Reminiscências XXVII - "Quede a Muié?"(Parte 10)
Pela longa língua do Precadete
Bundase, foi-me dado saber o bizu do avião.
Com a revelação, meu receio de
Thomé, até então mantido sob certo controle, assumiu proporções que ultrapassavam
os limites da racionalidade. Passei a me imaginar permanentemente na
alça-de-mira do predador e a apresentar sintomas de psicose
maníaco-enrabatória.
Com esse estado psicológico, eu me
encontrava na valorosa São João del King, ao lado dos não menos valorosos
combatentes Olímpio, o Dente-de-Sabre e Morresi, o Pé-de-Valsa, às 22h30 de um
domingo do final de 1968.
Estávamos precisamente no marco Zero
da Rodovia que liga del King a BQ. Cenário desolador, escuridão de breu, frio
de doer, malas estacionadas no barranco. A desesperança de galgar BQ era
inabalável, já que nada sobre rodas passava pela estrada.
Aliás, galgar BQ seria apenas a
etapa primeira da pernada. Se vencida, dever-se-ia ainda trespassar o ferrolho
anti-V.I instalado na escola após o toque de "Silêncio", e chegar em
vistosos trajes civis ao aconchego dos H-8. Dado o alto grau de especialização
do grupo em levitação sobre muros, essa etapa ainda era considerada "de
factibilidade média".
Havia entretanto um fator
complicador: a escala de serviço previa que, naquela histórica madrugada, o
ícone Thomé estaria empunhando o bastão de Predador de Dia ao Corpo de
Precadetes.
Um pequeno bizu de algibeira fechava
o mosaico de adversidades: constava da programação uma revista-surpresa às 21h30,
com o objetivo específico de passar o rodo na comunidade etérea.
Diante de conjuntura tão crítica, o
moral do grupo claudicava como se fosse estanino do listão. Encerrado o torneio
de "porrinha" para matar o tempo, a criatividade entrou em baixa,
estabelecendo-se clima de final de festa. Pé-de-Valsa, o único com algum
resíduo motivacional, cambaleava em círculos sobre o asfalto, como se
transitasse pela pista do Barbacenense. Dente-de-Sabre estava no osso. Deu um
tapa na mala e caiu no barranco. A mim coube apenas aproveitar a mala
descartada para improvisar uma travesseiro pró-morgatório.
Operávamos nesse diapasão quando, em
dado momento, Morresi interrompeu o passo e espantou-se:
-Que é que é aquilo, rapaz? Miragem?
Sequer ousamos abrir a cortina. Pareceu-nos
tratar-se de mais uma armadilha babaco-varo-juvenil utilizada para perturbação
da ordem pública.
Pé-de-Valsa insistiu, em tom
apelativo:
-Não é sacanagem não, porra. Olha
ali o mulheraço!
Antes que eu pudesse soerguer a
própria massa, Olímpio despencou do barranco e juntou-se ao observador. Ainda
meio sonolento, pude constatar que não havia evidências de sacanagem. A imagem
de uma santa mulher, linda a dar com o pau, jazia solitária em pleno breu, na
mais perfeita e acabada posição de "Descansar".
Dei um chute na mala e me
reincorporei ao grupo, para fazer uma tomada de posição coletiva.
Dente-de-Sabre abriu as negociações,
atestando a qualidade da miragem. Sussurrou:
-Exato, rapaziada. É uma moça.
Dei meu pitaco aleatório, não para
acrescentar novas informações e sim para consolidar presença:
-Afirmativo. E de boa cepa.
Pé-de-Valsa concordou, com
restrições:
-Perfeito, Zero. Mas fale mais baixo
e contenha seu atraso. A pobre menina não tem ninguém. E nós não vamos machucar
seu coração.
O comentário, aparentemente
inspirado em canção de "Leno e Lília", soou como conversa de
cerca-Lourenço. Pé-de-Valsa parecia reivindicar as rédeas das operações para
piruar eventuais privilégios, hipótese que não contava com minha simpatia. O
mundo poderia acabar-se antes de chegar minha vez.
