Reminiscências XXIV - "Quede a Muié?" (Parte 7)

Da era BQ, o sumiço do mosquetão veio a se constituir um dos inexplicáveis mistérios, qualquer que seja o sentido do termo.

O soldado, a quem interroguei com alguma ênfase, declarou jamais havê-lo visto. Ninguém mais viu. Mas ele - o mosquetão - reapareceu incólume no depósito de material bélico.

Nunca me foi dado saber como lhe foi possível ausentar-se da enfermaria, atravessar corredores infestados de águias-sem-asa, galgar os píncaros do Jardim de Alah e reocupar seu posto junto aos semelhantes sem levantar um pentelhésimo mol de poeira. Nem os mais irretocáveis vôos instrumentalizados protagonizados por Olímpio, o "Dente-de-Sabre", se aproximaram tanto da perfeição.

Na enfermaria, jazi dois dias internado sob atenta observação médica. Não foram detectadas anomalias neuro-vegetativas de boa monta, que justificassem o carimbo "INAPTO PARA OS FINS A QUE SE DESTINA". Também não me alcançaram os tentáculos predatórios dos papácus platinados. Baixado, o ensaísta gozava de imunidade anti-rola, fundamental para dar prosseguimento ao projeto de galgar as estrelas.

Mas houve prejuízos.

Estando em pré-coma pós-tombamento, fui automaticamente excluído do rancho da noite. Lamentei o fato, somente no que toca à sobremesa.

O taifeiro "Barra Limpa", informante da comunidade golpista infiltrado no âmbito da cozinha, me havia confidenciado - na boca pequena - que estavam programados verdejantes abacates em caldas mis, que soíam apetecer-me sobremaneira.

Já as iguarias do prato principal não atravessavam boa fase. Na semana anterior, havia eu cometido a desfaçatez de respirar à frente do panelão de ovo frito. O aroma ali captado deixou-me marcas inolvidáveis, somente comparáveis às causadas pelos bombásticos coquetéis "Molotov" e pelas indefectíveis rajadas bafônicas bolzanianas.

Também perdi na área cinematográfica. Era dia da segunda reapresentação do "O Expresso de Von Ryan", película americana estrelada por um jovem ator chamado Frank.

Obviamente não me refiro aqui ao famoso gaúcho porém macho Franke’, intelectual golpista de casaca cujo perfil psicológico atípico foi objeto de curiosidade do saudoso Brigadeiro Camarão e que, nos intervalos, atuava como coadjuvante do não menos gaúcho porém macho, um pouco menos golpista e igualmente intelectual Pardal. O incógnito Frank do filme portava, em seu desbotado passaporte, o nome de família de um tal Sinatra.

Causou-me puta espécie perder o filme, já que do enredo constavam fantasiosos golpes de soldados americanos em linhas nazistas. Mesmo sendo deslavado mistério, o tema era à época encarado como "lição de vida".

Cogitei dar uma pequena escapada durante a projeção, mas faltavam-me o domínio do "modus faciendis" e, sobretudo, culhões.

Vale destacar que, até então, VI de enfermaria era como viagem à lua: apenas um sonho.

A humanidade só viria a conhecer essa modalidade de operação ao apagar das luzes de 68, quando o "Dente de Sabre" empreendeu uma pioneira tentativa mal sucedida. Pagou o preço do pioneirismo. Foi convidado a piruar desligamento, mas abriu caminho para o desenvolvimento de novas tecnologias.

O maior dos prejuízos, entretanto, começou na quinta-feira seguinte, e transcendeu ao tempo em que estive baixado. Foi uma espécie de terrorismo psicológico, veiculado por bizus de fontes múltiplas envolvendo o caçador Thomé, e que ajudaram a fixar o atributo da onipresença à imagem do predador.

Dos tais bizus, permaneceu a seguinte interpretação da versão resultante de todas as versões circulantes:

Abre bizu:

"Quando o corneteiro bafejou o comando para início da marcha, o Ten. Av. Thomé abandonou a tropa e dirigiu-se ao estacionamento localizado atrás do rancho dos oficiais.

Lá, adentrou num veículo - possivelmente mas não necessariamente de sua propriedade - e, com ele, tomou o rumo do Aeroporto Internacional de BQ.

No aeroporto, estacionou o veículo. Dirigiu-se à sala de controle. Preencheu o Plano de Vôo e ultimou instruções ao controlador de vôo - nenhuma das fontes conseguiu captar o teor, já que a comunicação foi na boca miúda.

Meteu o macacão de vôo e cravou o capacete - ambos possivelmente mas não necessariamente de sua propriedade. Dirigiu-se a uma aeronave T-6 estacionada na posição 1 (um) do pátio.

