Reminiscências XXI   - "Quede a Muié?" (Parte 4)

Meu repouso sobre a cama do Precadete 66-086 - chamado de Tamanduá na boca pequena - foi curto e turbulento. Não passou de 15 minutos. Acordei assustado com um pesadelo provocado pelo feijão com lingüiça servido no rancho. Ato contínuo, pude captar o som de alguém abrindo a porta do apeteó e adentrando no estabelecimento.

Felizmente, eu dormira preparado para essa eventualidade. Ao deixar-me tombar a carcaça sobre a cama de Tamanduá, fi-lo rigorosamente uniformizado. Até o bico-de-pato estava pregado na cabeça.

Isso me poupou etapas cruciais no trabalho evacuatório.

Quando a porta rangeu, eu já estava quase pronto. Bastou-me pegar o mosquetão e, usando o reflexo intrínseco da aviação de caça, trespassar a janela.

Pulei para o andar de baixo e corri por trás dos apeteós, no rumo do almoxarifado.

Enquanto escapulia, fazia contas. Um golpe na marcha-ensaio da pseudo-guerra de Cabangu estava cotado na faixa de 4 (quatro) a 8 (oito) pês. Em função de deslizes pregressos, minha ficha já tinha absorvido salpicos que totalizavam uns 27 (vinte e sete) ou 28 (vinte e oito) pês. Conclusão: a caçapa não tinha bitola para engolir uma bola daquele tamanho.

Cheguei ao almoxarifado. Encaminhei-me para trás do prédio, à procura de esconderijo, mas o local era inadequado a esse objetivo.

Ali - atrás do almoxarifado - destinava-se basicamente à prática da democracia, em sua expressão mais selvagem. O espaço fora idealizado para eliminar diferenças individuais entre desafetos, servindo de palco a grandiosas sessões de porradaria.

Alguns dias antes, Cowboy de Santo Anastácio havia matamorfoseado minha massa encefálica durante uma partida de porradobol.

Em setembro de meia meia, o bichano 66-102 Pará - vulgo Pedro Paulo - teve a honra de recepcionar o veteraníssimo 65-Cachorrão para uma troca de cachações. Do combate, a história registra os seguintes destaques:

a)O resultado:

Empate.

Na versão de Pedro Paulo, ele tomou duas "tapas de raspão" no pé-da-orelha. Mas conseguiu colocar um importante pontapé nos culhões do opressor. Perguntei-lhe: "Se assim o foi, então você perdeu de 2 (dois) a 1 (um). Certo?".

Respondeu, enfático: "Negativo, garoto!!! Meu chute tirou o pau do cachorro de circulação. Tão cedo ele não come carne humana".

b)O motivo:

Torpe.

Cachorrão ordenou: "Psssst, bicho. Leva essa roupagem de cama à lavanderia. Rápido!".

Pará contra-argumentou: "O senhor queira me desculpar. Mas estou cagando mole e solenemente para sua voz de comando".

Cachorrão bateu o martelo: "Caga-pau? Então escuta aí: quero você às 8 (oito) atrás do almoxarifado".

Por capricho do destino, Cachorrão viria a ficar repe, juntar-se aos meia-meia e consagrar-se como goleiro, titular absoluto de uma turma do cu da reta do listão na temporada 67.

Eu mesmo tive uma oportunidade de balançar-lhe o barbante, após receber passe mamão-com-açúcar do canhotinho Carvalhosa.

Foi um chocolate memorável. Listão do Kaol 3(três). Listão do Listão 0(zero).

A comemoração se deu em ritmo de rebu. No epicentro do alojamento, o preca Alexandre Chaia Neto ergueu triunfalmente um pedaço de pau de propriedade desconhecida, no melhor estilo do Capitão Bellini.

Resumindo: o espaço atrás do almoxarifado se destinava ao exercício da democracia, e não a servir de abrigo à marginalidade ocasional.

Abandonei o projeto de esconder-me no local e fui encontrar respaldo num matagal, a caminho da futura Praça de Esportes.

Abri um clarão no capim-gordura e adentrei no mato.

A vegetação tinha 1 (um) metro de altura, raspava a linha da cintura. Isso me tranqüilizou. Em emergência, eu poderia cair de boca e sumir do cenário.

