Reminiscências XXXVI – Cubol
Quando
pratiquei cubol pela primeira vez, eu era apenas um bicho. Não um bicho
maceteado, daqueles que equilibravam o bibico sem desmanchar o cabelo ou que já
tinham autonomia para dar um V.I. até o Jardim de Alah. Eu era um bicho
escroto. Dos que andavam de bibico enterrado no cabeção e batiam continência
até para motorista de ônibus.
Não podia
ser de outra forma. Cubol era uma das raras modalidades esportivas somente
praticáveis pelos bichos escrotos. Nenhum ser humano, independentemente de suas
preferências sexuais, sujeitar-se-ia a utilizar o rabo de forma tão
anti-convencional.
Isto
porque bicho escroto e auto-estima eram coisas incompatíveis. Se o elemento era
um bicho escroto, então poder-se-ia afirmar, sem o menor medo de ser feliz, que
ele não tinha auto-estima. Por outro lado se o elemento tinha algum grau de
auto-estima, então ele poderia ser qualquer coisa. Até paulista, se preciso
fosse. Mas não bicho escroto.
“Todo
bicho é bacana”, ensinava o saudoso Aparecido Alves. A frase, de profundo sentido
psicossocial, pecava pela estereotipificação da classe. O mesmo se pode dizer
de outra máxima, cunhada por autor anônimo e aceita como verdade absoluta pelos
preconceituosos: “Todo paulista é babaca”. Eu nunca aceitei esse sofisma. Havia
babacas que não eram paulistas e havia paulistas que não eram babacas. Eu mesmo
conhecia uns dois ou três. Aliás, é bom deixar bem claro: a babaquice nunca foi
monopólio da Babacolândia.
A frase
de Aparecido pecava pela generalidade. Excluía da classe o grupo dos chamados
bichos caga-pau. Qualquer criança de colo com razoável conhecimento das
tradições epecarianas sabe que o caga-pau, por sua própria natureza, não pode
ser considerado bacana.
Como
estudioso do tema, eu me arrisco a afirmar que a diferença básica entre o bicho
escroto e o bicho caga-pau está no teor da auto-estima, e que somente um bicho
escroto reunia os requisitos necessários à prática de Cubol.
Como o
próprio nome indica, o Cubol utilizava uma bola como argumento - vem daí o
sufixo bol - e o cu como ferramenta –
vem daí a raiz da palavra. Portanto, tratava-se de um jogo de bola praticado
com o cu.
A bola de
Cubol tinha a forma e o tamanho de um ovo de galinha de porte médio. Sua densidade era equivalente à de uma bola de
sinuca, de onde se conclui que o material utilizado em sua concepção poderia
ter sido marfim ou plástico especial. Considerando que a indústria petroquímica
apenas engatinhava na década de sessenta, sou tentado a chutar que algum
elefante comprometeu-se em favor do desporto epecariano.
O terreno
de jogo era o banheiro do alojameiiiiiiiinto, como diziam os babacolandenses. O
traje dos jogadores era a rigor, isto é, todos rigorosamente nus, como Deus os
colocou no mundo e a natureza tratou de esculhambar.
O piso
era previamente preparado com material deslizante à base de água e sabão. Nele,
os jogadores, arrastando as respectivas bolsas escrotais, permaneciam sentados
durante a peleja. Descolar o bundão do piso era considerado transgressão grave,
punível com 50 (cinqüenta) pulinhos de galo, sem prejuízo de outras sanções
disciplinares.
O formato
oval da bola não se dava por acaso. Visava a dificultar o trabalho dos
jogadores, exigindo-lhes certa qualidade técnica.
O tamanho
das equipes era limitado à capacidade do banheiro e à disponibilidade de
bicharal. A regra era liberal nesse aspecto.
A bola,
colocada no centro do campo pelo juiz, deveria ser conduzida somente pelas
bundas. A luta pela sua posse proporcionava, aos olhos de um observador neutro,
um espetáculo que de tão deprimente chegava a ser poético.
A chamada
“bola presa” era outra liberalidade do legislador. Aos jogadores era permitido
valer-se da rosca como gancho, desde que tivessem bitola suficiente e boa
pegada.
A luta
pela vitória era obstinada. Ninguém chupava sangue ou botava as mãos nas
cadeiras. A mola propulsora desse empenho não era nenhum prêmio reservado aos
vencedores, mas a conseqüência da derrota. Nas preleções antes da bundada
inicial, os organizadores de meia cinco deixavam claro que os perdedores
passariam por uma longa e penosa sessão de coquetel Molotovi.
Foi com
esse cenário de terror que eu me deparei em março de meia meia, ao adentrar
inadvertidamente no banheiro do alojamento. Uma massa de bichos escrotos esfolava o rabo no chão, sob olhares
magnânimos de uma comissão de veteranos.
O
bicharal desnudo, com suas fisionomias carregadas em tons sombrios, davam
claras indicações de que o terreno estava minado e eu deveria evadir-me sem
maiores delongas. Dei meia volta e escapei para o alojamento. Ao cruzar a
porta, deparei-me com um veterano, que vigiava o próprio alojamento e recrutava
“voluntários”. Abordou-me com a autoridade de quem ostentava divisa amarela:
- Jovem
mancebo: aonde pensais que ides?
