Reminiscências XXIII  - Quede a Muié?" (Parte 6)

O tombamento em formatura era um fenômeno comum nas solenidades militares.

Não chegava a ser uma epidemia - acometia apenas 1% do efetivo. Mas tinha certa relevância, já que expunha uma faceta frágil do "corpore sano", fator diferencial da presumida superioridade do precadetal sobre os reles mortais camofos paisanos.

O tombamento não escolhia vítimas. Atingia indistintamente todas as faixas de peso, desde os subnutridos filés-de-borboleta até os bem aquinhoados lutadores-de-Sumô. Derrubava não só os aratacas, criados à base de água de açude com farinha de tapioca, como também os gaúchos arianos, vorazes chupadores de chimarrão. Até nossos avantajados e duros membros da P.A., símbolos-mores da virilidade epecariana, vez por outra broxavam solenemente, submetendo-se ao constrangimento de serem removidos da formatura em deplorável estado de repouso.

O Precadete Babadopulus - "El Greco" ou Baba, para efeito aleatório - costumava transformar essa tragédia endêmica em comédia-pastelão.

Ao mais insignificante comando de "Sssssssentido!", "El Greco" fazia seu metro e meio de massa muscular - exaustivamente trabalhada junto à equipe de ginástica acrobática - cair pesadamente sobre os companheiros próximos, simulando mais um caso de tombamento a engordar as estatísticas.

A rapaziada da boca de urna sabia que aquilo não passava de um jocoso embuste. E, longe dos holofotes, elogiava a performance cênica de "El Greco", massageando-lhe o ego e colocando mais lenha na fogueira de sua vaidade.

Intensificava-se então o círculo vicioso de mais uma hilária babaquice juvenil: a)Baba caía porque a rapaziada ria; b)A rapaziada ria porque Baba caía.

A imagem de "El Greco" tombando alhures foi minha fonte de inspiração. Ela me veio à cabeça no exato momento em que o doutor passava pelo meu perigeu, decidido a abandonar o consultório e lançar-me aos leões.

À passagem do doutor, executei: "Direita Volver!".

O movimento o assustou. Surpreendido, deu meia parada e virou-se em minha direção, buscando encontrar ali alguma lógica comportamental.

Por um instante, ficamos de bigodes aproados. Tão próximos, que pude captar-lhe um suave aroma de sabonete Eucalol, denunciando que aquele material humano acabara de ser higienizado com um banho de qualidade.

No melhor estilo Baba, semi-cerrei os olhos e fiz cair a bolorenta carcaça sobre o eixo longitudinal da autoridade médica.

No que toca ao item "reflexo", o homem não decepcionou. Considerando suas limitações de civil em idade avançada - vinte-e-lá-vai-pedrada anos - respondeu ao estímulo no tempo aceitável.

No que toca ao item "solidariedade", entretanto, sua performance foi uma calamidade. Ao contrário da clientela de Baba - que ao menor sinal de tombamento estendia os braços para acolher o corpo que cai - o doutor deu um passo para trás, ameaçando evadir-se em "sprint".

Quando percebi sua intenção de evasão, já não havia possibilidade de abortar o processo: os joelhos estavam dobrados e o corpo excessivamente na descendente. Restavam ao modesto ensaísta apenas duas opções: destabacar-se passivamente no assoalho, ou tentar buscar no laço o apoio que se lhe escapava.

Aproveitando a inércia da queda, impulsionei o corpo à frente, larguei o mosquetão e estendi os braços para alcançar o suporte fugidio.

Enquanto o mosquetão placava sobre o assoalho, meu abraço-de-tamanduá alcançou o cangote do doutor. Vendo-se irremediavelmente atrelado à minha pessoa, ele não opôs resistência: limitou-se a emitir um lacônico e inconformado comentário:

-Não, não, mil vezes não, porra!!

Por entre as pálpebras semi-cerradas, constatei o porquê da reação: minha carcaça bolorenta havia repassado parte de suas características ao outrora privilegiado corpo regado a água de Eucalol.

Enquanto deslizava ao longo do doutor, não pude deixar de sentir uma pitada de satisfação pessoal. Algo me dizia que estava no caminho certo. Tinha tomado uma atitude de macho.

Não tão destemida quanto os grandes gestos de Mororó, por exemplo. Mas, convenhamos: ele era um dos ícones da inconseqüência. Com justiça, a Hstória lhe atribui o fato de, ainda na condição de bicho merdel, haver peitado o mega-Capitão Braga, à época monstro sagrado da legendária esquadrilha da fumaça.

Concluído o deslizamento, desconectei-me da autoridade e deixei a carcaça esparramar-se no assoalho.

Agora, era preciso ter fé. Não a fé ôba-ôba que acometia os adeptos do movimento "Viva a Gente".

Tinha que ser uma fé consistente, à prova de quaisquer questionamentos nabáticos. Capaz de transformar em fato consumado mesmo os mais criativos mistérios de Queijas.