Infelizmente, fui logo obrigado a descartar essa possibilidade. A área estava encharcada, e o terreno apresentava tendência a afundamentos.

Com cuidado, caminhei pelo local, à procura de uma posição conveniente. Antes de cada passo, era necessário testar a consistência do terreno. Pisava com suavidade e depois ia aumentando a pressão até encontrar resistência suficiente para avançar. Submersões até 2(dois) dedos abaixo da bombacha eram toleradas. "A bota que se foda!", eu pensava. "O importante é zelar pelo meu futuro no seio das forças armadas".

A situação estava sob controle. Eu já tinha dado uns 10 (dez) passos, e a marca da lama não chegava ao pé do tornozelo.

De repente, na estrada próxima ao matagal, apareceu uma viatura. Vinha da futura Praça de Esportes, no rumo dos apeteós. Tinha a cor do manto de Nossa Senhora, e o berrante acelerado.

Assustado, dei-me uma contra-ordem emergencial e caí de boca.

Justamente naquele ponto os afundamentos do terreno deixavam de ser apenas uma tendência. Aquele era o marco inicial de um majestoso atoleiro.

Caí de boca. Ao afundar as mãos no brejo, respingos de lama vieram alojar-se no décimo uniforme, adornando-o com diversas tonalidades de café.

Só então me ocorreu uma dolorosa lembrança: ao contrário do Seiko do bem-montado precadete Storino, meu relógio Cyma de trinta dinheiros não era vacinado contra água.

No reflexo, tirei rápido as mãos e mergulhei os cotovelos.

Qualquer criança de colo sabe que a)cotovelos afundam mais rapidamente que as mãos e b)se for desconsiderado o ante-braço, o braço fica mais curto.

Embora já tendo conhecimento desses fundamentos, optei pela preservação do Cyma de trinta dinheiros.

Enquanto a viatura se afastava, os cotovelos submergiam à velocidade de 2 cm por segundo.

Em pouco tempo a lama passou a tangenciar todo o tórax, transformando os respingos de múltiplas tonalidades numa cagada única, contínua.

Fiquei emocionalmente desestabilizado. Levantei-me puto com as circunstâncias. Bafejei os impropérios cabíveis até reencontrar o ponto de equilíbrio.

Fiz uma avaliação geral da situação, sob um enfoque mais realista.

De fato, eu me sentia um arremedo de precadete em forma de sapo-do-brejo.

Mas essa situação, aparentemente calamitosa, abria amplas perspectivas para o fim a que me destinava.

Agora, já não era apenas um soldado em busca da camuflagem perfeita no meio de um atoleiro.

Eu era o próprio atoleiro.

Ali, no coração do brejo, estaria a salvo de quaisquer nabas que circulassem ao nível do solo.

Acabaram-se as preocupações. Aquele seria meu habitat até o fim da tarde. Mais tarde, devolveria o mosquetão na forma da lei e me reinseriria no contexto normal do Corpo de Precadetes.

Preparei um colchão de capim, acomodei carinhosamente o mosquetão e deitei no seu través, fazendo-o de travesseiro.

Olhando para o céu de anil barbacenense, dei uma respirada de fim de suga à la Castello e recuperei a tranqüilidade absoluta.

Virei 90 graus à direita. O ombro afundou um pouco mas logo estabilizou. Morguei.

Algum tempo depois, o mundo pareceu desabar. Dessa vez a culpa não foi da lingüiça.

Um T-6 rasgou o espaço aéreo da escola e iniciou uma série de vôos rasantes.

Seu trajeto passava na vertical de meu bunker.

Joner 66-003

 Reminiscências XXIV - "Quede a Muié?" (Parte 7)

Da era BQ, o sumiço do mosquetão veio a se constituir um dos inexplicáveis mistérios, qualquer que seja o sentido do termo.

O soldado, a quem interroguei com alguma ênfase, declarou jamais havê-lo visto. Ninguém mais viu. Mas ele - o mosquetão - reapareceu incólume no depósito de material bélico.

Nunca me foi dado saber como lhe foi possível ausentar-se da enfermaria, atravessar corredores infestados de águias-sem-asa, galgar os píncaros do Jardim de Alah e reocupar seu posto junto aos semelhantes sem levantar um pentelhésimo mol de poeira. Nem os mais irretocáveis vôos instrumentalizados protagonizados por Olímpio, o "Dente-de-Sabre", se aproximaram tanto da perfeição.

