Reminiscências XXXIV - “Quede a Muié?” (Parte 17)
O precadete Dente-de-Sabre concebeu
as linhas gerais do golpe no camofo Demétrio. O resto do pelotão retocou e
aprovou o projeto.
A idéia era de uma simplicidade
linear. Nada de confisco de armamento nem de porradas inconseqüentes, para
soltar as amarras que vinculavam a carne macia de Raimunda ao bico pecaminoso
do camofo.
Pelo estabelecido, Dente-de-Sabre
seguiria executando sua atribuição de assegurar ao Sr. Demétrio o suprimento
regular de cachaça da casa, alternada com piadas de Bocage. A mim e Pé-de-Valsa
caberia a simples missão de retirar-nos furtivamente do local, levando conosco
Raimunda e os outros pertences. Quando o grau de embriaguez do camofo atingisse
um patamar mínimo, Dente-de-Sabre
acusaria o golpe e dir-se-ia vítima. Depois, bastar-lhe-ia consolar-se junto ao
pretenso bêbedo e convencê-lo a desistir de uma fugidia piranha rampeira,
indigna de hospedar o seu (dele) sêmen. Nos arremates finais, faria algumas
citações eclesiásticas, benzê-lo-ia e
autorizá-lo-ia a retirar-se na santa paz do Senhor.
Aprovada a proposta, o grupo
recompôs a formação original. Dente-de-Sabre voltou ao balcão, reassumindo as
funções ao lado do Sr. Demétrio. Nós, os demais, permanecemos à parte,
mobilizados para uma eventual evacuação à francesa.
A oportunidade não tardou. No calor
da primeira piada pós-plano, o precadete aplicou um amplexo fraterno-dibense,
com o qual posicionou o adversário de costas para a porta.
Não houve tempo para especulações
vãs. Irrompemos pelo umbral eu e Pé-de-Valsa, nessa ordem. Fiz uma curva de
noventa à direita e um sprint de duas piscinas até o caminhão. Nesse instante,
captei à retaguarda uma ofegante expressão de mau-humor proveniente de
Pé-de-Valsa.
- Fela da Puta! – xingou.
Voltei-me para exigir
esclarecimentos, antes de assumir a culpa:
-Que é que eu fiz, cacete?
Vociferou:
- Cadê a porra da mulher?
Raspei o trajeto e confirmei o furo.
Raimunda tinha ficado presa na largada. Perguntei:
- E agora, porra? O que é que se
faz?
Definiu, com a frieza típica dos
homens de aço:
- Foda-se. Alguém tem que buscar a
débil mental. Eu é que não vou botar o meu na seringa. Zero, deita na sopa, meu
filho: dá um pulinho lá dentro e traz o que é seu. Vai tranqüilo. Qualquer
coisa, eu tô aqui, ok?
Por absoluta falta de opção, acatei
o comando. Voltei ao bar. Enfiei lenta e cautelosamente a cabeça pela porta,
com vistas a uma reinserção controlada. No geral, o cenário estava inalterado.
Raimunda mantinha-se alienada numa mesinha do canto, degustando uma possível
sobra de Grapette. Dente-de-Sabre continuava oxigenando o fogo de seu objeto
direto.
Dessa vez, entretanto, a proa do
camofo estava fixada na porta. Ao surpreender-me em atitude arredia, contraiu a
musculatura facial e tornou-se ainda mais feio. Ajeitou-se para saltar do
banco, mas Dente-de-Sabre se antecipou, apontando o dedo em minha direção e
gritando como se o fizesse de cima de um palanque:
- Ih! Olha lá o Petengill!
Em seguida, chamou:
- Psssst! Petenga. Dá uma chegadinha
aqui.
Desde a ocasião do desembarque no
posto, desagradava-me a idéia de encurtar distâncias do camofo. Ambos tínhamos
uma pendenga implícita, e eu o sabia portador de pau de fogo. A contragosto,
aproximei-me do balcão. Quando cheguei, Dente-de-Sabre armou um muxoxo teatral
e simulou dar-me uma mini-aula de cultura geral:
- Desmacete, mofi. Eu já lhe disse:
pega mal ir mijar lá fora; o banheiro daqui tá meio cagado mas dá prá quebrar o
galho; mija de longe, que não tem rebote, entendido?
