Reminiscências XXXII -
"Quede a Muié?" (Parte 15)
O cenário estava montado. A camofa Raimunda na linha de
frente, à beira da estrada. O pelotão na retaguarda, atrás do barranco.
O objetivo estava definido. Piruar um veículo para BQ. Ainda
que tardio.
Durante 30 (trinta) minutos, nada de relevante aconteceu.
Passaram apenas 2 (dois) semoventes motorizados a mais de oitenta por hora.
Ambos ignoraram os acenos do posto avançado.
Aproveitei o tempo ocioso para nivelar meus conhecimentos
com os do grupo. Eu era o menos escolado em Raimunda, e isso me deixava com
complexo de inferioridade.
Perguntei ao léu:
- Alguém pode me explicar o que é que essa mulher vai fazer
lá em BQ?
Dente-de-Sabre se dispôs a responder, com paciência
professoral. Disse ele que Raimunda era, até aquela precisa data, uma bem
graduada funcionária de um prostíibulo de São João del King. Apesar da
aparência de menininha angelical, tinha larga experiência no ramo de
fudelância. Contava pessoalmente com uma clientela ampla e diversificada, e
gozava de prestígio no mercado local. Na hierarquia da Zona, vinha ocupando o
segundo posto, tendo acima de si - além da clientela - apenas a proprietária,
uma senhora que conduzia o estabelecimento com mãos de ferro. Raimunda
acumulava funções sexo-comerciais e burocrático-gerenciais. Devido a
divergências políticas, entrou em rota de colisão com a proprietária.
Emputeceu-se, chutou o balde, baixou-lhe a porrada, juntou os panos de bunda e
tomou o rumo da estrada, à procura de novos mercados. Foi nessa situação que o
grupo a encontrou. Pé-de-Valsa e Dente-de-Sabre fizeram-na ver que o mercado de
Barbacena oferecia amplas perspectivas para um recomeço, haja vista a
abundância de postos de trabalho no Km-60, na Dora, na recém-constituída
Sayonara e no ortodoxo Rancho Alegre. Paralelamente, a demanda não era de se
jogar fora, já que somente a escola proporcionava um mercado cativo de mil
pirocas cujos proprietários pagariam diversos cruzeiros novos por uma reles
ejaculação precoce. Diante desses argumentos, Raimunda convenceu-se de que
Barbacena seria seu destino e o pelotão seu guia referencial.
A dissertação de Dente-de-Sabre sobre Raimunda vinha fluindo
frouxa, quando Pé-de-Valsa o interrompeu abruptamente:
-Sccchhhit! Tá vindo alguém – afirmou, aproando o indicador
no sentido da estrada.
Era um caminhão. Transitava a baixa velocidade. Passou
languidamente por Raimunda e parou a uns 30 (trinta) metros adiante. Ali ficou
por alguns instantes, como se relutasse em morder a isca. Engatou a ré e deu
para trás, até estacionar ao lado da moça.
O motorista gritou:
- Ei! Cê vai pra onde?
Raimunda, com timidez profissional:
-Prá as banda de Barbacena, uai.
-Intão passa prá cá prá conversar, uai.
Raimunda contornou o veículo pela frente e aproximou-se do
motorista. Seu novo posicionamento deixou-nos a ver navios, uma vez que nosso
posto de observação ficava do outro lado.
Enquanto Raimunda e o camofo negociavam à deriva, cochichos
nervosos passaram a pipocar no barranco. O grupo ficou dividido. Pé-de-Valsa
preconizava o imediato estouro do cativeiro e resgate da vítima, ficando
adstrita à consciência de cada um a decisão de cobrir ou não o camofo com a
necessária porrada. Dentinho defendia a tese da paciência mobilizada. O grupo
permaneceria em estado de alerta, na defensiva, até segunda ordem. Eu oscilava
como pêndulo entre as duas alternativas, mas via com especial simpatia a idéia
de esticar o rabo do porco.
Passaram-se 10 (dez) intermináveis minutos. Nossas inquietações
já começavam a ultrapassar os limites do barranco quando Raimunda ressurgiu no
breu, caminhando em nossa direção. Disse, ao aproximar-se:
-Ei ! Cês três já pode sair, uai.
Levantamo-nos. Pé-de-Valsa perguntou, enquanto removia a
poeira da calça:
-Como é que foi?
Raimunda:
-O home num vai prá Barbacena de jeito nium. Mas se eu durmi
cum ele, ele deixa ocês num posto de gasolina depois de Barroso. De lá ocês se
vira mole mole, uai.
Pé-de-Valsa:
- O que? O babaca quer comer da nossa comida e largar a gente
no meio do caminho? Só dando com a mão na orelha.
Dente-de-Sabre interveio com equilíbrio:
- Calma, garoto. Porrada agora é furo. Vamos aceitar a
cortesia e zarpar logo dessa merda.
Raimunda:
-E eu, sô? Vô tê qui dá prá ele, uai?
Dente-de-Sabre:
-Não vos precipiteis, minha jovem. Primeiro, let’s go to
Barroso. Depois, a gente vê como é que fica.
Prevaleceu a sensatez. Ficou descartada a alternativa de
porradaria a curto prazo. Dirigimo-nos os quatro ao caminhão. Mal chegamos,
Raimunda esboçou as apresentações protocolares. O motorista a interrompeu de
chofre, e definiu as posições com autoridade:
-Cês três sobe aí atrás, e minha menina vem aqui cumigo,
uai.
Pé-de-Valsa olhou interrogativamente para Dente-de-Sabre,
como se buscasse respaldo para coçar a mão. Dente-de-Sabre entretanto deu de
ombros e se fez de desentendido. Trepou na carroçaria e comandou-me:
-Zero Três, manda a carga!
Arremessei-lhe as maletas do pelotão e solicitei reforço
para alavancar o gigantesco baú de Raimunda. Concluída a missão, embarcamos na
carroçaria e Raimunda assumiu seu posto de primeira-dama, na cabina.
Mal o veículo virou a primeira curva, foi-nos dado perceber
que a viagem não transcorreria em brancas nuvens. O frio era de dar nó em pingo
de água, e a tesoura de vento formada na carroçaria cortava como navalha. O
barulho do motor tinha a sonoridade da turbina de Bolzan, quando queimava
feijão com lingüiça nas aulas de História Geral.
Às vezes, a trajetória do veículo e o traçado da estrada
pareciam falar línguas diferentes. O caminhão fazia curvas nas retas e seguia
reto nas curvas. Encagaçado com o risco de ejeção, Pé-de-Valsa abriu um clarão
na poeira do vidro traseiro, deu um look na cabina e falou:
- Olha lá o que o babaca tá fazendo.
Conferimos. Realmente, aquele não era o comportamento
adequando para um comandante de caminhão. Enquanto nossa menina parecia fugir
dele usando toda a extensão da cabina, o camofo volta e meia largava o volante
e tentava aplicar-lhe uma apalpadela.
Sentamos a mão na lataria da cabina e recolocamos o caminhão
na rota.
Quando meu Cyma de trinta dinheiros sinalizava algo em torno
de uma da manhã, o caminhão passou ao largo da valorosa cidade de Barroso e deu
para a esquerda, adentrando num posto de gasolina à beira da estrada.
Dente-de-Sabre foi o primeiro a desembarcar. Ao tocar o solo
comandou-me:
-Zero três, manda a carga.
Arremessei-lhe as maletas do pelotão. Quando eu ia solicitar
reforço para alavancar o baú de Raimunda, o camofo interveio:
- Epa! Essa cê pode deixá aí em cima. É da minha namorada.
Joner 66-003
Joner
66-003