Reminiscências XXXVIII – Coquetel Molotovi  (Parte 2)

 

A mesa do gaúcho era bem posicionada. A pilastra à frente funcionava como escudo natural contra olhares curiosos de  autoridades que assomassem à porta do rancho.

 

A naba que quisesse flagrar alguma irregularidade teria de deslocar-se até o interior do estabelecimento. A essa altura, o obrigatório comando “Atenção, Rancho!”  previsto no regulamento militar e o opcional alerta “Tá em Atenção aí no Fundo...” já teriam sido emitidos. A presença da naba tornar-se-ia de domínio público e os eventuais pecadores teriam assumido a aparência de freis beneditinos.

 

Portanto, não faltava aos veteranos tranqüilidade para realizar um trabalho de peso junto ao pelotão zoológico.

 

A mesa seguia o padrão estabelecido para o Corpo de Alunos: ampla, redonda, revestida de fórmica ultra-lisa de cor azulada. Das oito cadeiras que a acompanhavam, duas estavam desocupadas.

 

No primeiro instante, contabilizei 6 (seis) alunos presentes. 3 (três) eram bichos, todos aparentemente escrotos, a julgar pelas expressões sofridas e chupadas que vazavam das fisionomias.

 

O quarto componente era um veterano escurinho, fiel exemplo de que “o uso do cachimbo faz a boca torta”. Nos intervalos de aula, ele costumava transitar no corredor do kaol puxando um ratinho, a quem chamava de Brigadeiro, e para quem exigia todas as honras devidas a uma autoridade passante. Por ironia do destino, os traços fisionômicos dos dois – os do puxador e os do falso Brigadeiro – tinham similaridades, razão pela qual os bichos passaram a identificá-lo por “Rato” .

 

O quinto componente era o próprio gaúcho, piruador de primeira hora de minha sobremesa.

 

O sexto e último componente era o legendário Rômmel. Um parêntese: consta que Rômmel seria hoje um bem conceituado comandante de Jumbo a serviço de uma companhia oriental, provavelmente Korea Airlines ou Japan Airlines.

 

Aos olhos de grande parte do bicharal, Rômmel era o maior ícone da turma de meia cinco em pelo menos 3 (três) atributos: fechadura, armadura e malvadeza.

 

Da fechadura, dizia-se  que não chorou nem quando tomou a primeira palmada ao nascer. E que se alguma vez na vida sorriu, nenhum bicho viu. 

 

Da armadura, dizia-se que sua cabeçada tinha o dobro da potência da do Pato. Só para nivelar os conhecimentos: Pato era um repe de meia cinco que tinha o mau hábito de usar a cabeça como marreta. Por qualquer merdinha, ele levava o bicho para trás do armário e aplicava-lhe um cabeçada no meio dos dois cornos. Ouso afirmar, por experiência própria, que uma marretada do Pato tinha potência suficiente para levar um bicho de porte médio a ver vovó por 72 (setenta e duas) horas ininterruptas. 

 

Da malvadeza, dizia-se que suas penalidades se caracterizavam pela megalomania. Nos deslizes pagáveis com apenas 10 (dez) cangurus, Rômmel cobrava 50 (cinqüenta). Um pingüim de 5 (cinco) minutos, para ele, durava quase meia hora. O bicho saía estolado em cima das pernas e adernando nas duas laterais.

 

O meia-meiano Maxuel sentiu na carne o peso desse atributo. Ao baixar a porrada num meia cinco que era considerado amoral até pelos seus pares, foi Maxuel encaminhado para audiência com Rômmel, que lhe transmitiu o seguinte comentário-veredicto:

 

- Bicho, a porrada foi bem dada. Eu mesmo queria fazer isso. Aquele babaca não é digno de ser um meia cinco. Você conta com minha simpatia e eu vou te dar uma acochambrada. Você vai me fazer só o seguinte: vai desarrumar uma a uma, todas as camas e beliches do alojamento. A cada cama ou beliche que for desarrumando, você vai passando  por cima ou  por baixo. Assim: camas de número ímpar, você passa por cima; e camas de número par, você passa por baixo. Com os beliches, a mesma coisa, entendeu? Bom. Depois de passar pela última cama, você inverte o sentido e a ação. Vem arrumando de lá prá cá. Onde passou por cima na ida, você passa por baixo na volta, e vice-versa. Se errar, não tem problema: volta prá a primeira cama e começa de novo. Quando acabar apresente-se para inspeção. Se o alojamento estiver padrão, eu te libero sem o menor problema, pode ficar tranqüilo. Você é meu peixe.