A pseudo reprimenda fez efeito. O
camofo Demétrio acochambrou a postura, degustou a enésima talagada e comentou,
com raro senso de humor:
- Vai vê que o outro cachorro tá
mijando na roda de meu caminhão, né uai?
A piadinha não me agradou. No meu
modesto entender, o precadete Pé-de-Valsa merecia ser referenciado com mais
dignidade. Não por respeito a mim ou a Dente-de-Sabre, mas por tudo o que representava
para a Força Aérea. Só com muito auto-controle e cagaço de bala consegui
refrear o impulso de meter-lhe uma cadeirada na orelha.
Dente-de-Sabre, ao contrário, não se
mostrou ofendido. Abriu um riso ostensivo e induziu-me a acompanhá-lo juntamente
com o próprio camofo. Depois, aproveitando-se do esporro generalizado, passou
instruções sublineares:
- Petenga, bota o outro cachorro prá
dentro, antes que o camofo saque o trabuco. Garçom, dá mais uma molhadinha aqui
no copo do Comandante Demétrio. Petenga, tá esperando o que, mofi? Traz o cão.
Retirei-me do local e fui resgatar o
precadete Pé-de-Valsa. Não sei se já tinha se servido da roda mas, tal como
previsto pelo camofo, encontrava-se malocado atrás do caminhão. Expliquei-lhe
que havia dado merda na evacuação, que o camofo andava meio desconfiado e que
Dente-de-Sabre o queria de volta ao bar.
Refutou a determinação. Disse
acreditar que o tiroteio começaria a qualquer momento e, portanto, não iria
deslocar-se para o epicentro, quando seu instinto de sobrevivência recomendava
justamente o sentido inverso. Fui forçado a mudar o discurso para amaciar-lhe a
rebeldia. Sugeri que o camofo encontrava-se tecnicamente estolado e que não
mais representava ameaça à sociedade.
Relutante, deixou-se arrastar de
volta ao bar, sob meia pressão na coleira. À porta do estabelecimento,
defrontamo-nos com o precadete Dente-de-Sabre, surpreendentemente desgarrado do
camofo e com aparência tranqüila. À nossa aproximação, ditou regra:
- Moçada, vamos ver se dessa vez
vocês não recagam no pau. Atenção. Entrem devagar, cheguem-se a Raimunda e
fiquem de olho em mim. Atenção. Quando eu fizer o sinal de positivo, saiam com
Raimunda e sem rebu. Atenção, porra. Com Raimunda e sem rebu. Outra coisa:
mesmo em caso de pipoco, vão em frente sem olhar para trás. Vão lá para a casa
do cacete, do outro lado da estrada, lá no meio da porra do mato. Esperem até
segunda ordem. Entendido aqui no fundo?
Pé-de-Valsa:
- Ué? E o camofo? Vai soltar a
princesa de mão beijada?
- Tá vendo? É por isso que vocês
fazem cagada. Em vez de cumprir as determinações devidas, preocupam-se com
assuntos do comando. Com licença.
Dirigiu-se ao balcão. De lá, sem
demonstrar qualquer apreensão com o camofo, sinalizou-nos para dar início aos
procedimentos de retirada.
A atitude pareceu-nos temerária.
Permanecemos fixados à porta, receosos de entrar e não mais poder sair.
Raimunda, que tudo observava e nada compreendia, levantou-se de seu canto e
veio nos perguntar:
- Tá aconticendo argum pobrema?
Pé-de-Valsa não respondeu. Tomou-a
pelo braço e puxou-a suavemente para fora do estabelecimento. Cruzada a porta,
fez tocar o rebu. Despirocou-se com ela em direção à estrada, enquanto
ordenava:
- Zero três, traz a caralha do baú!
Corri para o caminhão, trepei na
carroçaria, descarreguei o baú, trespassei a estrada e embrenhei-me no mato.
Joner 66-003