Reminiscências XXXI- "Quede a Muié?" (Parte 14)

"O maior inimigo do homem é o próprio homem".

Desde os primórdios da civilização, porrilhões de filósofos devem ter dito isso. Se não o fizeram, comeram mosca. Perderam a oportunidade de expor uma idéia que, a cada dia que passa, se mostra mais atual. Apesar da discordância de pensadores consagrados - entre os quais valendo destacar o benemérito-darwinista Vil (cek) - fatos cotidianos corroboram a tese.

Meu primeiro contato com essa verdade se deu no ponto "A" da Rodovia SJ - BQ, enquanto aguardava a passagem de uma carona milagrosa no rumo da escola.

Eu vinha jogando bem. Respondia razoavelmente aos golpes de língua da camofa Raimunda, ao tempo em que os precadetes Pé-de-Valsa e Dente-de-Sabre cronometravam o sarro e confabulavam nas imediações de um barranco tomado ao acaso.

Com Raimunda, as palavras eram subentendidas e as ações explícitas. O banho-de-gato tinha reciprocidade de primeiro mundo. As salivas se misturavam num "pot-purri" cujo sabor sugeria mistura de Cuba Libre com chiclete de bola.

Apesar de não ter presença visível, o Cuba Libre predominava, sobretudo quando arrotos acidentais da musa sinalizavam haver uma ressaca em andamento no lado de lá.

Já o chiclete era visível, tinha massa física, embora estivesse bastante esculhambado. Trocava de boca a cada escovada, carregando no seu interior um recheio de saliva colante como goma arábica, que se espalhava pelo céu da boca à primeira mordida. Era porcaria, mas proporcionava um "delta plus" de peso na qualidade do relacionamento.

Eu vinha jogando bem, sentando a mamona e cagando mole para a crítica. Acabara de receber de Raimunda a enésima bola de cuspe envolta na goma pré-trabalhada. Já ia fechar o mordente quando o alter-ego - o tal inimigo do homem - soprou-me ao pé do ouvido que aquele maltratado naco de goma de mascar tinha um passado sombrio. Havia indicações de que ele, o naco, tinha transitado pela boca de Pé-de-Valsa já que, à saída da estação rodoviária, o precadete vinha mascando um exemplar enquanto solfejava o Hino do Aviador.

A suspeita fez broxar-me o ímpeto. Era inadmissível que uma macho de minha cepa viesse a degustar saliva de um semelhante. Passei a operar de bandeira a meio pau, na mais fantasiosa das hipóteses. Minhas novas prioridades passaram a ser: a)ejetar o visgo contaminado e b)desinfetar a boca com creolina.

Havia entretanto Raimunda a preservar. Ela não era patrimônio só meu. Pertencia ao pelotão como um todo. Uma alopração de minha parte parecia inapropriada ao interesse coletivo.

Refreei a mordedura e posicionei intacta a última bola de cuspe recebida na ponta da língua. Quando me foi dada a oportunidade, descartei-a de volta à moça. Ato contínuo, ergui o braço aos precadetes periféricos, piruando-lhes a presença.

-Pssst! Pssst!

Ambos aproximaram-se afoitos. Dente-de-Sabre perguntou, mesclando o fogoso estilo Miss. Hellen com o sotaque de camofo do Paraná:

-Uóts dê tróbol, meu jovem?

Respondi, procurando esconder a insegurança circunstancial:

-Nenhum. A gente aqui tá se entendendo igual a Pelé e Coutinho.

Dei um "look" de soslaio em Raimunda. Ela não interveio mas manteve-se enigmática, mastigando meu último passe açucarado. Parecia estar a ponto de tecer algum comentário desabonador. Pressenti o perigo e bati logo uma continência estratégica ao Dente-de-Sabre, afirmando:

-Aspirante Lobato! Passo-lhe o serviço de oficial-de-dia ao corpo de Raimunda.

