Reminiscências
XXV - "Quede a
Muié?" (Parte 8)
Reza o bizu que Thomé, no comando da aeronave T-6 de prefixo
ignorado, fez coisas do arco da velha.
Não o moveu o exibicionismo, e sim a determinação de
executar uma missão limpeza-nobreza. Sabia o tenente, por sua experiência de
ex-aluno militante, que os golpistas são voláteis, dissipam-se com a
naturalidade de quem veste uma japona. De trás da caixa d’água - onde 3 (três)
c.d.f. se comprimiam em torno de um calhamaço de Desenho Técnico - ou dos
arredores do almoxarifado - onde um pretenso ensaísta morgava escrota e
placidamente em decúbito lateral - eles poderiam zarpar a qualquer momento, sem
deixar um pentelhésimo fio condutor.
Portanto, a missão de caça tão meticulosamente planejada
precisava de retoques.
Era mister manter os meliantes nos postos de transgressão
com as calças arriadas, ao alcance do trabalho logístico-enrabatório da equipe
de terra.
Para fixá-los às posições, entendeu o tenente ser de bom
alvitre adoçar-lhes a boca e hipnotizar-lhes a alma com uma demonstração aérea
de alto nível. Com esse propósito, entrou de sola: mergulhou a aeronave sobre o
Pátio da Bandeira, num rasante tão baixo que fez tremular o pavilhão nacional.
Nenhum dos entrincheirados c.d.f. resistiu ao chamamento. Um
sonoro e uníssono "BOA!!!" saltou-lhes da garganta para o infinito,
ao tempo em que se libertavam do calhamaço encornativo. Sentiam-se
auto-suficientes como pintos no lixo.
A posição era estratégica: o morrinho lhes proporcionava
visão geral do pátio e a sensação de que estavam ao abrigo de quaisquer nabas
de superfície.
A consciência era limpa: as dúvidas sobre perspectivas
isométricas e suas peculiaridades sugatórias foram removidas "in totum in
aeternum".
O fechamento era grandioso: um espetáculo aéreo de graça e
sem riscos estava em andamento, somente para aguçar-lhes os instintos
vibratórios.
Quando veio a aeronave na rampa dos segundo e terceiro
rasantes, deram-se os golpistas ao luxo de acenar para que o piloto aumentasse
o ângulo de descida, como se não fosse o chão o limite.
Nas duas oportunidades, passou o T-6 arrancando tinta da
caixa d’água e mais "frisson" de suas veias aeronáuticas.
Quando a aeronave interrompeu o ciclo de rasantes e ganhou
altitude para melhor observação da área, eles já estavam inconscientemente
presos na arapuca. De guarda baixa, fixaram seus olhares no firmamento e
passaram a teorizar sobre a coragem e a perícia dos pilotos fabianos.
O assunto fluía bem. Havia certa convergência não só nos
comentários técnicos como também nos delírios orgásmicos. Todos concordavam com
as premissas segundo as quais "os melhores pilotos do mundo são brasileiros,
os melhores pilotos brasileiros são da aviação de caça, e os melhores pilotos
da aviação de caça são treinados em Fortaleza". As divergências somente
surgiam quando cada um deles, se dizia ser, um dia, "o melhor piloto a ser
treinado em Fortaleza".
Depois, entrou na pauta o estilo de pilotagem do oficialato
epecariano. Aí o nível dos debates estolou, estabelecendo-se um bate-boca com
resquícios de zona. Baliú é isso, Cambiaghi é aquilo, o forte de Sampaio é o
badalo, Segadães, depois que raspou o bigode, nunca mais foi o mesmo: curou-se
do chato, mas contraiu uma parafusofobia ...
Coisas do gênero.
A ninguém ocorreu sequer mencionar Thomé. Muito menos
considerar a possibilidade de estar o tenente no comando de uma operação de
caça digna dos melhores pilotos de Fortaleza. O grupo encornativo entendeu que
ele, Thomé, seria carta fora do baralho, pois foi visto trajando décimo
uniforme no início da marcha. Se constava na marcha, então não poderia estar lá
em cima, já que o requisito da onipresença era inacessível aos oficiais
subalternos. Mesmo tratando-se de Thomé.