Na enfermaria, jazi dois dias internado sob atenta observação médica. Não foram detectadas anomalias neuro-vegetativas de boa monta, que justificassem o carimbo "INAPTO PARA OS FINS A QUE SE DESTINA". Também não me alcançaram os tentáculos predatórios dos papácus platinados. Baixado, o ensaísta gozava de imunidade anti-rola, fundamental para dar prosseguimento ao projeto de galgar as estrelas.

Mas houve prejuízos.

Estando em pré-coma pós-tombamento, fui automaticamente excluído do rancho da noite. Lamentei o fato, somente no que toca à sobremesa.

O taifeiro "Barra Limpa", informante da comunidade golpista infiltrado no âmbito da cozinha, me havia confidenciado - na boca pequena - que estavam programados verdejantes abacates em caldas mis, que soíam apetecer-me sobremaneira.

Já as iguarias do prato principal não atravessavam boa fase. Na semana anterior, havia eu cometido a desfaçatez de respirar à frente do panelão de ovo frito. O aroma ali captado deixou-me marcas inolvidáveis, somente comparáveis às causadas pelos bombásticos coquetéis "Molotov" e pelas indefectíveis rajadas bafônicas bolzanianas.

Também perdi na área cinematográfica. Era dia da segunda reapresentação do "O Expresso de Von Ryan", película americana estrelada por um jovem ator chamado Frank.

Obviamente não me refiro aqui ao famoso gaúcho porém macho Franke’, intelectual golpista de casaca cujo perfil psicológico atípico foi objeto de curiosidade do saudoso Brigadeiro Camarão e que, nos intervalos, atuava como coadjuvante do não menos gaúcho porém macho, um pouco menos golpista e igualmente intelectual Pardal. O incógnito Frank do filme portava, em seu desbotado passaporte, o nome de família de um tal Sinatra.

Causou-me puta espécie perder o filme, já que do enredo constavam fantasiosos golpes de soldados americanos em linhas nazistas. Mesmo sendo deslavado mistério, o tema era à época encarado como "lição de vida".

Cogitei dar uma pequena escapada durante a projeção, mas faltavam-me o domínio do "modus faciendis" e, sobretudo, culhões.

Vale destacar que, até então, VI de enfermaria era como viagem à lua: apenas um sonho.

A humanidade só viria a conhecer essa modalidade de operação ao apagar das luzes de 68, quando o "Dente de Sabre" empreendeu uma pioneira tentativa mal sucedida. Pagou o preço do pioneirismo. Foi convidado a piruar desligamento, mas abriu caminho para o desenvolvimento de novas tecnologias.

O maior dos prejuízos, entretanto, começou na quinta-feira seguinte, e transcendeu ao tempo em que estive baixado. Foi uma espécie de terrorismo psicológico, veiculado por bizus de fontes múltiplas envolvendo o caçador Thomé, e que ajudaram a fixar o atributo da onipresença à imagem do predador.

Dos tais bizus, permaneceu a seguinte interpretação da versão resultante de todas as versões circulantes:

Abre bizu:

"Quando o corneteiro bafejou o comando para início da marcha, o Ten. Av. Thomé abandonou a tropa e dirigiu-se ao estacionamento localizado atrás do rancho dos oficiais.

Lá, adentrou num veículo - possivelmente mas não necessariamente de sua propriedade - e, com ele, tomou o rumo do Aeroporto Internacional de BQ.

No aeroporto, estacionou o veículo. Dirigiu-se à sala de controle. Preencheu o Plano de Vôo e ultimou instruções ao controlador de vôo - nenhuma das fontes conseguiu captar o teor, já que a comunicação foi na boca miúda.

Meteu o macacão de vôo e cravou o capacete - ambos possivelmente mas não necessariamente de sua propriedade. Dirigiu-se a uma aeronave T-6 estacionada na posição 1 (um) do pátio.

Dispensou os procedimentos prescritos de inspeção pré-vôo. Esse detalhe quase comprometeu a credibilidade do bizu já que o tenente, em sua fase pós-aluno, era rigoroso no cumprimento de qualquer tipo de regulamento.

Para remendar o furo, o bizu especulou que a aeronave já teria sido previamente vistoriada, testada, e dada como apta para a missão, dispensando-se quaisquer firulas protocolares.