Dente-de-Sabre dispensou as formalidades. Caiu de boca na moça com chiclete e tudo. Em assuntos dessa natureza, agia sempre com a determinação própria de boca-de-rancho diante de uma eventual cobertura de palmito. Como bom aprendiz, observei-lhe o desempenho, tentando pegar algum macete. Pé-de-Valsa entretanto catucou-me, recomendando uma postura mais adequada à condição de precadete:

-Porra, Zero Três! Vê se se segura, que isso aqui não é bacanal não. Se é prá olhar, então vamos sair de perto. Tá pegando mal.

Acatei a orientação e ambos nos dirigimos ao barranco, sem alterações.

Entre uma e outra corujada no casal em operação, tivemos uma conversa bigode a bigode. Eu fiz severas críticas à sua atitude negligente, largando ao léu o chiclete contaminado em plena boca de Raimunda, prejudicando meu serviço. Enfatizei que caberia a ele, Pé-de-Valsa, fazer o "check" de abandono, antes de liberar-me o comando da moça. Minha mijada não teve respaldo. Ele isentou-se de qualquer responsabilidade e ainda argumentou que eu deveria agradecer-lhe pois, na sua visão morfética, o chiclete era uma cortesia adicional de sua parte para com o grupo.

A discussão vinha patinando no vazio, quando a rodovia se iluminou com a aproximação de um Volks na direção de BQ. Interrompemos o bate-boca e deslocamo-nos em passo acelerado. Invadimos meio metro de estrada, agitando os polegares no rumo da escola. O veículo desviou-se dos obstáculos e passou batido. Entendemos que já era meia-noite e porrada, e que somente um maluco correria o risco de dar carona a dois míseros paisanos com caras de paulista àquela hora. Concordamos que necessitaríamos de uma isca mais consistente, capaz de aguçar a libido de algum motorista biologicamente atrasado. Tínhamos o trunfo Raimunda e a oportunidade de pô-lo na mesa.

Optamos por redistribuir logo as tarefas. Coube a mim a missão de desatracar o casal Dente-de-Sabre versus Raimunda, para dar início ao "briefing". Com dificuldade, identifiquei um pedaço de corpo retorcido, pertencente ao Dente-de-Sabre, cercado de Raimunda por todos os lados. Dei um tapinha e avisei:

-Acabou o recreio, meu jovem.

Não houve reação. O precadete continuou a manobrar, como se minha voz de comando tivesse a autoridade de um soldado em início de carreira.

Dei-lhe um beliscão no rabo, a meia pressão. Dessa vez o rapaz reagiu, como se acordasse em meio a uma aula do professor Mabuzzi:

-Que é que tá acontecendo aqui, porra?

Perguntei, procurando primar pela delicadeza:

-Dá prá interromper só um pouquinho?

Emputeceu-se:

-O que? Interromper? Agora, que eu tô no embalo? Não, não, isso não. Sacanagem tem limite, porra.

Pé-de-Valsa, interveio:

-Veja só, meu garoto. Já é quase de madrugada. A estrada tá ficando deserta. Quanto mais tarde, pior. É melhor botar logo Raimunda na vitrine, enquanto a gente ainda tem chance de sair desse fim de mundo. Além do mais, o oficial de hoje é aquele da rola comprida, esqueceu?

Dente-de-Sabre finalmente compreendeu a grandeza da causa. Desvinculou-se de Raimunda e passou a atuar com grande desenvoltura na montagem do cenário.

Raimunda foi posicionada estrategicamente à beira da estrada. Tinha rigorosas instruções de portar-se como uma donzela solitária à procura de carona. Se um eventual motorista mordesse a isca, então ela deveria abrir o jogo. Explicar-lhe-ia que estava disposta a fazer concessões sexuais de boa monta mas, antes, seria necessário descarregar três penduricalhos na cidade de Barbacena.

Nós, os penduricalhos, nos posicionamos malocados atrás do barranco. Deveríamos lá permanecer até que nos chegasse a autorização de embarque.

Apesar de Raimunda gozar de inteira confiança do grupo, optamos por reter sua mala. Não convinha deixá-la cair em eventual tentação.

Joner 66-003