Reminiscências XXXIII - “Quede a Muié?” (Parte 16)

 

Era decorrida uma e qualquer coisa da madrugada. Montados na carroçaria do caminhão, adentramos no posto de gasolina próximo à valorosa metrópole de Barroso, provenientes de São João del Rey, a caminho de Barbacena.

 

Tínhamos um acordo a cumprir. Deveríamos desembarcar no local e permitir que o camofo-condutor, diante destes olhos que a terra um dia há de comer, levasse a companheira Raimunda para não sei onde, com o objetivo de saciar seu instinto animal. De nossa parte, continuaríamos chupando dedo por ali, tentando piruar outra carona até o destino final. Carona aliás improvável, pois não mais disporíamos de uma boca-de-cabelo para oferecer como instrumento de barganha.

 

A legitimidade do acordo entretanto suscitava controvérsias. Nenhum de nós havia negociado chongas com o camofo. A intermediação se fez somente pela boca de Raimunda. Embora fosse ela o próprio instrumento de barganha, não tinha autoridade para deixar-se comer em nome da rapaziada. Além do mais, a votação esteve longe do consenso, a saber: Dente-de-Sabre pró, Pé-de-Valsa contra, e o modesto ensaísta balançando como pêndulo entre as duas facções.

 

Num aspecto, todos concordávamos. Naquele preciso momento, o pseudo-acordo cagava no pau de nossos interesses.

 

Portanto, era nossa intenção renegociar algumas cláusulas. Chamaríamos o camofo à razão e ao bom-senso. Em princípio, tentaríamos piruar-lhe algum serviço adicional. De preferência uma pernada extra até BQ. Não sendo possível, mostrar-lhe-íamos que não poderíamos abrir mão de Raimunda nem vice-versa, visto que ela era nosso passaporte para BQ, e nós éramos sua agência de empregos. Se ainda assim a porra do camofo se mostrasse irredutível, então foda-se: ele que fosse tomar... as providências cabíveis.

 

Foi com esse estado de espírito que desembarcamos no posto. Coube a mim a honra  de descarregar a bagagem da rapaziada, acatando determinações emanadas do precadete Dente-de-Sabre. Também coube a mim, ao tentar dar início aos procedimentos para baixar o baú de Raimunda, o ônus de encontrar o primeiro foco de resistência por parte do camofo.

 

Interrompeu-me o paisano:

 

-Essa cê pode deixá aí em cima. É a da minha namorada... e ela vai junto comigo.

 

A voz do homem não caminhava em linha reta. Falseava sobretudo nos tons graves, dando a impressão de haver tomado umas duas ou três. Mas transmitia confiança no próprio taco.

 

Larguei o baú de Raimunda e desci lentamente da carroçaria, calculando o bote. Parei a meio metro e perguntei:

 

- Como é que é?

 

Respondeu, com um presunçoso bafo de cana:

 

- Como é que é, digo eu.

 

Enquanto ele falava, Raimunda, por trás, gesticulava no melhor estilo dos atuais bonecos de posto. Entendi que transmitia um aviso de alerta e optei por refrear, até segunda ordem, qualquer resquício de agressividade. Fez-se um silêncio nervoso, até que Dente-de-Sabre interveio:

 

- Topa tomar uma quentinha antes de ir embora? – disse ao camofo, apontando para um tenebroso botequim anexo.

 

A sugestão reverteu a tendência. Foi praticamente ovacionada, estabelecendo-se um  clima de festa. Dirigimo-nos todos ao boteco, em passo de estrada, com a seguinte formação: Dente-de-Sabre, abraçado ao camofo, na primeira fila. Pé-de-Valsa e o ensaísta, arrochados em Raimunda, na rabeira.

 

No interior do boteco, Dente-de-Sabre deu continuidade a seu trabalho de catequese. Escoltou o camofo ao balcão, mantendo-o longe do grupo. Regou-o com generosas doses de pinga da safra de 68 (meia oito) e adoçou-lhe o humor com as mais modernas piadas de Bocage.

