Reminiscências XXX - "Quede a Muié?" (Parte 13)

 

Avizinhava-se a meia-noite.

A estrada SJ - BQ jazia adormecida no breu. À medida que a noite avançava, as perspectivas de piruar carona se estreitavam.

As duas únicas oportunidades que surgiram - um majestoso Volks 1.200 ano 62 e uma peidorrenta DKV da década de 50 - foram solenemente ignoradas. Ninguém quis dar-se ao simples trabalho de levantar a mão e requisitar os meios de transporte que passavam oferecidos como Jupira.

O grupo estava, até o último fiapo de pentelho, empenhado no projeto Raimunda. Desde que ela começou a tornar-se "cosa nostra", todas as atenções passaram a gravitar em torno de sua presença.

Na disputa por um lugar ao sol, as regras de boa conduta foram flexibilizadas, permitindo-se a cada um dos membros utilizar toda a extensão de seu potencial. Com a ração reduzida, as posições seriam definidas na ponta da baioneta.

Quando perguntei inocentemente pelo caminhão de mudança que levaria os pertences de Raimunda a algum lugar na direção do Rio de Janeiro, eu não imaginava estar, de fato, contribuindo para um salto de qualidade nas relações entre ela e o pelotão.

Mestres que eram na transformação de ganchos em oportunidades, Pé-de-Valsa e Dente-de-Sabre fizeram dessa simples questão motivo de regozijo, e forjaram um clima psicológico favorável a pequenas abordagens no sentido das eventuais metidas colimadas.

Trabalharam como se fizessem parte da equipe de nado sincronizado.

Enquanto Pé-de-Valsa fazia piadinhas de baixo impacto, utilizando o questionado caminhão de mudança como boi-de-piranha e mantendo acesa a chama do rebu, Dente-de-Sabre iniciou a integração física de Raimunda ao Corpo de Precadetes: tomou-lhe a mão esquerda, elevou-a lentamente até a altura do sabre e, num gesto cavalheiresco, sapecou-lhe um doce e nicotinado beijo de João-sem-braço.

Raimunda não alterou a linha comportamental. Permaneceu tão sorridente quanto enigmática, deixando no ar incertezas quanto à qualidade da recepção. Habilidoso em retiradas estratégicas, Dente-de-Sabre afastou-se de sua área de alcance e passou a tecer comentários de sustentação da chama, deixando ao Pé-de-Valsa a missão de dar prosseguimento ao combate corpo-a-corpo, por sua própria conta e risco.

De sua parte, Pé-de-Valsa apresentou bom desempenho. Demonstrou autoconfiança, aderência e jogo-de-cintura. De 0 (zero) a 10 (dez), eu lhe daria um 9 (nove) com louvor.

Com dois voluntariosos passos à frente, reocupou o raio de ação da moça. Enlaçou-a pela cintura, trouxe-a para si, vergou o espinhaço e colou seu sebáceo frontispício no rosto angelical de Mundinha. Depois, como se isso não bastasse, engomou a cueca num sarro a um só tempo divino e cruel.

Não havia mais clima para piadas ridículas. O único som audível no breu era o roçar dos corpos, numa ostensiva demonstração de competência e de falta de respeito para com os menos favorecidos.

Dente-de-Sabre ficou na dele, não apresentou resquícios de insatisfação. Parecia ignorar que, naquela tragédia, eu não era o único touro premiado.

Pessoalmente, eu estava puto dentro das calças, mas tinha que aceitar a superioridade do adversário. Não estava ali nenhum Pica-Pau, Xixigirl, Rabiola ou Sapuru. O homem no comando era Pé-de-Valsa, o cavalheiro-pluma das pistas de dança do Barbacenense e o mão-de-veludo do teclado do Gino’s. Eu mal engatinhava um dois-prá-lá-e-dois-prá-cá em ritmo de marcha fúnebre. Entre ele e eu, naquelas circunstâncias específicas, sempre seria sensato apostar nele.

Malgrado a inconveniência de "gozar com o pau de outrem", cogitei permanecer no local para observar o espetáculo-aula de roça-roça e bole-bole, e ganhar conhecimento teórico para uma futura eventualidade.

Mas eu tinha um nome a zelar. Não me submeteria à humilhação de bater palma prá vagabundo dançar. Dirigi-me ao Dente-de-Sabre , e falei mais para mim mesmo:

- Isso é o que se pode chamar de crocodilagem, meu jovem. Esses puto ficam se atracando e a gente chupando dedo. Vamo largar eles aí e pegar nosso carrinho prá BQ.

