Reminiscências
XVIII - "Quedê a Muié?" (Parte 1)
São João del Rey, domingo, segundo semestre de 1968.
Caso ninguém mais se acuse, éramos somente os mesmos:
Olímpio, Morresi e o ensaísta.
O relógio da igreja matriz badalou 21h00.
Estava frio. A temperatura externa passava, na descendente,
pelos 15 (quinze) graus. Centígrados, naturalmente.
Reunimo-nos na estação rodoviária e avaliamos a situação em
que nos encontrávamos: sem lenço e sem documento.
Tal como dizia a composição musical de um emergente baiano
meio maluco, de longos cabelos encaracolados, visto com certa desconfiança
pelos mais desconfiados.
Deveríamos chegar à EPCAR até às 21h30. Segundo bizu
corrente, o saudoso Tenente Aviador Thomé comandaria rigorosa revista-surpresa
para pegar retardatários na volta do licenciamento.
Era-nos matematicamente impossível chegar a tempo. Portanto,
contabilizamos o atraso como fato consumado.
O Ten. Av. Thomé
foi o mais sagaz dos sagazes oficiais predadores do triênio 66/68. Tinha olhos
de lince, faro de cão treinado, memória de elefante. Conhecia todos os meandros
de uma transgressão disciplinar.
Some-se a isso um tesão mórbido, quase doentio, por
descobrir operações irregulares, canetar os números dos faltosos e decretar as
penalidades julgadas cabíveis.
Sua voz, aguda como a de uma "prima donna" do
floral, contrastava com o porte físico avantajado e a fisionomia sisuda. Quando
anunciava uma punição, o tom de soprano soava aos ouvidos do transgressor como
o de contrabaixo padrão Pinto Machado.
Segundo informações que circulavam na boca miúda, sua
habilidade predatória provinha de experiência prática. Quando aluno da Escola,
teria sido um dos mais atuantes golpistas de sua década. Ao fazer-se oficial,
vestiu a camisa do regulamento disciplinar e colocou o know-how a serviço da
nova causa.
Esse bizu, seja falso ou verdadeiro, ajudou a forjar o mito
Thomé, respeitado e temido por todos aqueles que, vez por outra, deslizavam na
maionese.
Mais por cagaço que por respeito, eu fugia dele. Fazia-o
obstinadamente, tal como a lebre foge do lince.
Mas não admitia isso publicamente. Àquela época, seria uma
temeridade reconhecer que a palavra medo constava do dicionário.
Inspirado em argumentação de Vil(cek) - um de meus gurus
intelectuais da era BQ - eu desenvolvia um raciocínio tortuoso para explicar as
relações com autoridades nabáticas.
Dizia eu que nenhum dos oficiais predadores - especialmente
os saudosos Ten. Thomé e Cap. Sampaio - me assustavam. Eles me eram apenas
"personas non gratas". Somente por essa razão eu os evitava. Assim,
exemplificava eu diante de colegas descrentes e gargalhantes: quando algum dos
dois adentrava em locais freqüentados pela minha pessoa, eu saía imediatamente,
para "evitar aborrecimentos". Quando não havia possibilidade de sair,
eu me escondia atrás de alguma bucha-de-canhão. Não era por medo. Era para
"expressar minha repulsa".
Acho que Thomé não chegou sequer a saber de minha
existência. Seu tesão mórbido era impessoal. Nada contra um específispan style='font-size:10.0pt;font-family:Arial;mso-bidi-font-family:
"Times New Roman"'>Acho que Thomé não chegou sequer a saber de minha
existência. Seu tesão mórbido era impessoal. Nada contra um específico
subnitrato de cocô de cavalo de bandido. Sua caça era qualquer aluno que
pisasse no tomate, qualquer que fosse a etiqueta adesiva: kaol, listão, floral,
cdf, caga-pau, safo, desmacete, repe, coceba.
De minha parte, não posso dizer o mesmo. Eu tinha pleno
conhecimento de sua existência. E por mais paradoxal que possa parecer, ele era
simultaneamente meu algoz e paradigma.
Eu imaginava que o primeiro passo para ser um oficial
aviador com a sagacidade de Thomé era ser tão bom golpista quanto ele teria
sido. Se possível, estar entre os melhores da década...
Por isso, eu tinha também algum tesão psicótico em escapar
de suas garras. O prazer de aplicar-lhe um by-pass era diretamente proporcional
ao risco de tomar bola nas costas.
Nossos caminhos se cruzaram algumas vezes, sobretudo nos
anos de 1967 e 1968.
Nesses confrontos, só havia dois resultados possíveis:
empate - quando eu sobrevivia à investida da fera e mantinha a ficha
disciplinar sem alterações - e derrota - quando era abocanhado e a ficha
ganhava parágrafos adicionais.
