Reminiscências XXXVII – Coquetel Molotovi (Parte 1)

 

Ao ingressar na EPCAR, o aluno meia cinco Piroca tornou-se celebridade no bairro onde morávamos, no subúrbio carioca de Big Field. Era citado nas rodas sociais como exemplo de “rapaz bem de vida”. Era cobiçado pelas garotinhas, contava com o apoio dos pais das garotinhas e era imitado pelos irmãos das garotinhas.

 

Com a ascensão social de Piroca, nossas relações se verticalizaram. As sacanagens da pré-adolescência ficaram para trás. Ele tornou-se um homem de palanque e eu um correligionário na multidão. Ele passou a dizer. Eu passei a interpretar e cumprir.

 

Foi pela boca de Piroca que eu tomei conhecimento da existência da EPCAR, da sua excelência na formação de machos, da sua imagem junto ao público infanto-juvenil feminino, do “modus vivendi” em seu interior. Nesse último item, Piroca abriu um largo parêntese para abordar em profundidade o tema Coquetel Molotovi.

 

Ensinava ele que o Coquetel Molotovi era uma mistura de ingredientes intra e extra-culinários outorgada pelo veterano para degustação compulsória do bicho na hora do rancho. As razões de sua aplicação variavam desde o simples interesse do veterano pela alquimia até a punição do bicho, por haver assumido eventuais posturas de natureza caga-pau. 

 

Perguntado sobre os efeitos da mistura no aparelho digestivo, Piroca esclareceu que havia um amplo espectro de possíveis conseqüências, dependendo muito da habilidade do veterano outorgante e do condicionamento do bicho outorgado. Nesse ponto, foi enfático: para agüentar o tranco, todo bicho deveria estar física e psicologicamente bem preparado. E isso só se conseguiria com um bom treinamento caseiro.

 

De início, a recomendação de Piroca soou-me meramente informativa. Servia apenas para agregar valor à cultura geral. Eu ainda patinava na Quarta Série ginasial e minhas possibilidades de entrar no seleto grupo dos “rapazes bem de vida” eram ridículas. Somente a partir de fevereiro de meia meia, quando as listas dos pré-selecionados teimavam em incluir meu nome, passei a acreditar que havia uma zebra em gestação. E se assim o era, a recomendação do mestre Piroca deveria ser alçada ao status de mandamento.

 

Elaborei e executei a toque de caixa um programa de treinamento modulado em três fases. Comecei com ingredientes incomuns no cardápio diário: capim-gordura e folha de amendoeira. Na fase 2, passei às combinações simples: café salgado e sopa de feijão doce. Na fase 3, ampliei o leque de combinações: casca de laranja moída com pó de café a um só tempo doce e salgado. Foi a fase mais difícil. Depois de diversas experimentações pelo método de tentativa-e-erro comprovei minha primeira tese sobre o assunto: com a respiração presa, o homem engole qualquer merda.

 

Portanto, embarquei para BQ confiante. Eu tinha o domínio da técnica. Para mim, o Coquetel Molotovi não passava de um creme de abacate metido a besta.

 

Nos primeiros meses, a turma de meia cinco usou e abusou do direito de outorga. Volta e meia um bicho baixava enfermaria cuspindo podre e cagando mole. A ética vigente recomendava botar a culpa sempre no mate broxante da ceia, mas a humanidade sabia que o estrago tinha raízes na alquimia molotoviana.

 

No seio do bicharal, bizus de boca pequena davam conta de que os veteranos andavam outorgando misturas feitas com liga de pó de serra e pólvora seca, não homologadas pela Convenção de Varsóvia. A desorganização provocada no sistema excretor seria tão grande que alguns bichos estariam mijando pelo rabo durante semanas a fio.

 

Eu não via nada disso. Via apenas um bicharal despreparado sucumbir a coquetéis tão triviais quanto um reles doce de pêssego em caldo de galinha. Em alguns casos o bicho já golfava ainda na fase de manufatura, antes do primeiro gole. 