Dente-de-Sabre manteve-se silencioso e reflexivo, como se tivesse a testa de ferro. Mas Pé-de-Valsa ouviu o lamento. Deu-se ao luxo de desenroscar-se de Raimunda e ordenar:

- Psssst. Zero três. Vem cá!

Podia ser mais uma sacanagem convencional, mas eu já não tinha nada a perder. A cotação de meu moral estava no nível de pau de galinheiro. Acudi, extravasando impaciência:

- Que é que foi, porra?

Concedeu, com a autoridade de um magnânimo:

- Brinca um pouquinho aqui no meu lugar.

Fiquei embasbacado, não obstante a grandeza do gesto. Não só com o despropósito da atitude como também com a anuência passiva de Raimunda. Passou-me pela cabeça - a superior - aplicar uma mijada moralista ao estilo Jão da Moóca, mas logo descartei a idéia. A cabeça inferior - a pensante - me bizuzava que "não cabia a mim julgar a escrotidão alheia". Barganhei, na defesa de seu interesse e com absoluta isenção de crítica:

- Brinco. Mas nada de ficar de plantão na minha rabeira, ok?

Organizou salomonicamente:

- Claro, garoto. Ninguém aqui precisa desse subterfúgio prá aprender o metié. Mas olha: é só um quebra-galho prá molhar o bico do ganso. Depois, deixa o Dentinho dar uma mordidinha relâmpago, que a gente ainda tem que ir embora.

Tive dúvidas nos critérios mas achei arriscado polemizar. Pé-de-Valsa poderia considerar-se de saco cheio e inverter as posições, encaminhando-me ao cu da reta. Permaneci na moita e ele se afastou para repassar o "briefing" ao Dente-de-Sabre. Tive enfim a oportunidade de abrir minha caixa de ferramentas.

As opções eram variadas, tornando-se difícil otimizar a escolha. Medi possibilidades e conseqüências e continuei em bundas. Não sabia se deveria eleger um canto e dar um toque sutil, ou se deveria sentar a mamona no meio dos três paus.

Se não houvesse a intervenção de Raimunda, eu estaria até hoje examinando o assunto. Felizmente, ela tinha boa base em psicologia do metié e percebeu que até mesmo o Cadete Pettengill estava sujeito a um cagaço ocasional.

Aproximou-se do pé do ouvido e sussurrou como numa reza:

- Calma, neném. Mamãe tá aqui.

Muito mais que o sentido da frase, sensibilizou-me a forma como foi dita. O hálito tépido de sua boca adentrou no labirinto auricular, despertou o martelo e levantou a bigorna.

Voltei-me para agradecer a gentileza, mas não houve tempo hábil. Sua língua já me transitava com desenvoltura pelos mais longínquos recantos do céu da boca, obstaculizando o mecanismo de "output" vocal, enchendo de saliva o buraco do dente. Num último esforço, ainda tentei expressar minha aprovação ao processo em andamento. Saiu apenas um grunhido sufocado no nascedouro. Definitivamente, ela tinha o domínio do aparelho.

Como bosta na água, deixei-me levar ao sabor das ondas. Apenas respondia aos estímulos na mesma intensidade, dando cunho prático ao princípio da Física segundo o qual "a toda ação corresponde uma reação em sentido contrário".

Raimunda era mestra na arte do "pot-purri". Seu banho-de-gato tinha qualidade, na forma e no conteúdo. O pincel guaribava tudo, da testa ao queixo e de orelha a orelha. A saliva era de boa cepa. Tinha um delicioso sabor de Cuba Libre mesclado com chiclete de bola, proveniente de um maltratado exemplar que ela mantinha sob a língua e volta e meia me transferia sem Nota Fiscal. Na composição química do material, havia enzimas que lhe proporcionavam alto grau de aderência. Onde passava deixava uma camada farta, grudenta como goma arábica. A viscosidade era coisa de maluco. Os excessos permaneciam fixos nos locais guaribados, como se cagassem e andassem para a Lei de Newton.

Acompanhei os movimentos com naturalidade. Passei-lhe também meu modesto pincel de algibeira, ruminei adequadamente o chiclete quando convocado e dei minha contribuição ao bom nível do relacionamento.

Vinha eu marchando nesse ritmo, quando um pequeno obstáculo desestabilizou o curso.

Joner 66-003