Desmaceteado
a dar com o pau, refuguei:
- Sim,
não senhor. Não, senhor. Eu só ia tomar um banhozinho de leve, mas é melhor
deixar isso prá depois.
- Acho
que você está enganado, meu jovem. Na verdade, você viu alguns colegas se
divertindo e gostaria muito de participar da brincadeira. Não é isso?
- Acho
que sim, senhor.
- Está me
chamando de senhor por que? Eu tenho cara de velho, por acaso?
- Não,
senhor.
- Então
eu vou quebrar teu galho. Volte até lá dentro, apresente-se à comissão técnica,
e implore por uma vaga, ok?
- Sim, mas.
Veja bem. Eu não tô podendo...
- Não tá
podendo é o cacete, rapaz. Dez.
- Flexões
ou pulinhos de galo?
- Dez de
cada.
Caí de
boca e cumpri a determinação.
- Um,
dois, três.... dez. Um, dois, três...
- Tá bom,
tá bom, chega. Agora vai lá e executa a missão.
Readentrei
no banheiro e apresentei-me ao veterano juiz em exercício:
- Aluno
Zero Três Sexta Esquadrilha Terceiro Esquadrão.
-
Apresentado. Qual o problema?
- Pelo
amor de Deus, você me arranja uma vaguinha prá participar da brincadeira?
- Tá me chamando de você? Como ousas tratar-me
assim? Dez.
Caí de
boca e cumpri as determinações:
-- Um,
dois, três.... dez. Um, dois, três...
- Tá bom,
tá bom. Chega. Vou quebrar teu galho. Entra aqui na meia esquerda – disse,
abrindo uma clareira no bicharal.
Sentei no
chão e entrei no jogo. Fiz cara feia e arrastei o rabo ao acaso, procurando
acompanhar o ritmo geral e camuflar-me na escrotidão alheia. Em dado momento,
sem mais nem porquê, o juiz apitou uma penalidade máxima a nosso favor. Removeu
o bicharal da pequena área e perguntou:
- Cadê o
energúmeno que me chamou de você?
Deixei o
silêncio fluir frouxo. Berrou:
- Eu
perguntei pela porra do energúmeno que me chamou de você.
Apresentei-me,
enquanto ainda havia tempo:
- Quem?
Eu? Tô aqui, senhor.
- Ok.
Você tem cara de idiota, mas eu vou lhe dar a responsabilidade e a honra de
cobrar essa penalidade. Bota a bola aqui na marca.
- Bola?
Que bola, senhor?
Dirigiu-se
à massa:
- Atenção
aí, ó bicharal! Cadê a porra da bola?
A
rapaziada se agitou para lá e para cá, mas ninguém conseguiu achar nada. O juiz
deu nítidos sinais de impaciência:
- Levanta
todo mundo, cacete. Vamos ver onde está essa merda!!
Todos se
levantaram. Um ovo de marfim, revestido de sabão com água de bunda das mais
variadas procedências, desprendeu-se de não sei onde e tombou pesadamente ao
chão.
O juiz
voltou a dirigir-se à minha pessoa:
- Você é
surdo, bicho? Eu não mandei botar a porra da bola aqui na marca?
Apreensivo
em tocar no repugnante revestimento, tentei arrastar o ovo com o pé até o local
indicado. O veterano emputeceu-se:
- Tá
querendo cagar no pau? Vinte.
- Um,
dois, três.... vinte. Um, dois, três....
- Chega.
Agora pega essa merda com a mão e bota na marca.
Pela
primeira vez, vi nascer o instinto caga-pau que jazia adormecido na alma do
bicho escroto. Avaliei possibilidades e conseqüências e conclui: era rabo de
foguete; ainda havia espaço para uma concessão adicional. Agarrei a bola de
merda com a força de um verdadeiro caga-pau e depositei-a com firmeza na marca
do penalty.
O
veterano ordenou, como se lesse o Boletim:
- Por
ordem do comando, este penalty será cobrado com a língua.
“Só se
for com a língua de tua mãe!” – foi a frase que me saiu do peito e ficou presa
na garganta. Olhei-o dentro dos olhos para expressar meu potencial, mas o homem
cagou mole e continuou a transbordar confiança:
- Então,
vamos lá. Agora não. Primeiro você me espera tocar o apito. Depois então você
se abaixa e dá uma linguada na pelota.
Tocou o
apito. Nada. Permaneci olhando fixamente para o ponto de encontro das
paralelas. O homem se aproximou e falou pausadamente, no estilo Lula:
- Eu até
agora não tô intendeiindo se você é surdo ou burro. Vou te dar mais uma chance.
Se tocar o apito e você não bater essa penalidade máxima, eu vou te foder até a
última geração. Entendido aqui no fundo?
Levante-me.
Dei um passo à frente. Olhei-o dentro da alma.
Nesse
preciso momento, o veterano que vigiava o alojamento invadiu o campo de jogo e
gritou:
- Fudeu!
Some todo mundo, rápido. O Oficial de Dia entrou no alojameiiinto.
Bichos e
veteranos se espalharam em todas as direções encerrando extemporaneamente minha
primeira experiência cubolística.
Joner
66-003