Reminiscências XXIX - "Quede
a Muié?" (Parte 12)
Foi com as mais nobres das intenções
que o precadete Dente-de-Sabre elogiou a beleza facial da camofa Raimunda. Ele
queria confortar a moça e contornar o clima de constrangimento que se
estabeleceu no breu quando ela submeteu seu nome de guerra à apreciação do
pelotão. Mas a emenda esculhambou o soneto. O modesto ensaísta, que vinha
fazendo das tripas coração para manter-se circunspecto, começou a apresentar
pequenos surtos convulsivos que prenunciavam a aproximação de um regozijo não
condizente com sua posição na hierarquia militar. Por outro lado, rir
publicamente poderia provocar reação em cadeia e comprometer o esforço do grupo
em estabelecer, com Raimunda, uma parceria apoiada em bases de sustentação
sólidas.Ciente dessa responsabilidade e pressentindo a iminente aproximação do
desvio de conduta, fui obrigado a deixar apressadamente as negociações e
isolar-me na privacidade do barranco. Mal saí da área de negociação, varreu-me
a síndrome da hiena. Ri como só se ri quando se tem 19 (dezenove) anos de vida
e a cabeça cheia de vazios. Ri de tudo e de todos. Desde o linguajar camofo de
Raimunda, perpassando pela emenda que avacalhou o soneto, até os pseudo
Pettengis, Xoxós e Lobatos. Para agüentar o tranco, apoiei-me no barlavento do
barranco e ali fiquei por uns 10 (dez) minutos, deixando esvair-se o ímpeto da
hiena. Passado o surto, veio a consciência da dura realidade: na nossa
situação, todo riso era irresponsabilidade e todo cagaço, previdência. No
fundo, nada havia de engraçado. O grupo estava perdendo o rumo. Perseguia uma
boca-de-cabelo incerta e insuficiente para três membros, esquecendo-se de que
todos estávamos sob a jurisdição de uma naba com dimensões cavalares. Alguém
como eu, com forte dose de bom-senso e sangue-frio, tinha o dever moral de
mostrar o rumo certo e a inconveniência de derivações improdutivas. Com esse
propósito, reincorporei-me à tropa. Ao chegar, deparei com um cenário
surrealista de ante-sala de Zona de Baixo Meretrício: sob o olhar de admiração
de Raimunda, a pecaminosa boca de Dente-de-Sabre soltava pequenos círculos de
fumaça proveniente de seu morfético cigarro Continental estoura-peito sem
filtro. Paralelamente, Pé-de-Valsa introduzia inconfessáveis segredos aos
ouvidos de Raimunda e esta, a intervalos irregulares, emitia micro-risadas de
cumplicidade. Compreendi que a curta parada no pit-stop, deixou-me anos-luz
atrás do pelotão. Não sem razão, acometeu-me certo ciúme de Raimunda e, devo
reconhecer, o gosto amargo próprio do lateral que toma bola nas costas. Tentei
convocar o grupo à responsabilidade:-Como é que é, rapaziada? Daqui a pouco já
vai dar meia-noite. Vamos ficar enxugando gelo, ou vamos logo prá BQ? Riram.
Todos, inclusive Raimunda. Não ostensivamente, mas com ênfase bastante para
turbinar minha dor-de-cotovelo. Procurei assimilar a adversidade, manter a
compostura e aparentar familiaridade no contexto. Voltei-me a Raimunda, contra
quem bafejei o blefe de intimidade:- Até tu rindo de mim, Mundinha?Ela
acochambrou o riso e perguntou:- Como é qui ocê sabe meu apelido? A curiosidade
de Raimunda me trouxe de volta alguma sensação de credibilidade. Respondi, pura
e simplesmente:- Eles dizem que é intuição, mas trata-se apenas de
"Quoficiente Intelectual".Raimunda permaneceu silenciosa e
interrogativa. Não acompanhou o raciocínio, o que atendia meu propósito.