Enfatizei que, em se adotando o
critério da fila, eu não abriria mão de minhas credenciais de Zero Zero do Q.I.
Três.
Lamentavelmente, a tese morreu na
casca. Fui ridicularizado e me tornei politicamente isolado.
Articulados, Olímpio e Morresi
empenharam-se em compatibilizar seus interesses, tomando a precaução de
manter-me sob ostracismo vigiado. Discutiram aspectos tático-operacionais: quem
dá o primeiro combate, quem finca o primeiro pau, quem assume o plantão.
Discordaram em quase tudo. O único ponto de convergência referia-se à minha
pessoa: eu envergaria a braçadeira de sentinela, enquanto eles afogariam os
respectivos gansos.
Diversos improdutivos minutos foram
perdidos em sussurros nervosos e mis argumentações vis até que, num rompante de
bom-senso, Olímpio comentou:
-Porra, cavalheiros! Se a gente
continuar conversando desse jeito, daqui a pouco passa um camofo, leva a menina
e a gente fica sem assunto prá conversar, não é mesmo?
Nada mais foi dito, nada mais foi
ouvido. O grupo, já com a reintegração do ensaísta, dispersou-se em ordem. Cada
um dos membros pegou sua mala e, rigorosamente alinhados, marchamos em direção
à moça.
A uma só voz, sussurramos o bordão
de abertura:
-Boa noite, Cinderela!
De perto, pude apreciar os detalhes.
Não era apenas uma gata. Era A GATA, como bem diria Bené. Seus cabelos não eram
apenas mais negros que a asa da graúna. Davam de dez nos da própria Iracema.
Vestia-lhe o "corpore sano" um conjunto saia-blusa preto, que lhe
imprimia ar de mistério ao nível de Marlene Dietrich em "Testemunha de
Acusação". As pernas, milimetricamente torneadas por Deus - com a possível
assessoria do diabo - estavam protegidas por um par de meias longas, finas,
negras.
Não respondeu ao cunprimento. Nem
precisava. Seu olhar, fixo num ponto indefinido do infinito, tinha a força de
expressão de mil palavras. De tão absorta em seus pensamentos, ignorava a um só
tempo arredores, adjacências e periferias.
Seu silêncio refreou-nos o ímpeto e
deixou-nos pendurados na broxa. Nosso script antevia a possibilidade de
levarmos uma bandeira no meio dos cornos, mas nunca a indiferença absoluta da
vítima.
Olhamo-nos inquisitoriamente,
buscando encontrar respaldo no coletivo. Nada. O grupo não tinha respostas às
nossas perguntas. A solução dependia da criatividade individual.
Cada um de per si tentou estabelecer
sua própria cabeça-de-ponte, usando chavões convencionais. Nada. A musa jazia
engessada em seu mundo particular.
Olímpio foi o primeiro a jogar a toalha.
Resmungando pequenos impropérios de uso geral, deu meia volta e restabeleceu-se
no barranco. Morresi relutou um pouco. Ciscou em volta, buscando atrair atenção
para seu bailado. Também não conseguiu chongas. Desistiu e foi juntar-se
cabisbaixo ao Dente-de-Sabre.
De repente, eu me vi na testa da
fila tendo, ao alcance do bafo, a musa gastaldonicamente imóvel e com o olhar
ainda pregado no cruzamento das paralelas.
Era um momento de responsabilidade,
eu tinha consciência disso. Meus ex-concorrentes agora eram francos-atiradores
membros da banca examinadora. Observariam implacáveis minha performance, com o
objetivo único de colher subsídios para risíveis rebus.
Por outro lado, a menina não era uma
qualquer. Era um cristal delicado. Sua sensibilização demandaria baba-de-quiabo
de bom nível, com frases leves e de alto impacto.
Para dar início ao combate, apostei
todas as fichas na frase-âncora legada pelo mestre QPD:
"Amar o belo é sublimar a
vida...".