Reminiscências XXII    - "Quede a Muié?" (Parte 5)

Outubro de 1968, quarta-feira, 15h00.

Enquanto o Corpo de Precadetes executava as manobras preparatórias para a operação Cabangu, o ensaísta puxava um ronco sobre a relva úmida, num ponto qualquer entre o almoxarifado e a então futura Praça de Esportes.

Não era um sono plácido, ao nível dos proporcionados por uma suga mental de Filosofia no ambiente aconchegante da sala de aula.

Na relva, o ronco era sobretudo solitário e sofrido.

Não havia a proteção dos companheiros para aplicar uma alvorada extemporânea à base de testinha afetuosa, de torniquete de alerta ou mesmo de bicuda solidária por baixo da cadeira, anunciando a aproximação de eventual autoridade.

Em estando só, eu era obrigado a acumular as funções de morgar e vigiar.

A lama gelada, que impregnava o décimo uniforme, se associava ao vento cortante da montanha, fazendo tremer até o último fiapo de trompowsky.

Em dado momento, quebrou-se a tranqüilidade do ecossistema: um T-6 rasgou o céu de anil barbacenense e passou em vôo rasante, na vertical da minha posição.

Abri os olhos, ainda a tempo de captar a imagem da aeronave se afastando em trajetória ascendente, executando uma curva de alta inclinação para a direita, desaparecendo atrás da montanha.

Fiquei encafifado. Que motivos levariam um oficial aviador a executar manobra daquele calibre para platéia inexistente?

Enquanto eu buscava resposta a essa pergunta, o T-6 reincidiu duas vezes no rasante. Em seguida, ganhou altitude e, em círculos, permaneceu sobrevoando a área.

Pareceu-me óbvio: a aeronave estaria em serviço de busca e enrabamento. Lamentavelmente eu tinha o objeto de interesse do piloto.

Monologuei:

"Calma, ralé. Por mais AV-PC que seja o piloto em comando, é impossível ler o número na tarjeta. Lá de cima, o máximo que ele pode identificar é uma mancha azul-café tremulando no mato".

Embora razoáveis, minhas palavras não me convenceram. O pavor de romper a barreira dos 30 pês - e saltar do bonde que conduziria ao oficialato - me impedia de raciocinar dois lances à frente.

Lembrei-me de um dos axiomas que circulavam no seio da rapaziada: "a diferença entre heróis e covardes é que somente os primeiros conseguem verter em audácia a força do próprio cagaço".

Incorporei o sentido da frase. Tachei-me de covarde, por vir adotando postura furtiva, rastejando na lama como rato de esgoto. Essa não era a conduta esperada de um soldado macho que se auto-intitulava, aos quatro ventos, o "Machoner Zero Três do QI Gonçalves".

A mijada pegou na veia. Turbinou a auto-estima. Fez despertar o macho que dormia dentro do soldado.

Subi da cama de capim molhado, raspei a palma da mão sobre o tórax - para remover o excesso de borra - lancei o mosquetão em "ombro-arma" e marchei no rumo da enfermaria.

Tinha na cabeça um alvo fixo e a determinação de um kamikasi: arrancar de algum picolé-de-coco, fosse ele linha-dura ou barra-limpa, uma dispensa médica para dar cobertura à insensatez daquele maldito golpe na marcha.

À frente do alojamento do bicharal - en passant - cruzei com algumas nabas da ala burocrática. Encarei-as com a firmeza própria de quem vestiu a camisa de herói e fiz os cumprimentos disciplinares. Notei certa curiosidade em torno de minha imagem, mas não fui interpelado. Também não ousei olhar para trás. "Heróis não são necessariamente burros", pensei.

Subi a calçada e adentrei na enfermaria.

Não havia viva alma na sala de espera. Só algumas cadeiras estrategicamente espalhadas. Pensei em sentar-me, mas o bom-senso recomendou evitar movimentos que pudessem degradar a qualidade do meio ambiente.

Permaneci em rigorosa posição de "Descansar". Entendi que essa atitude me manteria mobilizado, de moral elevado e com o foco no alvo.

Um Cabo apareceu na sala. Olhou-me à distância, atravessou o recinto e entrou no consultório médico. Pouco depois, reapareceu à porta do consultório e acenou-me a entrar, tomando a precaução de manter-se longe de minha trajetória.

Entrei no consultório.

