Reminiscências XXXV - “Quede a Muié?” (Epílogo)
Quando reencontrei os prófugos
Pé-de-Valsa e Raimunda no meio do mato, eu estava algo no bagaço. Acabara de
fazer um “sprint” de 50 m, de descarregar do caminhão o baú de propriedade da moça, e de trazê-lo a
toque de caixa por sobre o lombo.
Ao chegar, deixei tombar o material
e respirei fundo, até os batimentos cardíacos voltarem a níveis satisfatórios.
Depois, articulei-me com Pé-de-Valsa. Juntos, improvisamos uma trincheira, de
onde podíamos observar a porta do botequim por entre as bombas de combustível,
do outro lado da estrada.
Preocupava-nos a segurança do
precadete Dente-de-Sabre. Ele assumira a parte intelectual e arriscada da
missão. Encontrava-se no interior do estabelecimento, empenhando-se em manter
sob controle um camofo que, além de portar um trabuco calibre 38 (trinta e
oito) sob o capote, mantinha a libido em regime de “full power” e vislumbrava a
perspectiva de ejetar seu morfético sêmen no interior de nossa companheira.
Deveria Dente-de-Sabre explicar-lhe
que o objeto de desejo era agora uma utopia, levado que fora por Pé-de-Valsa e
o modesto ensaísta para longe de seu alcance. Adicionalmente, deveria
convencê-lo a retirar-se do local em paz, com ambos os trabucos recolhidos, sem
dar um tiro ou expelir a mínima gota.
Passados 15 (quinze) minutos de
espera no mato, risquei um palito de fósforo “Fiat Lux”, acendi o último
cigarro Mistura Fina com filtro de meu estoque pessoal e aproveitei o fim da
chama para iluminar o Cyma de trinta dinheiros. Eram precisamente 2 (duas) e
porrada da manhã. Solicitei a Pé-de-Valsa que se desgarrasse um pouco de
Raimunda e encarei-o com seriedade. Ele captou minha inquietação. Disse-me:
- Positivo, Zero Três. Essa suga já
tá enchendo os culhões. Vamos invadir aquela merda e tomar a arma do babacofo.
Em seguida instruiu Raimunda:
- Docinho de Coco, dá um güenta que
isso é papo prá homem, ok?
Marchamos decididos ao bar.
Completados 5 (cinco) passos, voltamos em acelerado e mergulhamos na
trincheira.
Dente-de-Sabre e o camofo saíam pela
porta. Vinham aos tropeços, cantarolando “A Última Canção“ de Paulo Sérgio.
Pararam à frente das bombas, concluíram os solfejos e seguiram para o caminhão.
Ao lado da cabina, disseram-se as
últimas bobagens protocolares e despediram-se. O camofo assumiu o volante, deu
partida na máquina, retomou a estrada no sentido de São João del Rey e
desapareceu na escuridão.
Pé-de-Valsa cochichou:
- Olha lá, bicho! Largou nossa
mulher e se despirocou sem dar alteração. Deve ter-se encagaçado, mas eu não tô
inteindeindo chongas. E você?
- Bizu, mofi. Eu já tava desconfiado
que esse camofo não era de porra nenhuma. Vai ver que nem arma o puto tinha.
- Bem. Acabou a palhaçada. Vamos ver
se agora a gente pirua uma carona de melhor nível.
Abandonamos a trincheira. Raimunda
tentou acompanhar-nos, mas Pé-de-Valsa
deu-lhe voz de comando para manter-se na posição até segunda ordem.
Atravessamos a estrada e reencontramos Dente-de-Sabre à frente do posto. Tinha
ar estranhamente sorumbático e olhar fixo no infinito. Sequer notou nossa
aproximação. Espetei-o:
- Deita, precadete-macete. Com qual
mistério pago você estolou o camofo?
Olhou-me como se despertasse em meio
a uma aula de Física:
- Quem? Eu? O que?
Pé-de-Valsa interveio:
- Dá o bizu, meu jovem. Como é que
você encagaçou o mentecapto?
Fitou-nos enigmaticamente e
esclareceu:
- Rapazes. Eu não manjei porra nenhuma.
- Como não manjou? Você deve ter
falado alguma merda, ele deve ter-se encagaçado e se mandou. Não foi isso?
- Mais ou menos. Eu de fato andei
falando algumas merdas, como é de meu feitio, mas duvido que ele tenha se
encagaçado. O puto desconhece o medo, rapaz. É piroca da idéia ao quadrado.
- Ué, pombas. Então, por que é que
ele largou Raimunda mole-mole?
