respirar. Eu tinha esse direito. Mas esse foi meu erro.
Nunca até
então e jamais desde então cheirei nada que pudesse ao menos amarrar a chuteira
daquele cheiro. Se comparado a ele, o bafo de Bolzan pós-ovo tinha o aroma das
rosas barbacenenses.
Não deu
tempo. Num arroubo peristáltico aleatório, devolvi à mesa o material que foi
dela tirado. De bonificação, seguiram pedaços de bife semi-metabolizados, leite
talhado, bílis de refluxo e possivelmente algumas partículas de estômago
banhadas em mercúrio cromo.
Ao
colidir contra a fórmica ultra-lisa da mesa, o material espalhou-se em todas as
direções. Respingos avantajados explodiram nas japonas dos estupefatos Gaúcho e
Rato. Ainda que tardiamente, eles puxaram a cadeira para trás e gritaram desordenadamente:
- Felá da
Puta, Felá da Puta, mil vezes Felá da Puta!
Eu estava
consciente da transgressão e temeroso das conseqüências, mas era incapaz de
conter as irrupções. A cada xingamento recebido, apontava-lhes o nariz para
pedir desculpas e aliviava a carga em cima deles. Gaúcho procurava manter-se
afastado ao tempo em que tentava retomar o controle:
- Bicho
ao meu comando. Bicho, Sssssssentido! De
boca: vinte!!
Inútil.
Entre uma e outra golfada, eu me esforçava para fazer uma retratação, mas as
frases eram cortadas no meio do caminho e novos respingos iam encontrar abrigo
nas japonas da rapaziada.
Ao
perceber que eu me transformara em animal com incontinência vomitiva e
irreversivelmente ingovernável, os veteranos mudaram a postura. Suas fisionomias
de poder e maldade adquiriram contornos de humildade e cagaço. Cagaço não só
pela ameaça que eu representava às suas japonas como também às suas carreiras,
visto que meu comportamento de piroca voadora podia despertar a curiosidade de
uma eventual autoridade.