Reminiscências XXVIII - "Quede a Muié?" (Parte 11)

"Amar o belo é sublimar a vida".

Assim dizia o professor Quincas Pau-Duro - publicamente reverenciado como Mestre QPD - ao atingir o clímax de suas incursões pelas grandes obras da literatura brasileira.

A bem da justiça, ele não simplesmente dizia. Interpretava. De uma forma própria, peculiar. Usava e abusava da emoção. Fazia-a fluir de seus poros e inundar a sala de aula, num crescendo por baixo e por cima, contagiando a todos com o sentimento simbiótico entre o tesão da arte e a arte do tesão.

A literatura aguçava-lhe a libido. Entre uma e outra citação de peso, parafraseando autores consagrados - como Joaquim Manoel de Macedo, José de Alencar, Casemiro de Abreu e Olavo Bilac - Mestre QPD deslizava o guincho sob a calça e submetia seu objeto de prazer a rigorosos testes de tensão, compressão e cisalhamento.

"Amar o belo é sublimar a vida". Esse era o fechamento em tom apoteótico com o qual QPD encerrava sua aula teso-literária, ao tempo em que liberava o cabeçote, deixando a platéia menos motivada a embrenhar-se nos estudos de Literatura que a molhar o biscoito em furtivas bocas-de-cabelo da noite barbacenense.

"Amar o belo é sublimar a vida". Para mim, a frase foi o grande legado do mestre. Desde aquela época, virou fonte original de inspiração, à qual passei a recorrer nos momentos de depressão, sinuca-de-bico, ou simplesmente dúvida.

Em São João del Rey, meu sentimento era um mix de depressão e sinuca-de-bico. Tinha diante de mim uma bela menina saída do breu e fechada em si mesma. Tinha à retaguarda, dois atentos observadores, prontos a transformar em acontecimento histórico qualquer deslize de minha parte. Tinha, finalmente, a obrigação moral de dizer alguma coisa. Pelo menos para mostrar serviço aos observadores e obter evacuação honrosa.

Cheguei mais perto da moça e iniciei minha fala:

-Amar a vida é sublimar o belo...

Gelei. Um inoportuno empentelhamento me levou a trocar os objetos e esculhambar o legado do mestre.

Permaneci em silêncio, cabreiro, aguardando um possível rebu do pelotão de fuzilamento. Ninguém se manifestou. Das duas uma: já estariam morgados no barranco - e por isso haveriam comido mosca - ou então minha citação ter-lhes-ia soado apropriada.

Fixei-me na segunda hipótese e repeti, com a liturgia de quem lê o Boletim:

-Amar a vida é sublimar o belo!

Até eu me arrepiei. Além do bom efeito sonoro-pirocotécnico, acentuado pela privacidade do breu, a nova frase ganhou subjetividade rábula e apelo lírico, tornando a versão QPD um obsoleto dinossauro poético.

A musa sentiu o impacto. Acochambrou a postura gastaldoni. Dobrou-se sobre si mesma. Comprimiu os lábios de mel, num esforço cavalar para conter o desabrochar de seu sorriso de Mona Lisa.

Aguardei ansioso pelo som de sua voz mas, aos poucos, ela foi restabilizando a fisionomia, até voltar à ensimesmuda e broxante indiferença.

Entendi que daquele mato não sairia coelho. Além disso, eu já tinha demonstrado ao pelotão do barranco que era macho suficiente para dizer coisas que tocam fundo. Era portanto recomendável deixar logo o campo de batalha, enquanto o moral ainda estava em pé.

Dei meia volta e aproei o barranco. Ia iniciar a evacuação quando percebi, à retaguarda, alguma inquietação. Voltei-me para cumprir tabela. Finalmente, diante desses olhos que a terra um dia há de comer, a musa liberou as cordas vocais num trinado suave como o canto de cotovia:

-Uai, sôr? Nu intendi patavina.

Quase pari um filho, como diria o precadete Santista. Ela falava. E falava bonito. Num tom tão erótico quanto a silhueta. A própria entonação camofa sugeria "sex appeal" ao nível do melhor trecho de Guimarães Rosa.

Apresentei minhas credenciais, antes que o gancho se me escapasse:

-Muito prazer, senhorita. Cadete Pettengill. Qual a sua graça?

Não sei se ela responderia. Não deu tempo. Antes que pudesse esboçar a mínima reação, Pé-de-Valsa e Dente-de-Sabre surgiram do nada e se imiscuíram na negociação:

-Aspirante Lobato, às ordens - disse o caga-pau do Dente-de-Sabre.

-Tenente Xoxó - arrematou o cri-cri Pé-de-Valsa.

Eu tinha motivos para aloprar. Os sanguessugas baipassaram o esforço da criação, a exposição a maledicências e o risco de levar um tabefe nos cornos para, agora, apresentar-se como autoridades-gourmets.

Tivesse eu o instinto aymone e certamente distribuiria porradas multidirecionais até o total restabelecimento da ordem e da disciplina. Infelizmente os homens eram bons de suga e meu perfil psicossocial tendia mais à evasão que ao confronto.

Dirigi-me à musa, simulando manter ainda algum controle:

-Com licença, senhorita. Vou acertar uns ponteiros com esses rapazes ali no fundo e volto já-já, ok?

Acenei-lhes com discrição e os conduzi ao barranco, sem traumas. Chegando, abri o mijão:

-Arrego aí, cacete! Eu me arrebento todo para levar um papo firme e vocês ficam aqui só coçando o saco. Agora vão querer deitar na sopa?

Dente-de-Sabre - ou aspirante Lobato - argumentou por vias tortuosas:

-Calma, Zero Três, calma. Você está imaginando coisas. A ordem dos fatores não tem nada a ver com as calças. A gente leva um papo, procura saber o nome de guerra e a esquadrilha da menina, o que se pode fazer por ela e vice-versa. Aí, sim: se pintar uma bola, a gente toca o rebu. Não é isso, Xoxó?

Pé-de-Valsa aproveitou para bater no morto:

-É. Eu também não entendi esse lance do Zero Três.

Não havia espaço para qualquer pronunciamento de minha parte. O grupo havia capitalizado meu trabalho e ponto final.

Voltamos à presença da musa. Coube ao ensaísta o privilégio de retomar as negociações:

-Qual é mesmo a sua graça, senhorita?

Respondeu, para quem quis ouvir:

-Raimunda.

-Que???

Esclareceu:

-Raimunda. Rearrai, meumun, deadá. Intendeu agora?

O grupo entreolhou-se circunspecto. Mas era apenas fachada. Chamar-se Raimunda e seguir impune eram coisas incompatíveis naqueles anos dourados.

Pessoalmente, eu estive à beira da explosão. Só a duras penas consegui controlar as emoções e evitar que a peteca caísse do meu lado. Procurei ficar em silêncio atrás do toco e deixar que alguém, mais maduro e equilibrado, fizesse o papo fluir com seriedade.

A princípio, fez-se um silêncio constrangedor. Ninguém se sentia suficientemente firme para avançar. Eu já estava quase recuperando a estabilidade emocional e pensando num pitaco salvador, quando Dente-de-Sabre chamou a si a responsabilidade e arriscou uma babada no ovo da moça:

-Olha senhorita. Vou lhe dizer uma coisa: mesmo se chamando Raimunda, você é bonita de rosto...

Foi a gota que fez transbordar o copo.