Diante de mim, sentado à mesa - e não na mesa - estava o doutor. Era um senhor de uns vinte-e-lá-vai-pedrada anos, bastante conhecido dos ratos de enfermaria. Tinha como característica marcante a facilidade com que sacava da caneta para prescrever dispensas médicas, sob o convincente diagnóstico de "Estafa Psicossomática". Estranhamente, trajava uma camisa psicodélica, em vez do tradicional jaleco de médico civil. Parecia compenetrado, rabiscando quadradinhos aleatórios no verso do receituário.

Senti um misto de alívio e euforia. Ele era o homem sob medida. A providência divina o colocara ali, naquele exato momento, com os objetivos únicos de remitir meu último pecado e evitar que a Força Aérea perdesse um oficial de boa linhagem.

Acochambrei a postura e fiz implodir um berro digno de Pinto Machado: "BOA, tchê!!"

Mal completei a desmobilização, o doutor se pronunciou:

-Jovem, o horário de consulta já acabou.

A frase não só contrariava minha expectativa como também prenunciava turbulência no percurso. Fiquei apreensivo.

Era de bom tom dar um lance de espera. Movimentei meu cavalo para trás:

-Como disse, doutor?

Reiterou, com clareza cristalina:

-O tempo de atendimento acabou, c’est fini. Já saí de serviço.

O homem não deixou dúvida. Por absoluta omissão de socorro, pretendia extirpar da F.A.B. a chance de manter-me em suas fileiras.

Dei um passo à frente e argumentei em bases sólidas:

-Mas doutor, eu estou no bagaço.

Levantou a cabeça. Deu um "look" geral no arcabouço. Franziu a testa. Respirou fundo. Levou a mão ao nariz. Franziu mais ainda a testa.

Sussurrou, sem tirar a mão do nariz:

-Bagaço é apelido.

A observação me pareceu exagerada. Em outras circunstâncias, eu ousaria achá-la inconveniente. Mas, para a situação específica, atendia ao fim a que me destinava. Pelo menos, havia resquício de convergência em torno do bagaço.

Permaneci imóvel na posição de "Descansar".

Lentamente, a autoridade médica desvirou o receituário e pegou a caneta, para fazer uso de sua especialidade. Levou a outra mão à testa, pensativo. Buscava inspiração para redigir uma dispensa à altura de sua reputação.

Rabiscou meia dúzia de hieróglifos em escrita cuneiforme. Arrependeu-se. Destacou a folha. Amassou-a fortemente entre os dedos, deixando transparecer sinais de impaciência.

Percebi que a terminologia clínica se lhe escapava. Resolvi entrar em cena e dar um motorzinho no processo:

-Doutor. A coisa tá feia mas não é grave. Se o senhor puser aí uma estafazinha psicossomática e mais um repousinho de duas horas, eu volto a ser o que era, sem a menor sombra de dúvida.

Foi um tiro na água. O homem abandonou a atitude meditativa, desprendeu-se da caneta e decretou:

-Vamos pelo regulamento. Vou convocar o colega de plantão para examiná-lo. Você fica aguardando de pé aqui na sala, sem se sentar. De pé. Ok, meu jovem? Sem se sentar.

Aos ouvidos do ensaísta, essas redundantes e enfáticas palavras causaram impacto só comparável ao do Boletim Interno, em sua apavorante "Quarta Parte - Justiça e Disciplina".

Sem o beneplácito do "Pai da Estafa Psicossomática", meu futuro nas forças armadas teria o exato valor de minha imagem.

Além de retirar-me o apoio, o ex-enviado da providência ameaçava espalhar a notícia do golpe pela comunidade médica.

Levantou-se, e iniciou sua caminhada no rumo da porta. Enquanto ele circundava a mesa, o ensaísta vasculhava freneticamente seu arsenal de opções, à procura de uma solução capaz de reverter as tendências.

Imagens desconexas me passavam em "flash" pela cabeça: Tenente Thomé, Hilda, Expresso de Von Ryan, Jupira, Jardim de Alah, Irma la Dulce, Tainha, Quincas Pau Duro, Sapuru, Rancho Alegre, Jupira, Limpeza Nobreza, Babadopulus...

Parei em Babadopulos, no exato instante em que o doutor acabara de contornar a mesa e passar a meu lado direito.

E foi a imagem de "El Greco" que me trouxe a oportunidade de mudar o rumo da História.

 

Joner 66-003