Reminiscências XIX  - "Quede a Muié?" (Parte 2)

Recapitulando.

Eram 21h10 de uma fria noite de 1968, na estação rodoviária de São João del Rey.

Não havia mais ônibus disponíveis para BQ. O último acabara de sair, botando gente pelo ladrão. Na estação, uma rebordosa de camofos "sem-transporte" cuspiam palavrões de todos os calibres e em todas as direções. Abundava o clima de agitação.

Apesar de estarmos também a pé e, portanto, identificados com a causa do camofal, evitamos aderir ao movimento. Pertencíamos à elite da Força Aérea Brasileira e não podíamos ser confundidos com agitadores. Aquele não era nosso lugar e aquela não era nossa hora.

Abandonamos a área de conflito e saímos em busca de uma solução criativa para nossa sinuca de bico.

A meta era chegar a Barbacena. O ideal era fazê-lo com segurança, contornando obstáculos e preservando os assentamentos. O primeiro passo para galgarmos meta e ideal com uma única paulada era conseguir uma carona providencial, na boca da rodovia .

Partimos.

Para espantar o frio, imprimimos um ritmo de marcha acelerado, com passos-de-ganso acentuados por fortes porradas no asfalto, enquanto entoávamos os hinos do Aviador e da Escola, alternando-os com canções da época. Depois, baixamos um pouco o nível, e passamos a recitar pequenas preciosidades literárias retiradas de portas de banheiro. Entre as mais cotadas estavam as seguintes:

a)"Se o mar invadisse a terra / Com suas águas profundas / Barbacena não afundaria / Pois merda na afunda".

b)"Quando estou neste lugar / Me vem uma tristeza profunda / A merda bate na água / E a água respinga na bunda".

Essas babaquices varo-juvenis nos ajudaram a fazer passar o tempo e esquecer os rigores da noite que nos aguardava, mantendo um clima irresponsavelmente festivo.

Às 21h30, galgamos a cabeceira 09 (zero nove) da estrada SJ-BQ.

Posicionamo-nos ao lado de um barranco estratégico. Depositamos nossas maletas no chão e aguardamos a chegada da providência.

A estrada estava deserta e adormecida. Não passava um cavalo sobre rodas. A temperatura continuava em mergulho. Já rondava os 12 degraus.

Para descontrair a musculatura, quebramos alguns palitos de fósforo e promovemos um torneio triangular de porrinha com diversas rodadas, turnos e returnos.

Assim permanecemos durante uma hora.

Nenhum fato relevante aconteceu naquele cenário desolador, gelado e cheio de desesperança, até às 22h30.

Nesse preciso momento vislumbramos, a uma distância de 2 (duas) piscinas do barranco, a silhueta de uma bela mulher vestida de negro...

O impacto dessa imagem nos fez esquecer, por um algum tempo, a meta o ideal e o diabo a quatro. Também esquecemos que, se confirmado o bizu circulante, àquela hora já teria ocorrido, lá na Escola, a revista-surpresa comandada pelo Ten. Thomé. Nossos números já estariam registrados numa possível lista enrabatória.

Por falar em Thomé, permitam-me os leitores interromper um pouco a história da dama de negro, para concluir meu desabafo sobre a naba da formatura.

O ensaísta estava em bundas.

Com exceção dos alunos baixados enfermaria e dos que possuíam algum salvo-conduto especial, todos os refratários-golpistas haviam seguido para o Pátio da Bandeira, temerosos da blitz predatória anunciada.

Eu era o único que ainda não havia saído da linha de fogo.

Nem poderia fazê-lo, dada a lamentável situação em que se encontrava o uniforme.

O borzeguim tinha pane de graxa, a fivela do cinto carecia de um banho de kaol e a camisa precisava de um bom trabalho de funilaria.

Como se isto não bastasse, alguns fiapos de pêlo - orgulhosamente chamados de barba - haviam sobrevivido à última passagem de gilete, na semana anterior.

Nessas condições, freqüentar a vitrine de uma formatura seria, no mínimo, um ato de irresponsabilidade contra a própria pessoa.

Por outro lado, o Oficial-de-Dia era o caçador Thomé. Ele já havia preconizado que aquele seria um serviço de rédea curta.

Mesmo em atraso, decidi dar uma guaribada rápida nas não-conformidades e juntar-me à tropa, de forma a também livrar o meu.

Fiz tudo em 5 (cinco) minutos. Troquei a camisa, borrifei kaol no cinto e piruei um novo borzeguim no armário de um desavisado sócio circunstancial.

