Reminiscências XX  - "Quede a Muié?" (Parte 3)

A imagem de Thomé já gozava status de semideus quando passou a circular, no seio do precadetal, o bizu de sua maior façanha.

Bizu é força de expressão. Na verdade, eram diversos bizus.

Melhor dizendo: eram diversas versões de um mesmo bizu.

Este modesto ensaísta se propõe a divulgar a versão final que prevaleceu em suas memórias. Vale ressaltar que os limites entre ficção e realidade são muito bem definidos: eles não existem.

Viajemos no tempo. Estamos numa quarta-feira gorda, às vésperas da mega-operação Cabangu/68.

A marcha semanal prometia ser uma sugatória psicofísica cavalar. Constavam do cardápio:

a)Caminhada de 20 km morro acima e ribanceira abaixo;

b)Transporte de meia tonelada de mochila em lombo próprio;

c)Transporte lateral de 4,3 kg de mosquetão e 800 gr de cantil sem cachaça;

d)Simulações de combate, com ênfase no corpo-a-corpo macho-a-macho;

e)Repouso na relva ao som da poética voz do Sargento Abdalla, interpretando os incisos do Regulamento de Continência;

f)Preleção sobre táticas de guerrilha, sob supervisão do Cap. Machado, conselheiro técnico anti-vermelho à época cedido à F.A.B. pelo exército nacional brasileiro.

O saco médio do pessoal do terceiro ano andava em franco declínio. À medida que se aproximava o fim da era BQ, engrossava o contingente de cocebas avessos às atividades sugatórias. Àquela altura do ano letivo, o negócio de cavar trincheiras, montar acampamento e baixar a porrada com os pés no chão se tornava profundamente brochante. Já sonhávamos cavalgar nossos pássaros de aço e, em vôos rasantes, despejar bombinhas altaneiras em inimigos provenientes de não sei onde.

13h10. No Pátio da Bandeira, o corneteiro bafejou o comando de partida. Silenciosamente, o Corpo de Precadetes iniciou seu deslocamento rumo ao infinito, via Portão da Guarda.

Quando passava ao lado dos H-8, surgiram as primeiras baixas. Um subpelotão de quatro ou cinco sem-saco deu uma guinada à direita e embrenhou-se nos apartamentos mais próximos.

A tropa absorveu o prejuízo sem perder o élan. Rapidamente, companheiros sobreviventes taparam os buracos e a marcha seguiu com a formação intacta.

De meu posto de observação no interior da tropa, pude testemunhar a escapatória com um misto de satisfação e inveja. Satisfação pelo sucesso da manobra e inveja por não estar entre os prófugos. Pela minha cabeça, cheia de merda infanto-juvenil, se passou o seguinte: "esses intrépidos e valorosos rapazes ganharam o direito de coçar os bagos por toda a tarde, numa ação caracterizada pela criatividade, ousadia e absoluta falta de saco. Por que eu não tive o bom senso de pensar nisso antes?"

Antes de haver completado 100 m de deslocamento, eu já sentia o martírio daquela empreitada. A corda que prendia a mochila aos demais apetrechos dava sinais de fadiga. Volta e meia, a parafernália bélica deslizava sobre o lombo, alterando perigosamente o centro de gravidade. Com um sutil movimento de ombros, eu restabelecia o equilíbrio e quebrava o galho.

Com o balanço natural do corpo em movimento, o problema voltava em alguns segundos. A mochila pendia para o outro lado, e a corda afrouxava ainda mais, deformando o arcabouço.

Com o tempo, já não bastavam golpes de ombro. Para manter o material unido e equilibrado, eu tinha que marchar entortado e pisar no solo com a suavidade de uma bicha.

Para os rigorosos padrões da Força Aérea - àquela época - essa postura era, no mínimo, inadequada.

À retaguarda, minha imagem insólita foi captada por atentos observadores. Alguns esparsos sussurros, acompanhados de risinhos emputecentes, me chegavam aos ouvidos. Eram como pequenos "jabs" de Eder Jofre: não derrubavam, mas minavam a resistência do indivíduo.

Não me desagradava a idéia de criar situações cômicas aos olhos da rapaziada. Mas, naquele caso específico, a comédia era uma tragédia. Eu não queria ser engraçado. Muito menos ridículo, alvo de chacota das hienas. Aquela situação estava cada vez mais fora de controle. Eu me sentia profundamente desconfortável.