Dispensou os procedimentos prescritos de inspeção pré-vôo. Esse detalhe quase comprometeu a credibilidade do bizu já que o tenente, em sua fase pós-aluno, era rigoroso no cumprimento de qualquer tipo de regulamento.

Para remendar o furo, o bizu especulou que a aeronave já teria sido previamente vistoriada, testada, e dada como apta para a missão, dispensando-se quaisquer firulas protocolares.

Por três longas vezes, tentou dar partida. O motor empacou.

Ficou puto. Preparou-se para ejetar uma mijada de alerta, mas não foi necessário. O sargento mantenedor aproximou-se pela retaguarda e tranqüilizou:

-Pode deixar, tenente. Ele pega no macete.

Isto posto, segurou as duas pás da hélice e fê-la girar.

O macete preconizado exigia paciência. O motor só veio a aquiescer lá pela quinta tentativa, quando o sargento já estendia sua gravata vermelha além dos limites da boca, e o tenente ameaçava sacar da caneta.

Uma espessa nuvem de fumaça cobriu a aeronave. Impassível, o tenente deu manete e a conduziu à posição 2 (dois), situada nas imediações da pista em uso.

Passou batido pela posição 2. Tinha pressa. Tomou a cabeceira e decolou.

Ainda na ascendente, direcionou a proa à E.P.C.A R.

Chegando à vertical do Pátio da Bandeira, cedeu suavemente o manche, para desembarrigar e nivelar a aeronave em altitude próxima aos 2.500 pés. Ato contínuo, desacelerou a manete e, com a convicção própria de um falcão peregrino, deu por iniciado o processo de auscultação do cenário.

Logo na primeira passada, seu instinto predador captou anomalias ao nível do solo: um subpelotão de 3 (três) ou 4 (quatro) precadetes coçando os bagos no morrinho da caixa d’água.

Guinou 360 (três meia zero) graus à direita, para refazer o trajeto com o foco exclusivamente no alvo. Era meticuloso na avaliação da caça.

Na segunda passada, deu "zoom" na imagem, e captou importantes detalhes:

Eram só 3 (três) os meliantes. Estavam estreitamente agrupados em torno de um livro - possivelmente mas não necessariamente de Desenho Técnico, a julgar pela cavalar espessura do calhamaço. Exerciam cumulativamente as funções de golpista e encornador.

Embora lhe parecesse um fato incomum - já que a faixa de interseção dos subconjuntos de golpistas e de encornadores era estreitíssima - havia certa lógica na imagem: encornadores estariam eventualmente golpeando a marcha para melhorarem suas performances estanínicas.

Tendo somente o céu por testemunha, o fechadíssimo Thomé escancararia um sorriso tão aberto quanto o mais aberto sorriso do mais aberto bichíssimo de meia oito. A causa era nobre. A missão já tinha alvo.

Mas sua fome era voraz. Tinha que raspar o prato.

Fez agora uma curva à esquerda e reinvadiu o espaço aéreo da escola em trajetória perpendicular à anterior. Era sua intenção passar pente fino cobrindo toda a área intra-muros.

Mais uma anomalia foi detectada na litosfera: uma mancha solitária, da cor do manto de Nossa Senhora, morgava voluptuosamente sobre a relva úmida nas imediações do almoxarifado.

Dessa vez, não havia lógica capaz de sustentar a rebordosa: golpe na marcha para dormir na lama era coisa que ultrapassava sua capacidade de cognição.

Mas isso era problema do padre Mauro, não da aviação de caça. Seu negócio era identificar o golpe e passar o cerol na marginalidade.

Com o rádio sintonizado na freqüência do aeroporto, chamou:

-Torre Aeroporto Internacional de BQ, Papa Papa XYZ.

Respondeu o controlador:

-XYZ, Aeroporto Internacional de BQ na escuta.

Tenente:

-XYZ vertical E.P.C.A.R., missão W, 3(três) c.d.f. morro caixa d’água mais 1(um) maluco mato imediações almoxarife.

Controlador:

-XYZ afirmativo. Contato comando local missão W em andamento.

Encerrado o papo rádio, o controlador hard-finger pegou um telefone e repassou à escola todas as informações captadas do T-6.

Um outro oficial possivelmente abandonaria a área e daria por encerrada sua parte na missão. Não Thomé.

O insaciável tenente precisava retocar a maquiagem com um trabalho à altura de sua habilidade. Precisava manter os meliantes em seus postos de transgressão até a chegada do comando de terra para surpreendê-los de calça arriada.

Com esse propósito, deu nova guinada à esquerda e, com o manche picado no limite, voltou a entrar na escola."

Joner 66-003