Reminiscências XXVI - "Quede a Muié?" (Parte 9)

 

Corria uma manhã de quinta-feira no ano da graça de 1968.

Encontrava-se o ensaísta em decúbito dorsal na ala de doenças assexuais da enfermaria, vítima que fora de um tombamento de emergência.

A cabeça superior voava em céu de brigadeiro. Se por um lado o golpe na marcha do dia anterior revelou-se varada na água, por outro a internação proporcionava sensação de imunidade contra eventuais despropósitos dos escalões superiores.

A imagem do T-6 em tresloucados rasantes fora contabilizada como etapa vencida. Agora, era o momento adequado a baixar a bola, esquecer eventuais erros do passado e concentrar o pensamento apenas e tão somente no futuro. Com muita seriedade, diga-se de passagem.

A curto prazo, havia projetos: primeiro, leria eu um "pocket book" policial gentilmente cedido e recomendado pelo saudoso Tamanduá, especialista na chamada "literatura de paquete" - variante bequeana da folclórica literatura de cordel; mais tarde, lá pelas 11h00, a alcova receberia a ilustre visita de uma autoridade médica para soltar-me as amarras do ócio forçado; à noite, cuidaria do "corpore sano": tentaria um V.I. exploratório na linha de trem, apenas para rápida troca de óleo já que, nas últimas noites, a cueca vinha sendo engomada fora da lavanderia.

Abri o livrete e comecei a leitura. Tratava-se de um "thriller" do jeito que apetecia: poucos preâmbulos e muita porrada. Trespassei as emoções do capítulo I, abrigado no ambiente calmo e seguro da enfermaria.

Mal comecei o capítulo II, adentrou no recinto o precadete Bundase, com seu marcante passo de chinelo raspado. Ainda nas proximidades da porta, chamou:

-Zero Três, Zero Três!!!

O frenesi do berro destoou no silêncio hospitalar. Assustado, fechei rápido o livro e rebati:

-Fala, meu jovem.

Com ar de mistério, ordenou:

-Primeiro chega prá lá que eu tô no bagaço.

Desloquei-me ao canto, liberando ¾ (três quartos) da cama para seu uso-fruto. Entrelaçou as mãos, levando-as à nuca. Deitou-se na parte que lhe cabia, cruzou as pernas e afirmou:

-Tão bizuzando que um avião pegou três ontem.

Era uma notícia de impacto. Mas a presença do informante na cama aportava preocupações mais urgentes. Questionei:

-Escuta uma coisa, japonês: você não está na ala de isolamento com cancro mole?

Mostrou-se circunspecto:

-Afirmativo e negativo.

-Como assim?

-Afirmativo: eu estou no isolamento. Negativo: o exame já esclareceu que o cancro mole passou longe de mim. Ok? Afinal de contas, você quer ou não quer ouvir o bizu?

Não me convenci:

-Então era só uma gripe?

-Negativo. Só uma gonô.

-Gonô??? Então desce daí que esse troço passa, rapaz.

Esclareceu:

-Porra, garoto. Às vezes teu Q.I. me preocupa. És o próprio desmacete em forma de Zero Três. Vê se aprende: macho não pega de macho na cama, okapa? Agora, pára de bostejar e me deixa contar o bizu.

Nossas ignorâncias estavam no mesmo nível, mas a firmeza dele o punha em patamar superior. Aceitei hospedar os estafilos de sua propriedade e solicitei relato pormenorizado de ambos os bizus.

Bundase fez uma apresentação barba-cabelo-e-bigode.

Começou com um preâmbulo introdutório - a meu ver, meio fora de foco - sobre o tratamento que vinha recebendo na ala de isolamento da enfermaria. Reclamou muito das picaduras de bezentacil que vinha tomando na bunda três a quatro vezes ao dia. Depois, teceu algumas considerações sobre a importância das medidas profiláticas no uso dos banheiros, infestados de microscópicos subprodutos dos amores remunerados. Buscou inspiração na aviação de bombardeio para enfatizar o risco dos respingos durante os lançamentos de barro na louça. "Altura é sinônimo de segurança", repetia em tom melodramádico.

Tentei dirimir uma dúvida sobre o risco de contágio pela via sexual, assunto que era de meu particular interesse, mas o palestrante ignorou o aparte. Levantei o dedo e insisti diversas vezes, até que o japonês finalmente admitiu: desconhecia essa particularidade porque jamais havia comido quem quer que seja.

Findo o preâmbulo introdutório, ele me fez conhecer a primeira versão do bizu do avião. Falou da missão de caça, sobrevôo do T-6, fumo de rola nos c.d.f. e, en passant, fez uma breve citação ao mentecapto que escapuliu dos sargentos pombos-sem-asa.

Pedi novo aparte e apresentei-me, em caráter estritamente confidencial, como sendo o próprio. Falei de rasantes na minha vertical, evacuação para a (e não na) enfermaria, tombamento e internação.

Bundase arregalou os olhos - se é que isso foi possível - e assumiu postura inquisitória:

-Então tu és o maluco que morga na lama?

-Afirmativo.

-Sífu.

-O quê??

-Nessa tu sífu, Zero.

-Por que haveria eu de mífu?

Levantou-se da cama e simplesmente decretou:

- Thomé.

Não poderia ser mais contundente. Eu estava na alça-de-mira do predador-mor. E nessa condição passei os últimos meses de BQ.

Joner 66-003