 

Maxuel especializou-se em serviço de quarto e tornou-se um bicho de prestígio - se é que é possível algum bicho ter prestígio – junto à comunidade veterana.

 

Permaneci em pé diante da mesa, segurando a bandeja, com os calcanhares unidos. A lei de sobrevivência do bicho safo determinava que, numa situação dessas, a postura adequada era esconder os dentes, falar o mínimo necessário e cumprir as determinações.

 

Rato me autorizou a ocupar uma das cadeiras disponíveis. Pedi licença, depositei cautelosamente a bandeja, puxei a cadeira e me acomodei. Meu joelho desequilibrou um obstáculo estranho que jazia embaixo da mesa. Pedi nova licença, afastei silenciosamente a cadeira e dei uma olhada. Jazia ali um bicho adicional, de cócoras e com o dedo indicador apontando para cima. Pela inquietação apresentada, já estava estolado. Rômmel se apercebeu da pendência e fez seu primeiro pronunciamento:

 

- Ok, pingüim. Pode subir.

 

O pingüim arrastou-se por baixo da mesa, soergueu-se, e ocupou a última cadeira vazia. Eu o conhecia de vista. Era o embrionário Sapuru, aluno que mais tarde viria a notabilizar-se como uma das marcas registradas da passagem da nata da força aérea pela “terra que não afunda”. 

 

Com a adesão de Sapuru, o time ficou completo: 5 (cinco) cocôs do cavalo do bandido e três autoridades magnânimas do Corpo de Alunos.

 

No centro da mesa, havia duas canecas: uma estava vazia, e a outra continha um material de cor indefinida e consistência pastosa. Parecia pronto. Sendo eu o último animal a chegar à mesa, fui poupado da fase de manufatura e das penalidades paralelas que teriam minado o moral da rapaziada.

 

Gaúcho abriu os trabalhos dirigindo-se em especial à minha pessoa: 

 

- Guri: vou repetir o breifing, que tu não tiveste a oportunidade de participar. Essa caneca é a do Coquetel Molotovi. É o que um de vós vai metabolizar. Vós sabeis o que é metabolizar? Não? Foda-se. Quem for premiado vai aprender e nunca mais vai esquecer. Essa outra caneca aqui, vazia, é uma Roleta Russa. Eu vou girar a roleta diversas vezes. Cada vez que ela parar, a alça vai apontar para algum lugar. O bicho que estiver mais perto da reta da alça, paga dez embaixo da mesa, contando baixinho, e some. O último que sobrar será o voluntário que vai metabolizar o coquetel.

Os bichos pareciam à beira de um ataque de nervos. A palidez era generalizada e os olhares estavam fixados ao centro da mesa, como se esperassem que a energia de seus cagaços pudesse atrair a alça da caneca.

 

Eu era uma ilha de auto-confiança num oceano de medo. Preocupavam-me somente Rommel e o risco das penalidades paralelas megalômanas. No que concernia ao Coquetel Molotovi, a segurança era absoluta. Eu estava rigorosamente apto para o fim a que me destinava.

 

Gaúcho cravou a mão sobre a boca da caneca, posicionou-a no epicentro da mesa, torceu a munheca e fê-la girar. Apoiada sobre a fórmica ultra-lisa que revestia a mesa, a caneca assumiu o nível máximo de RPM e iniciou sua lenta desaceleração, até parar com a alça voltada para um dos bichos. Ele abriu um sorriso de alívio, caiu de boca embaixo da mesa, fez o que tinha que fazer, levantou-se e pediu licença para se evadir. Rômmel refutou:

 

- Negativo. Volta lá embaixo e repete as dez flexões com mais vinte pulinhos de galo. E se tornar a arreganhar os dentes, vai passar a noite embaixo da mesa.

 

O bicho trancou a fisionomia, cumpriu o estabelecido e conquistou a liberdade.

 

Gaúcho reposicionou a mão sobre a caneca, retorceu a munheca e refê-la girar. Enquanto a caneca deslizava sobre a fórmica, ele passou em revista cada um dos bichos presentes, deleitando-se com o cagaço alheio. Quando seu olhar chegou em mim, fixou-se. Deu-se uma testinha e apontou-me o indicador:

 

- Porrrra, guri: Não eras tu que devias trazer minha sobremesa?

 

 

Joner 66-003