Ocorreu-me Maquiavel. Maceteei um pouco sua filosofia para adequá-la às circunstâncias: "O fim de livrar o cu da reta justifica o meio de forjar um apagão".

O tombamento foi um mal súbito, provocado por estado semi-febril e por incapacidade de resistir aos rigores de uma posição de "Sentido". Em sendo a fé de boa cepa, essa tese passa lisa.

Eu estava desmaiado. Se necessário, morto.

Nesse estado fiquei, alheio ao mundo exterior. Por tempo indeterminado.

Quando ousei reabrir os olhos, a noite já havia chegado. Meu corpo jazia deitado sobre uma das camas, no ambiente silencioso da enfermaria.

Consultei o Cyma de trinta dinheiros. Era algum momento entre 19h00 e 20h00. "Lá se foi a porra do rancho", foi minha preocupação primária. Depois, já com algum sentido de responsabilidade, inventariei o prejuízo material: eu ainda tinha o décimo uniforme atachado ao corpo, mas os pés estavam matematicamente nus.

Rolei para o lado e dei um "look" embaixo da cama. Lá estavam as botas lodosas, escoltadas pelas meias morféticas numa formação rigorosamente ao léu. O indivíduo que as colocou ali fê-lo com o zelo próprio de quem lança cargas ao mar.

Com a rolagem, percebi que alguma coisa me incomodava às costas. Levantei a barriga e peguei: era o bico-de-pato. Prejudicado, coitado. Apliquei-lhe duas mini-porradas na cabeceira da cama e retoquei-lhe a imagem. Seu aspecto readquiriu vida. Voltou a ser apenas sofrível.

Lembrei-me do mosquetão. Nesse item, o bicho pegou. Ele - o mosquetão - deveria ser entregue ao depósito de material bélico antes do anoitecer. A perda do armamento era falta tão grave que os respingos poderiam manchar a ficha de Maquiavel.

Movi desesperadamente o periscópio em todas as direções. Nenhum vestígio.

Pulei da cama. Ele - o mosquetão - poderia estar no consultório médico. Foi lá que o descartei ao optar pelo doutor na operação arranca-rabo.

Decidi recuperá-lo. A qualquer preço.

Caminhei reto e nivelado para a porta. Quando ia alcançá-la, passos apressados vieram do corredor. Pareceu-me imprudente ser visto à deriva fora dos limites da cama. Corri de volta ao posto de repouso, mas não houve tempo. Dois plantonistas adentraram no recinto e me flagraram em pleno movimento. Antes que evocassem a lei para comandar minha parada - como no evento Pliópas versus Catão - optei por congelar voluntariamente a imagem.

Aproximaram-se, diminuindo o ritmo do deslocamento. Perto de um ensaísta tão ridiculamente imóvel quanto "o homem que pensa" de Godin, um dos abordantes colocou no outro a seguinte pergunta:

-É esse o rapaz?

O outro respondeu:

-Perfeitamente, senhor.

O perguntante parou. Olhou-me do topo à base e da base ao topo. Fazendo-se acompanhar do outro, circundou-me lenta e silenciosamente, ao tempo em que examinava em detalhe as partes visíveis do iceberg.

Ao cruzarem meu estático campo visual, pude também captar-lhes as imagens e traçar um pálido esboço de seus perfis psicossociais.

O perguntante estava à paisana. Dele, só me foi dado inferir que se tratava de um ser humano consciente da própria autoridade. Tinha potencial de naba.

O respondente estava uniformizado. Às mãos, tremulavam uma prancheta e um lápis Johan Faber número 1. Era um típico soldado camofinho, com alto grau de insegurança e baixo grau de periculosidade.

Completada a vistoria, a naba dirigiu-se ao camofinho:

-Anota aí, meu filho: vai ficar dois dias baixado em observação.

Mal concluiu a frase, foi tomando o rumo da porta, deixando ao subordinado o ônus de decidir-se entre a obrigação de registrar a baixa e a de acompanhar o superior.

Quis o camofelho registrar e caminhar simultaneamente, mas a decisão revelou-se pretensiosa. Não chegou sequer ao segundo passo. A irrequieta prancheta fugiu-lhe ao controle e caiu no chão, enquanto o insensível superior desaparecia pela porta.

A súbita ausência da naba potencial me fez sentir um gigante. Tornei-me não só a maior autoridade em exercício naquele microssetor da enfermaria, como também a menos desestabilizada em termos emocionais. Valendo-me dessas credenciais, abordei o soldado, no instante em que recolhia a prancheta:

-Psssst!!

Levantou-se e acusou:

-Sim, senhor?

Levantei a bola:

- Diga, meu rapaz....

Rebateu:

-Dizer o que, senhor?

Interroguei, com certa veemência:

-Viu você algum mosquetão dando alteração por aí?

Joner 66-003