Considerei-a devidamente impactada e inferi que a auto-imagem de corno era uma
hipótese sem base científica. Vi-me de volta à ribalta e, aproveitando a
oportunidade do momento, dirigi-me ao pelotão:- Agora, falando como macho: o
que é que aconteceu enquanto eu picava a mula no barranco? Pé-de-Valsa e
Dente-de-Sabre tentaram apresentar relatório verbal de bom nível, embora
valendo-se de linguagem excessivamente rebuscada para as circunstâncias.
Iniciaram de forma objetiva, seguindo rigorosamente a técnica recomendada pelos
professores nas apresentações regadas a estanino. Disseram no prefácio:a)O
grupo mantinha-se alinhado com a meta de chegar a Barbacena antes do raiar de
um novo dia; b)A interseção entre as metas do grupo e as metas de Raimunda
apresentavam um largo espectro de convergência; c)Grupo e Raimunda conjugariam
esforços para exploração dos pontos de convergência e consecução de eventuais
metidas colimadas; Passado o impacto inicial, a exposição tornou-se ainda mais
hermética e começou a se arrastar em ritmo lento, descambando para suga mental
à la Ratão. Antes que me acometesse o sono, intervim:- Arrego aí, moreno. Suga
mental à meia-noite é coisa de bicha. Deixa que eu aplico o questionário. Vamos
lá. Pergunta número 1: o que é que Mundinha tá fazendo aqui na beira do
asfalto?Pé-de-Valsa, curto e grosso:- Esperando carona. - Prá onde? Respondeu,
apontando na direção de BQ:- Prá qualquer lugar na rota de River of January.- É
lá que ela mora? - Negativo. Até hoje, ela morava em São João del King. Mas
agora tá de mudança prá aquelas bandas.- Mudança? E cadê o caminhão? Fez-se
silêncio. Cheguei a pensar que a complexidade desse último item da pergunta
número um tinha embananado os interrogados. Não foi o caso. De repente,
Raimunda iniciou mais uma risada de pequeno porte sendo prontamente seguida, em
doses desproporcionadamente exageradas, pelos instintos baba-ovo dos
companheiros.Causou-me espécie a facilidade com que a outrora circunspecta
semideusa, a musa por quem eu tirara minhoca do asfalto para arrancar a
primeira frase, desabrochava-se agora com a inconveniência de um bicho aberto.
Pior: ela não só ria como também exercia alguma liderança nesse pormenor. Não
atinei com o porquê da euforia generalizada, e isso deixou-me em bundas. Se não
havia piada na pauta, então poderia ser eu a própria piada. Olhei em volta de
mim mesmo, procurando anomalias risíveis visíveis. Nada detectado: a braguilha
devidamente suspensa, o freio de mão adequadamente arriado, o defeito do alfaiate
corretamente posicionado, o bigode livre de obstáculos e o rabo liberto de
eventuais penduricalhos de papel.Não provinha da minha banda a razão da graça.
Mas era inegável que o ar investigativo e a expressão de babaca ocasional me
tornava alvo potencial de qualquer espasmo coletivo.Urgia mudar a postura e
acertar o passo com a tropa. Se não por outro motivo, pelo menos para fins de
camuflagem defensiva. Por isso, aderi ao rebu. Não com a convicção de quem
penetra pela porta da frente, mas com a cautela de quem apalpa furtivamente
pelas laterais. A princípio, foi difícil. Por mais que me empenhasse, não
conseguia emitir um som convincente. O arremedo de riso saía como um gemido
fraco e defasado, mais parecendo um pedido de socorro. Definitivamente, eu
continuava marchando fora do passo e dentro da zona de risco. Mas um fato
inesperado me fez ver que todo aquele ambiente de alegria não passava de uma
cortina de fumaça, atrás da qual Pé-de-Valsa e Dente-de-Sabre escondiam uma
intenção muito mais nobre e complexa do que simplesmente crucificar o ensaísta.
Resumamos a ópera: eles queriam tão somente dar cunho prático à parceria
gruporraimundana. E que a História lhes faça justiça: a cara-de-pau dos rapazes
era coisa de outra galáxia.
Joner 66-003