Dente-de-Sabre
expôs-nos sua versão do ocorrido. O camofo era vacinado contra cachaça. Quanto
mais bebia, mais se afastava do objetivo de pré-estol. Ao contrário do
planejado, mostrava-se cada vez mais agressivo com os que o cercavam, arredio a
vozes de comando e determinado em sua intenção de praticar o sexo animal. Tomou
todas. Deixou o estoque do botequim no osso. Perto dele, o arataca Sant’anna
era bíblia. E estava confirmada a informação de Raimunda: ele tinha um puta
trabuco. Destravado. Segundo suas próprias palavras, “carregadinho da Sirva,
com seis no tambor e uma na agúia, prá fuzilar o primeiro fia da puta que robá
minha muié”. Nessas condições, não havia clima para negociação. Quando
perguntado sobre o paradeiro de Raimunda, Dente-de-Sabre viu-se contingenciado
a descumprir o estabelecido no “briefing”. Disse que a garota o aguardava na
cabina do caminhão com seus grandes lábios molhadinhos, para proporcionar-lhe o
melhor resto de madrugada que já teve. Era sua intenção despedir-se do camofo
ali no bar, para estar longe da zona de tiro na hora da verdade. Não deu certo.
O camofo pagou a conta e abraçou-o, requisitando sua escolta até o caminhão.
Assim saíram do bar, agarrados como velhos amigos de copo enquanto,
intimamente, Dente-de-Sabre postergava sua fuga para a hora da despedida,
planejando utilizar o caminhão como escudo. No caminhão, despediram-se. O
camofo entrou no veículo e foi embora. Tranqüilamente. E ainda mandou um
adeuzinho de agradecimento pela graça conquistada. Deixou Dente-de-Sabre
mobilizado até o último fiapo de pentelho para uma arrancada que, ao final,
revelou-se desnecessária. Essa foi a razão do estado de embasbacamento em que o
encontramos à frente do posto.
Mal Dente-de-Sabre concluiu o
relato, dois minúsculos pontos luminosos emergiram de uma lombada distante na
estrada, sugerindo a aproximação de um novo
veículo no rumo de BQ.
- Boa!! – explodimos num uníssono
brado de otimismo. Aquele haveria de ser o semovente enviado da providência
para encerrar a madrugada de martírio e levar-nos enfim ao muro da Escola.
O veículo vinha rápido. Não havia
tempo suficiente para remover Raimunda da trincheira e recolocá-la na vitrine.
Assumi o comando em caráter excepcional. Comuniquei:
- Rapazes. Chegou a hora da onça
beber água. Maloquem-se nas adjacências e aguardem a chamada para embarque.
Vamos lá, já foram?
Enquanto eles se espalhavam,
atravessei a estrada. A essa altura, já era possível identificar os contornos
da viatura. Por coincidência, era também um caminhão. À sua aproximação,
avancei meio metro na estrada e brandi o polegar, exigindo o inalienável
direito de carona. O caminhão deu um golpe de direção e ejetou-me da estrada.
Freiou abruptamente. Estranhei a agressividade do movimento, mas inferi que o
motorista ter-se-ia assustado ao perceber-me de súbito na escuridão.
Caminhei para alcançá-lo. Constatei
que não era apenas uma coincidência. Era quase um milagre. O caminhão tinha
aparência idêntica ao outro que nos trouxe de São João. Alcancei a carroçaria.
Tive a impressão de ouvir dois pipocos secos mesclados ao barulho do motor.
Inferi que se tratavam apenas de peidos inócuos de uma máquina cansada. Ao dobrar
à direita para chegar à cabina, revivi Janet Leigh diante de Anthony Perkins em
“Psicose”: deparei-me com ninguém mais ninguém menos que o camofo Demétrio,
bêbedo como um porta, espumando pelo
ladrão, tremendo mais que vara verde ao sabor do vento, apontando-me seu
fumegante trabuco calibre 38 (trinta e oito). O homem – se é que se pode
chamá-lo de homem - lançou a pergunta que até hoje ecoa em minhas
reminiscências:
- Quede a Muié?
Utilizando o treinamento assimilado
em Cabangu para conviver com situações de risco extremo, tive apenas a frieza
de falar para mim mesmo:
-Fudeu. Morri.
-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x
Essa foi a última imagem que guardei
do Sr. Demétrio. Desconheço o que ocorreu nos momentos seguintes. Mas acredito
que minha sobrevida se deveu à intervenção dos companheiros, principalmente
Dente-de-Sabre. É a única explicação que encontro – já que nunca tive
tendências homossexuais – para o sentimento de gratidão que mantive por ele nas
décadas seguintes.
Dente-de-Sabre esteve ausente de
nosso círculo até 1999, ano em que o ex-precadete Jão da Moóca rastreou e
localizou seu paradeiro. A partir de então, retomamos a velha amizade e
mantemos contato eventual. Sobre a histórica madrugada de 68 (meia oito), suas
reminiscências são modulares e genéricas: Raimunda, a carona até Barroso, o
camofo armado e o sucesso do V.I.
Pé-de-Valsa
anda sumido. Nos últimos trinta e porrada anos, lembro-me de tê-lo visto apenas
uma vez, em reunião de confraternização da turma. No calor das comemorações coletivas,
não ultrapassamos sequer a barreira dos abraços fraternais e da troca de
monossílabos. Ele é a última esperança de resgatar das trevas pontos obscuros
dessa reminiscência.
Meu lapso de memória encerrou-se
exatamente às 4 (quatro) e porrada da manhã, momento em que trespassamos um
trecho não convencional do muro e adentramos na escola envoltos em poeira e
lama. Sem seqüelas, graças a Deus – com certeza - e ao precadete Dente-de Sabre
– provavelmente.
Joner 66-003