 

Raimunda aproveitou a oportunidade para revelar a razão de sua inquietação. Explicou, particularmente a mim e Pé-de-Valsa, que o camofo não era flor digna de ser cheirada. Emputecia-se por qualquer merdinha. Só porque ela o chamou de feio durante a viagem, ele lhe sentou a mão sem a menor cerimônia. Quando ela disse que, se ele ousasse repetir o gesto ela pediria nosso socorro, ele abriu o capote, apresentou um trabuco calibre 38 e se deu ao desplante de imitar a ternurinha Wanderléia: “pode vim quente que eu tô fervendo...”.  Quando perguntado sobre suas intenções para com ela, revelou-se completamente piroca da idéia: respondeu que comê-la-ia à exaustão e depois a conduziria ao altar matrimonial.

 

Por essas e outras é que Raimunda fechou a questão. Não mais queria ver sequer os cornos do mentecapto.

 

Ao ouvir a versão de Raimunda, Pé-de-Valsa indignou-se. Entendeu que o camofo exorbitou e que merecia um chute na bunda, antes de ser endereçado ao encontro das paralelas. Propôs:

 

- Zero Três, a gente vai fazer o seguinte: você vai por trás e agarra o babaca.

 

- Quem? Eu? Agarrar macho?

 

- Deixa eu concluir o raciocínio. Agarra o sujeito, que Dentinho vai tomar a arma dele.

 

- E você? Vai dar uma forcinha?

 

- Afirmativo. Eu cubro todo mundo.

 

- Tá bom. Se Dentinho topar, eu seguro. Mas quem é que vai dar um toque no Dentinho prá desarmar o camofo?

 

 - Deixa comigo. Fica aqui com Raimunda que eu vou levar um papo com ele.

 

Com passos azeitados, dirigiu-se ao balcão, onde Dente-de-Sabre e o camofo jaziam sorridentes. Pediu licença, interrompeu a piada e solicitou a liberação do precadete para uma conversa em caráter privado. O camofo deixou a cabeça tombar afirmativamente. Dente-de-Sabre se fez transportar à nossa presença. Ao chegar, perguntou, ainda com a fisionomia escancarada:

 

- Alguma alteração, macacada?

 

Pé-de-Valsa:

 

- Tá rindo, seu babaquinha? Você não sabe da missa um terço. Esse camofo é pinta braba, rapaz. Tem um pau de fogo embaixo do capote e baixa a porrada em mulher.

 

Dente-de-Sabre mostrou-se incrédulo:

 

- O que é que é isso, garoto? O cara é barra limpa. Meu chapa em pessoa. Mais uns 15 (quinze) minutos e ele deixa a gente na frente do muro da escola. É só o trabalho de pular, quer apostar?

 

- Você não tá inteindeindo, meu. Esse maluco é doido. A hora que se emputecer, ele saca aquela merda e cospe fogo em todo mundo.

 

- Ninguém vai sacar chongas. Seu Demétrio é gente finíssima. Melhor que qualquer meia oito. Além do mais, tá gamadão em Raimunda. Prá babar o ovo dela, ele seria  capaz de deixar a gente até na porta do H-8, se fosse preciso. Quem viver verá.

 

Sentindo-se incompreendido, Pé-de-Valsa recorreu a Raimunda:

 

- Mundinha. Repete prá ele o que você falou prá a gente.

 

Raimunda foi curta e grossa:

 

- Ocês pode fazer o que quiser, mas prá mim já tá resorvido: cum ele eu nun saio daqui nem que a vaca tussa.

 

Finalmente, Dente–de-Sabre conscientizou-se do tamanho da naba. O pau de fogo do camofo Demétrio tornava-o a maior autoridade do botequim e, sem a cooperação de Raimunda, uma alopração de sua parte seria iminente.

 

Por isso, ele fez um esforço concentrado para erradicar a intolerância da garota. Acariciou-a, citou frases de auto-ajuda, prometeu até um cargo gerencial no Km-60. Nada. Ela não cedeu um pentelhésimo. Diante do impasse, articulou um brain-storm relâmpago com o pelotão, visando a uma solução de consenso. A idéia de confiscar a arma do Sr. Demétrio, veementemente sustentada por Pé-de-Valsa, não lhe agradava. Na sua visão, estávamos em pleno exercício de V.I. inter-municipal, e não lhe parecia de bom alvitre deixar rastros em nossa trajetória. Além do mais, era sabido que um eventual confronto armado podia gerar um abominável saldo de presuntos.

 

Concluídas as discussões, chegamos à solução consensual, baseada no princípio de “um por todos e todos por um”.

 

Joner  66-003