Meu cagaço-cautela de Thomé se intensificou a partir da
primeira vez em que fui alcançado pelo seu tacape, no início de 1967.
O prejuízo nos assentamentos foi uma naba relativamente
pequena: 2 (dois) dias de detenção ou 2 D, na linguagem técnica-burocrática do boletim.
Mas, para a circunstância em que ela foi introduzida,
pareceu-me quilométrica.
Senão, vejamos:
Atuava o tenente como oficial em serviço junto ao Corpo de
Alunos.
No Pátio da Bandeira, minutos antes da formatura pré-rancho
de meio-dia, ele chamou o Aluno-de-Dia e passou-lhe uma informação sui generis:
durante aquele serviço, haveria pressão máxima no torniquete. Fumo de rola para
quem pisar fora do regulamento.
Preocupado em salvar o seu, e zeloso em proteger sua prole,
o Aluno-de-Dia correu ao alojamento. Em lá chegando, atravessou a porta e
gritou, para algumas dezenas de semelhantes:
-Atenção aí, alojameeeiiiiinto. Vamos todos comparecer à
formatura. As presenças deverão ser checadas. Vou repetir: checadas!!
Fez uma breve pausa para ganhar fôlego e lançou o bordão de
fechamento:
-Entendido aí no fundo?
A platéia era composta de duas classes de alunos: os
retardatários - aqueles que momentaneamente estavam defasados - e os
refratários ou golpistas - aqueles que useira e vezeiramente se abstinham das
formalidades militares.
Os retardatários não hesitaram. Sabiam exatamente o que
deveriam fazer para tirar os seus (deles) da reta. Sem quaisquer
contra-argumentações, abandonaram a postura slow-motion e picaram a mula em
direção ao Pátio da Bandeira. Afinal de contas, ninguém era de ferro.
No alojamento, restaram apenas uns três ou quatro
refratários.
A princípio, eles desconfiaram do chamamento e fustigaram o
Aluno-de-Dia. Gritaram, desordenadamente:
-Arrego aí, ô Lanceiro-de-Dia ! Lance! Vamos repetir:
lance!!
Indiferente à pressão psicológica refratária, o Aluno-de-Dia
(provavelmente um de nossos valorosos paulistas estilo Jão da Moóca, a julgar
pela atitude e pelo sotaque), fez meia-volta e também evacuou o recinto,
seguindo para o Pàtio da Bandeira.
Esse gesto soou como uma demonstração de firmeza. O recado
estava dado e ponto final.
Entre os abstinentes, a desconfiança inicial deu lugar a
certo pânico pré-rebu. Rapidamente, eles resolveram o seguinte:
a)Repassar a informação aos demais golpistas que estavam
espalhados pelos redutos-chave da escola - banheiro do próprio alojamento,
lavanderia, Jardim de Alah, enfermaria e boca do rancho;
b)Fazer uma reunião-relâmpago à porta do alojamento, com
todos os refratários presentes, para decidir sobre os rumos do movimento;
Enquanto esses fatos aconteciam, o modesto ensaísta se
encontrava na boca do rancho, à frente do pelotão de elite golpista, integrado
pelos seguintes companheiros, entre outros:
Bolzan, Olímpio, Ratão, Bundase, Zé Carioca, Catão, Alfredo,
Vil(cek), Vilarinho e Brandão.
De repente, o vidro da porta refletiu a imagem de um japonês
esbaforido, que descia a escada ao ritmo de três degraus por passada.
Aquilo não era normal. Nossos japoneses normalmente eram
calmos, comedidos. Só tocavam o rebu em casos de calamidade pública.
Estranhei o movimento e comuniquei à equipe:
-Atenção, pelotão! Acho que vem merda aí.
Obviamente, eu não estava me referindo à pessoa do
mensageiro, e sim ao provável conteúdo de sua mensagem.
O pelotão do rancho entrou em estado de alerta máximo,
enquanto aguardava a chegada do informante.
Finalmente surgiu, em carne e osso, o ofegante companheiro
Yukihiko Naka.
Diante da tropa curiosa, ele cravou os calcanhares e
ordenou:
-Todo o mundo lá prá cima. Rápido!!
Em se tratando de Naka, aquela ordem era, no mínimo,
atípica. Mesmo para os rigorosos padrões orientais, ele era considerado um
japonês barra-limpa: bom humor constante, grande flexibilidade operacional,
baixa velocidade de "stall". Nunca alterava o tom de voz. Nem quando
baixava a porrada nos adversários, ao ocupar a quarta zaga da equipe de futebol
de sua turma.
Mesmo sabendo que corria o risco de passar por inoportuno,
eu ainda arrisquei uma pergunta
-Que é que houve, Japão?
Ele limitou-se a falar por metáforas:
-Mulher de homem dormiu calcinha. Golpe fria.