Os risinhos ditos emputecentes começaram a dar lugar a comentários mais contundentes. Era como se o "Galinho de Ouro" começasse a alternar seus "jabs" de esquerda com potentes golpes de direita.

Alguém, com sotaque paulista, golpeou abaixo da linha da cintura:

-Arrego aí, Zero Três. Essa merda vai cair!

Minha primeira reação foi a de conferir o comentário.

Discretamente, dei uma olhada à altura do cotovelo esquerdo. Era por ali que uma das estacas de fixação da barraca ameaçava se soltar. Pelo meu sofisticado sistema de amarração, ela exercia papel importante na integridade do conjunto. Se caísse, levaria consigo toda a parafernália bélica lombar, como se fosse um castelo de cartas. Pelo ritmo dos acontecimentos, o desmonte se daria em algum instante antes da chegada ao Portão da Guarda.

Fui obrigado a reconhecer: o comentário que vinha de trás era procedente.

Por outro lado, pareceu-me uma puta sacanagem fazê-lo ostensivamente e em voz alta, chamando as atenções para a minha pessoa, em momento de calça arriada.

Perdi a classe e dei meu lance, aos berros:

-Tem algum babaca bostejando aí no fundo?

Pior a emenda que o soneto. Meu berro só fez aumentar a curiosidade em torno de minha imagem.

Pipocaram gargalhadas de todas as direções.

O que era desconfortável tornou-se insuportável. Eu me sentia um palhaço sem causa. E pressentia que, a qualquer momento, algum oficial poderia notar a zona e me aplicar uma chave de rola.

Era sinuca de bico prá zero cinco nenhum botar defeito.

Quando a tropa virou à esquerda para alcançar a frente da Escola, intuí que era chegada a oportunidade: evacuei pela ribanceira à direita, em direção à lavanderia. Para sorte minha, as hienas bostejantes iam virando à esquerda, ficando de costas para mim. Isso me poupou vexames adicionais.

Caminhei lentamente pela ribanceira, brigando comigo mesmo para aparentar tranqüilidade. Depois, dei uma meia acelerada no sentido transversal, a fim de sair logo da zona de perigo. Acidentalmente, raspei um obstáculo e, com isso, nosso grupo se dividiu em dois: estacas, cordas e lonas se soltaram e ficaram no meio do caminho; ensaísta, mosquetão e cantil continuaram a descida em rolamento.

Não havendo mais aonde descer, meu subgrupo parou, no pé da ribanceira. Eu estava preocupado. Não podia ser visto. Minha situação era uma prova irrefutável de inaptidão para os fins a que me destinava.

Levantei e olhei ao redor. À distância, havia um sentinela. Acenei-lhe com firmeza e lancei-lhe olhar de superioridade. Ele respondeu com uma enfática continência, deixando claro que não captou absolutamente porra nenhuma.

Na estrada acima, já passava o pessoal de 67 e 68. Somente eles poderiam ter testemunhado a derrubada.

Raciocinei:

a)Somente algum 67 e/ou 68 poderia(m) ter-me visto;

b)Todos os 67 e 68 são bichos:

c)Bichos não são considerados gente; logo,

d)Ninguém me viu.

Confiante, reagrupei os pertences. Fiz uma amarração de emergência e evacuei em direção ao apeteó.

Lá, escondi o material amarrado, para evitar eventuais especulações. Saí à procura dos valorosos sem-saco que escaparam na primeira leva. Eu pretendia compartilhar com eles o prazer de coçar os culhões em grupo.

Procurei nas adjacências. Não havia viva alma. Desisti. Pareceu-me temerário circular pela Escola. Sempre havia o risco de cruzar com algum papácu desgarrado.

Retornei ao apetê. Adentrei no quarto e deixei o esqueleto cair intuitivamente sobre a cama do saudoso 66-086 Marne. Era a mais próxima da janela.

Dei uma respirada de relaxamento e iniciei o processo de contagem dos carneiros. Antes do décimo animal pular a cerca, entrei em estado de pré-coma.

O feijão com lingüiça servido no rancho fez efeito. Tive um pesadelo de respeito. Acordei assustado e levantei para cuspir. Nesse instante, ouvi alguém abrir a porta da sala de estudos e entrar no estabelecimento.

Peguei rápido o mosquetão, pulei a janela e evacuei pelos fundos.

Depois eu conto onde o Ten. Thomé entra na história.

Joner 66-003