Por três longas vezes, tentou dar partida. O motor empacou.

Ficou puto. Preparou-se para ejetar uma mijada de alerta, mas não foi necessário. O sargento mantenedor aproximou-se pela retaguarda e tranqüilizou:

-Pode deixar, tenente. Ele pega no macete.

Isto posto, segurou as duas pás da hélice e fê-la girar.

O macete preconizado exigia paciência. O motor só veio a aquiescer lá pela quinta tentativa, quando o sargento já estendia sua gravata vermelha além dos limites da boca, e o tenente ameaçava sacar da caneta.

Uma espessa nuvem de fumaça cobriu a aeronave. Impassível, o tenente deu manete e a conduziu à posição 2 (dois), situada nas imediações da pista em uso.

Passou batido pela posição 2. Tinha pressa. Tomou a cabeceira e decolou.

Ainda na ascendente, direcionou a proa à E.P.C.A R.

Chegando à vertical do Pátio da Bandeira, cedeu suavemente o manche, para desembarrigar e nivelar a aeronave em altitude próxima aos 2.500 pés. Ato contínuo, desacelerou a manete e, com a convicção própria de um falcão peregrino, deu por iniciado o processo de auscultação do cenário.

Logo na primeira passada, seu instinto predador captou anomalias ao nível do solo: um subpelotão de 3 (três) ou 4 (quatro) precadetes coçando os bagos no morrinho da caixa d’água.

Guinou 360 (três meia zero) graus à direita, para refazer o trajeto com o foco exclusivamente no alvo. Era meticuloso na avaliação da caça.

Na segunda passada, deu "zoom" na imagem, e captou importantes detalhes:

Eram só 3 (três) os meliantes. Estavam estreitamente agrupados em torno de um livro - possivelmente mas não necessariamente de Desenho Técnico, a julgar pela cavalar espessura do calhamaço. Exerciam cumulativamente as funções de golpista e encornador.

Embora lhe parecesse um fato incomum - já que a faixa de interseção dos subconjuntos de golpistas e de encornadores era estreitíssima - havia certa lógica na imagem: encornadores estariam eventualmente golpeando a marcha para melhorarem suas performances estanínicas.

Tendo somente o céu por testemunha, o fechadíssimo Thomé escancararia um sorriso tão aberto quanto o mais aberto sorriso do mais aberto bichíssimo de meia oito. A causa era nobre. A missão já tinha alvo.

Mas sua fome era voraz. Tinha que raspar o prato.

Fez agora uma curva à esquerda e reinvadiu o espaço aéreo da escola em trajetória perpendicular à anterior. Era sua intenção passar pente fino cobrindo toda a área intra-muros.

Mais uma anomalia foi detectada na litosfera: uma mancha solitária, da cor do manto de Nossa Senhora, morgava voluptuosamente sobre a relva úmida nas imediações do almoxarifado.

Dessa vez, não havia lógica capaz de sustentar a rebordosa: golpe na marcha para dormir na lama era coisa que ultrapassava sua capacidade de cognição.

Mas isso era problema do padre Mauro, não da aviação de caça. Seu negócio era identificar o golpe e passar o cerol na marginalidade.

Com o rádio sintonizado na freqüência do aeroporto, chamou:

-Torre Aeroporto Internacional de BQ, Papa Papa XYZ.

Respondeu o controlador:

-XYZ, Aeroporto Internacional de BQ na escuta.

Tenente:

-XYZ vertical E.P.C.A.R., missão W, 3(três) c.d.f. morro caixa d’água mais 1(um) maluco mato imediações almoxarife.

Controlador:

-XYZ afirmativo. Contato comando local missão W em andamento.

Encerrado o papo rádio, o controlador hard-finger pegou um telefone e repassou à escola todas as informações captadas do T-6.

Um outro oficial possivelmente abandonaria a área e daria por encerrada sua parte na missão. Não Thomé.

O insaciável tenente precisava retocar a maquiagem com um trabalho à altura de sua habilidade. Precisava manter os meliantes em seus postos de transgressão até a chegada do comando de terra para surpreendê-los de calça arriada.

Com esse propósito, deu nova guinada à esquerda e, com o manche picado no limite, voltou a entrar na escola."

Joner 66-003