Depois, voei para a formatura. Tomei o corredor frontal ao alojamento, fiz uma curva de 90 graus à esquerda, - bastante glissada, já que o assoalho era bem encerado e o borzeguim tinha sola de couro - resvalei na parede e fui em frente, até desembocar no Pátio da Bandeira, na saída próxima ao laboratório de Química.

Mal alcancei o pátio, a corneta do Cabo Murillo - que posteriormente viria a se consagrar na patente de Terceiro Sargento - emitiu um seco "sol agudo", indicativo de que o Corpo de Alunos já estava formado - coberto e alinhado.

Para não ser surpreendido em atraso, fui obrigado a arremeter e tentar uma aterrissagem de emergência com vento de través. Retomei o corredor e virei à esquerda. Passei batido pelo depósito de material bélico, saí pela frente da Escola, tomei o pátio frontal ao laboratório de línguas - local onde o Precadete Ratão fez seus primeiros "approaches" com a mestra "Sweet Hellen"- e me entrincheirei no prédio de comando do CA, atrás da tropa.

Dei algumas respiradas até recuperar o fôlego. Depois, botei respeitosamente a cabeça prá fora e chamei:

-Pssst!

Ninguém se mexeu. Todo o C.A. estava em rigorosa posição de sentido e sob observação do predador em serviço.

Voltei a me esconder na trincheira. Ao ouvir o toque de descansar, recoloquei a cabeça de fora e chamei, mais enfaticamente:

-PSSSSSST!

Alguns companheiros da fileira mais próxima se mexeram discretamente, dando a entender que captaram o chamamento. Eu me mantive com a cabeça arregaçada, aguardando uma mensagem de retorno. Alguns instantes depois, o Aluno 66-015 Bolzan moveu, lenta e cautelosamente, seu periscópio 90 graus à esquerda e me alcançou, com o rabo do olho. Sussurrou:

-Que é que é?

Falei, tão baixo quanto possível:

-Barra limpa?

Respondeu:

-Peraí!

Senti firmeza. Recolhi o cabeção e aguardei novas instruções.

Alguns segundos depois, chegou-me a voz sussurrante do mestre Bolzan:

-Pssst! Agora, rápido!

Devidamente monitorado, evacuei a trincheira e me introduzi no chamado cu da reta da primeira esquadrilha. Para minha satisfação, o predador estava distraído no centro do pátio, conversando com algumas autoridades. Assumi rigorosa posição de "Descansar" e afrouxei as pregas do aparato de "output".

Nunca soube como fui descoberto. Em avaliação posterior, duas hipóteses prevaleceram sobre as outras, a saber:

Hipótese 1 - O predador seria superdotado. Teria visão frontal, lateral e posterior. O diabo em forma de Primeiro Tenente. Adivinharia até pensamento.

Hipótese 2 - Meu erro teria sido entrar no cu da reta, região da tropa reservada aos pintores de rodapé, ao pessoal de metro e meio. Com 1,78 m, já descontada a altura do bibico, eu teria destoado como um eucalipto no meio do laranjal. Qualquer oficial um pouco mais atento que o Cap. Kurka notaria a anomalia congênita.

Fato é que o saudoso Thomé interrompeu a conferência com as autoridades, dirigiu-se à tropa e liberou sua implacável voz de soprano na direção do pessoal do segundo ano:

-Depois, apresente-se ao Aluno-de-Dia e dê o número!!

A ordem era impessoal. O sujeito da oração não tinha nome nem número. Poderia ser qualquer um, não necessariamente o ensaísta. O tenente possivelmente estaria atirando no escuro, aplicando um blefe ao estilo de Pedro Paulo que, nas noitadas de pôquer, costumava levar respeitáveis nacos de meu soldo com um reles par de sete.

Pensei seriamente em ficar atrás do toco, em pagar para ver. Mas eu nunca fui bom nisso. Nas poucas vezes em que depositei minhas fichas para ver as cartas de Pedro Paulo, meu numerário ficou no osso.

Assumi minha responsabilidade: terminada a formatura, apresentei-me ao Aluno-de-Dia. Depois, fui convocado para audiência e engoli a mandioca que me era de direito.

A partir desse evento, a imagem de Thomé começou a assumir proporções gigantescas em minhas reminiscências. Até transformar-se em mito, com seu desaparecimento prematuro no ano seguinte.

Voltando à dama de negro...

Desculpem, mas tocou a campainha. Dessa vez, não me atrasarei.

Joner 66-003