A omissão custou caro. Foi com base nas informações do
tenente-predador que uma viatura da cor do manto de Nossa Senhora descarregou 2
(dois) pombos-sem-asa travestidos de sargento, em frente ao cassino. Escalaram
sorrateiramente o morrinho pela retaguarda e, com as canetas desensarilhadas,
vislumbraram a rapaziada ainda discutindo aspectos relacionados ao ex-bigode de
Segadães.
Coube ao sargento mais antigo executar a preabordagem:
-Senhores. Queiram cantar os números e acompanhar-nos, por
gentileza.
A voz morreu no nascedouro, engolida que foi pelo rebu
predominante. Nem a presença física dos abordantes foi notada.
Na ausência de uma megafone, o sargento entrou no meio do
grupo e gritou para o mundo:
-Atenção, pelotão!!
Fez-se o silêncio. Pela firmeza do berro, o grupo deduziu -
corretamente, diga-se de passagem - que o homem tinha respaldo. Cogitou-se
ainda de eventual dispersão, mas a consciência hierárquica prevaleceu. Os
sargentos estavam muito próximos, já teriam manjado as fisionomias. Também o
terreno era acidentado, inadequado a evacuações do tipo
"espalha-merda".
E já que assim o era, então todos tinham um moral a zelar:
eram velhos precadetes em fim de carreira, quase cadetes. Correr de sargento
seria tão absurdo quanto admitir que o rabo tem autoridade para balançar o
cachorro.
Nesse caso específico cabia, entretanto, dialogar. Um líder
situacional assumiu o comando do grupo e questionou, simulando tranqüilidade:
-Tudo bem, sargento?
Respondeu o sargento:
-Mais ou menos.
-Mais ou menos por que? - insistiu, valendo-se de certa
cara-de-pau.
-Porque tenho ordem de anotar os números e encaminhar ao
comando.
-Ordem de quem, sargento?
-De cima.
-De cima como? O senhor quer dizer que é ordem superior.
Certo?
-Sim, mas a ordem superior veio de cima.
O homem abusava das indefinições verbais e dos pleonasmos
viciosos. Das duas, uma: dava uma de João-sem-Braço ou então seu Q.I.
claudicava. Em qualquer das hipóteses, era prudente manter o nível do saco sob
controle. O líder retomou as negociações, com paciência:
-Vamos lá, sargento: segundo nos parece, toda ordem vem de
cima. Donde se conclui que é ordem superior. Estou certo ou estou errado?
Contrariamente às expectativas dos encornadores, foi o
próprio sargento quem deu sinais de apoquentação ao esclarecer, com certa
ênfase professoral:
-Vê se dá prá entender, meu filho: estou prendendo vocês por
ordem superior. Esta ordem superior poderia perfeitamente ter vindo lá de
baixo, onde está o alto comando. Mas não foi o caso. Ela veio de cima. Lá de
cima. - repetiu, apontando para o T-6 que, a essa altura, voava alto e
balançava as asas como se lhe referendasse as palavras.
Ante à estupefação geral concluiu, com uma pitada de ironia:
-Para informação dos senhores, o homem de cima é o Tenente
Thomé. Entendido aí no fundo?
Nenhuma dúvida. Parafraseando Tuchê, os encornadores se
sentiam como se participassem de solenidade de abertura da N.A.E., em que o
tenente a tocha traz.. Só lhes restava esperar que eventuais condições
atenuantes tornassem a proctalgia suportável.
Escoltados pelos sargentos, desceram a ribanceira e
encaminharam-se ao comando da escola para explicar o injustificável.
Depois de haver entregue os encornadores ao alto comando, os
sargentos retornaram à viatura para executar o último penduricalho da missão:
resgatar um suposto mentecapto que estaria morgado nas proximidades do
almoxarifado. Por diversas vezes percorreram o trajeto entre o almoxarifado e a
então futura Praça de Esportes. Infelizmente - para eles - não localizaram
absolutamente chongas".
Fecha bizu.
Joner 66-003