Estava claro. Era de bom alvitre acatar seu comando.
Formados por 2 (dois) à sua retaguarda, subimos a escada que
levava ao alojamento em frenético passo de estrada.
À porta do alojamento, encontramo-nos com outros
refratários, provenientes dos demais rincões estratégicos da Escola. Eles
também tinham sido avisados da política de torniquete a ser implementada
durante aquele serviço.
O ambiente parecia uma assembléia geral das coisas ligadas
ao golpe. Elementos de todas as tendências estavam ali representados, a saber:
a)Proscritos - Não agraciados pela natureza com a aptidão
para a disciplina militar. Só se mantinham viáveis enquanto golpistas. Quando
tentavam seguir o regulamento, deixavam o rabo de fora e engoliam fumo de rola.
O golpe não lhes era opção. Era o único caminho para uma sobrevida fabiana.
Eram assíduos freqüentadores da boca do rancho e vorazes comedores de palmito e
piranhas de linha.
c)Moderados - Adotavam estilo de vida flexível. Alternavam
grandes golpes com grandes feitos dignos de elogio do alto comando. Gozavam de
bom conceito junto ao oficialato. Como golpistas, ocupavam o segundo e o
terceiro escalões. Eram ótimos piruadores de adjacências. Raramente conseguiam
abocanhar um naco de palmito.
d)Enquadrados - Fiéis seguidores do regulamento. Eram
declaradamente anti-golpistas, até mesmo quando davam golpe. Eram as maiores
vítimas das duas principais epidemias que acometiam os alunos-cocebas: a
síndrome da estafa psicossomática e o surto de unha encravada. Quando em golpe,
portavam sempre os seguintes documentos: Atestado de Dispensa Médica (ADM) e
Guia de Licenciamento (GL).
A assembléia foi rápida e objetiva. Afinal de contas, todos
estávamos irmanados pelo objetivo comum de preservar os assentamentos. Não
havia tempo para divagações.
Alguém assumiu o comando e falou:
-Pô, rapaziada! Quem faltar à formatura vai ter que cagar um
quilo certo. Sigam-me os que tiverem bom-senso!
Mal concluiu a frase, seguiu rapidamente para o Pátio da
Bandeira, levando consigo quase todo o esquadrão refratário. Permanecemos no
local apenas o modesto ensaísta e, salvo pane de memória, o 66-103 Aguiar,
também conhecido como Canecão.
Dirigi-me ao Canecão, curioso:
-Ué... Por que você não foi com eles?
Respondeu, apontando para o próprio pé:
-Desse jeito?
Tinha razão. O trem de pouso do companheiro não passaria em
nenhuma inspeção pré-decolagem. O pé direito portava sandália de dedo tipo
havaiana. O dedão estava envolto por uma gaze tingida de vermelho, sugerindo
haver sangramento.
Perguntei-lhe:
-Isso é sangue?
Respondeu:
-Não. É mercúrio cromo.
Examinei mais detidamente e não achei nenhuma lesão. Voltei
a perguntar:
-O que é que houve?
Respondeu:
-Não tá vendo? A unha tá encravada na carne.
Voltei a auscultar o pisante. Não havia absolutamente porra
nenhuma. Só então percebi sua intenção de simular uma pane para pousar em
emergência na enfermaria.
Aquela idéia me pareceu ser babaquice de alto risco, já que
qualquer médico com visão superior a zero perceberia a intenção de golpe.
Insisti no assunto:
-E se o doutor descobrir que o dedão não tem chongas?
-Eu explico prá ele que, além desse problema, eu estou
morrendo de frio. Acho que é febre.
Passei-lhe a mão na testa. Outro deslavado engodo. Com
aquela cara-de-pau, teria sido mais convincente alegar ser acometido de ataque
de cupim.
Mas o homem estava escorado. Acima da linha da cintura, sua
indumentária primava pelo exagero. Usava 2 (duas) camisetas, uma camisa, uma
japona e 2 (dois) cachecóis.
Com tamanho arsenal, ele certamente descolaria uma dispensa
por hipocondria generalizada.
Canecão seguiu para a enfermaria. Sozinho, eu tive a
consciência de que estava em bundas.
Aquela súbita convocação me pegou no contrapé.
Meu uniforme estava rigorosamente fora do padrão. Nessa
condição, eu não tinha a menor chance de passar incólume por qualquer oficial,
a uma distância menor que 200 m. Muito menos se o oficial fosse o
caçador-predador Thomé, em dia de puta mau humor provocado por provável
bandeira vermelha no campo de pouso da patroa.
Por outro lado, eu não podia faltar àquela formatura. Se o
fizesse estaria aceitando uma passivamente uma naba anunciada.
Decidi. Daria uma guaribada imediata nas partes vulneráveis
e me incorporaria à tropa.
Joner 66-003