 

Até o mês de abril, meu adestramento se revelou supérfluo. Por diversas ocasiões,  estive na alça de mira para engolir um preparado, mas no último momento os outorgantes mudavam a proa e repassavam a missão a outro animal menos qualificado. Eu lamentava as viradas de mesa, pois via nelas oportunidades perdidas de desmistificar os coquetéis bunda-mole que derrubavam nossos rapazes.

 

Desses fatos, pude comprovar uma segunda tese sobre o assunto: o cagaço do bicho aguçava o tesão do veterano. O ar de insegurança e o cheiro de medo, forjados enquanto os ingredientes se mesclavam à mesa, eram fatores decisivos para os objetivos do coquetel. O bicho tinha que assistir à adição de cada componente, tinha que imaginar-se comendo o incomível, sofrer com os próprios pensamentos e rezar para ser poupado da provação. Sem cagaço, não havia  empatia, e sem empatia o Coquetel Molotovi corria o risco de transformar-se numa bombinha de São João. 

 

Minha imunidade molotoviana sobreviveu até meados de maio, ocasião em que o primeiro coquetel “made by 65” passou por minhas tubulações deixando marcas que o tempo não conseguiu desfazer.

 

Foi na janta. Eu pertencia ao mini-pelotão de presos e, nessa condição, compunha o chamado cu do cu da reta. Fui o último animal autorizado a deslocar-me para o Rancho. Desci a escada, enfiei o bico de pato no bolso e examinei as opções de comida remanescentes. Eram poucas. Decidi por um naco de bife, um copo de leite e uma goiabada cascão.

 

Peguei a bandeja e fui no bife. Nesse preciso momento, soprou-me ao cangote um bafo com sotaque gaúcho:

 

- Pssst! Escuta aqui, ô guri. Se piruarem tua sobremesa, tu não deixas. Tu falas que já tá devidamente piruada. E tu a defendes como se fosse tua própria vida, ok?

 

- Sim senhor.

 

- Eu te aguardo na mesa atrás da pilastra – disse, retirando-se.

 

Joguei o bife no prato, tomei a sobremesa do taifeiro, enchi a caneca de leite e dirigi-me para trás da pilastra. No caminho, um novo chamamento:

 

- Psst!! 

 

Virei o periscópio e me senti confortável. Era Piroca, meu ex-chapa de Big Field e atual mentor. Estava à vontade. Palitava os dentes à mesa, acompanhado de uma plêiade de veteranos.

 

Ao ver-me, mostrou-se surpreso:

 

- Ô, rapaz. Não sabia que era você. Nös tamos piruando umas sobremesas do bicharal, mas você é meu peixe, e peixe meu não fica sem, pode ficar à vontade. Tudo bem? Tua irmã tá boa? E a priminha?

 

Enquanto Piroca me honrava com sua atenção, um veterano da mesa acenava à sua retaguarda, requisitando minha presença em momento posterior. Captei a mensagem e segui respondendo com objetividade às questões que Piroca introduzia:

 

- Sim, sim, sim.

 

Deu-se por satisfeito e soltou-me as amarras:

 

- Tá dispensado, meu garoto. Mas vê se não dá bobeira por aí, que a rapaziada adora uma goiabada. Ah! Quando escrever prá as meninas não esquece de mandar um beijo em meu nome. 

 

Enquanto ele voltava sua atenção para outro bicho desavisado que passava  nas imediações, meu novo requisitante reiterou o chamamento.

 

- Pssst!! Came riar. Deixa eu dar um luque nessa bandeja.

 

Aproximei-me e apresentei a bandeja. Meteu a mão na goiabada e decretou:

 

- Confiscada no interesse da Força Aérea. Agora pode se retirar.

 

Ensaiei uma argumentação em tom elevado, buscando atrair a proteção de meu peixe:

 

- Mas meu senhor, esse material já tá devidamente piruado. Ele não nos pertence.

 

Emputeceu-se:

 

- Foda-se! Aluno, sssssentido!   Meia volta, volver!!! Ordinário, aish!!

 

Executei a seqüência de comandos e fui parar atrás da pilastra, onde me aguardava sorridente o gaúcho que teria o direito de propriedade da minha querida goiabada.

 

Joner  66-003