Reminiscências XVII  - V.I. na Z.B.M. (Epílogo)

 

Alea jacta est.

O professor de História Geral gostava de citar essa eclética expressão latina, em suas sugas mentais pós-rancho de meio-dia. A acompanhá-la, vinha sempre a tradução: a sorte está lançada.

Para justificá-la, citava um fato histórico na visão de quem partia para o tudo ou nada: Queda da Bastilha, Invasão da Normandia, Tomada de Monte Castelo.

Nós, precadetes, preferíamos outra expressão também latina, não tão eclética, mas que melhor se adequava ao nosso dia-a-dia: bobeatus suntis inrabatus est.

Era auto-explicativa. Dispensava traduções.

Não se reportava a fatos históricos passados. Acompanhava-nos o tempo todo. Da Alvorada ao Silêncio. Do Silêncio à Alvorada.

Na Z.B.M. de São João, o Precadete Olímpio não podia se dar ao luxo de dispensar o ensinamento de nenhuma das duas expressões.

Seu momento demandava decisões arrojadas - alea jacta est - e precaução total - bobeatus suntis inrabatus est.

O cafetão Neném, acompanhado de um ajudante-de-ordens, observou que a janela do quarto da primeira-dama estava aberta.

Ambos ficaram de orelha em pé, desconfiados.

Como bons funcionários sabiam, de cor e salteado, o regulamento disciplinar da casa. Sabiam que, salvo em ocasiões especiais, as janelas daquele puteiro deveriam abraspas permanecer rigorosamente fechadas, garantindo-se a privacidade de clientes e profissionais do sexo. Fechaspas.

Correram para verificar se havia anormalidade no interior do quarto.

Enquanto isso, lá dentro, o Precadete 66-150 Olímpio voava do parapeito ao assoalho, raciocinando com a volúpia de quem fazia um teste psicotécnico na EPCAR. Só que, desta vez, não estava disputando apenas uma melhor posição no ranking classificatório: estava tentando salvar a própria pele e preservar, se possível, as funções vitais.

O bom garoto voava enquanto pensava. Pensava enquanto voava.

Essa frenética simbiose entre vôo e pensamento durou cinqüenta centésimos de segundo.

Ao tocar o solo, já havia analisado prós e contras das alternativas disponíveis, e tomado uma decisão consciente, circunstanciada.

Esconder-se em qualquer ponto do quarto não resolveria o problema.

Na melhor das hipóteses, render-lhe-ia sobrevida de meia hora.

Ao perceber que o capote do "trem doido" não mais jazia pendurado no cabide, Neném somaria 2 mais 2, tocaria o rebu no estabelecimento, fecharia todas as saídas e acabaria por encontrar o precadete com o rabo de fora.

Aplicar uma porrada-surpresa quando Neném assomasse à janela tinha apenas uma vantagem: o prazer da própria porrada.

Depois, a zona em peso lhe cairia em cima, transformando-o em cama-elástica descartável.

Sem dúvida, era a pior alternativa.

Entabular negociação de emergência com os cafetamofos também seria solução paliativa. Quando muito, lhe permitiria cozinhar o galo em banho-maria, com fogo baixo, para ganhar tempo à espera de um milagre.

O único milagre que conseguia vislumbrar era o socorro deste modesto ensaísta.

Esse não era um milagre de qualidade.

As únicas coisas que eu poderia fazer eram democratizar o objeto da porrada e aumentar a área de atuação das navalhas cafetamóficas.

Sobrou-lhe apenas a última alternativa, a que sempre quebrava o galho nos testes psicotécnicos: nenhuma das acima (N.R.A).

Neste caso, não era tão simples.

Não bastava cravar um "X" na opção letra (e) e remeter-se à questão seguinte.

Tinha que fazer alguma coisa. Implementar uma decisão.

Rápido, antes que Neném surgisse à janela.

Resolveu: sairia pela porta.

Quando seu raciocínio atingiu esse ponto, tocou o chão.

Aproveitando a velocidade da queda, caiu correndo. Saltou por cima da cama e chegou à porta. Meteu a mão na maçaneta, girou-a 90 graus para baixo e a abriu, enquanto olhava angustiado para a janela.

No exato momento em que abria a porta, percebeu um vulto orelhudo aparecer no parapeito. Jogou-se para fora do quarto, enquanto o vulto, embasbacado, perguntava:

-Uai, sor! Prá onde foi a madama?

Fechou a porta e viu-se no corredor intra-prostibular.

Podia tomar dois caminhos. À esquerda, conhecia muito bem o trajeto: o corredor o levaria à apinhada sala de rebu, passando à frente dos três primeiros quartos. À direita, o corredor o levaria aos fundos do estabelecimento, passando à frente de mais 2 (duas) dependências.

Suspendeu a gola do blusão, de forma a dificultar um possível reconhecimento, e optou por seguir à direita. Qualquer alternativa seria preferível à sala de rebu.

Passou pelo quinto quarto. Ouviu risos no interior. Continuou a caminhada. Chegou ao que supunha ser o sexto e último quarto. Parecia vazio. A porta estava entreaberta. Não resistiu à curiosidade e deu uma olhada. Constatou que era o banheiro coletivo da casa. Respirou bafo de merda com data vencida e saltou de volta ao corredor.

O banheiro era o último aposento da zona. Depois dele, havia uma pequena área descoberta, totalmente murada.

Analisou a oportunidade de saltar o muro para tentar a liberdade pelos fundos.

De repente, a porta do quarto ao lado se abriu. Assustado, entrou e trancou-se no interior do banheiro.

Permaneceu lá dentro em silêncio e sem respirar, na esperança da imediata liberação do corredor.

Inútil. Passos sugeriam que duas pessoas se aproximavam.

Ao chegarem diante do banheiro, uma delas falou para sua acompanhante:

-Uai, sôrr! O tualhete tá ocupado...

A acompanhante, solidária, tranqüilizou o parceiro:

-Não tem pobrema não, mô. Ieu ispero junto c’ocê.

Do lado de dentro, o garoto se sentia numa ilha de merda, cercada de cafetamofos por todos os lados. Estava a ponto de explodir.

Deu meia respirada, na ânsia de captar algum oxigênio. Injetou mais borra volátil nos pulmões e quase caiu para trás. Cambaleante, destravou o trinco e abriu a porta.

Passou aos tropeços no meio do camofal, largando atrás de si um rastro de gás em expansão.

Sem compreender o que se passara, o camofo entrou no banheiro e, ato contínuo, saltou para fora, gritando à parceira:

-Num dá não, mô. Aquele bêbado cagou tudo!!

Incontinente, Olímpio seguiu na direção da sala de rebu. Já estava de saco cheio com tanta pressão psicológica. A estratégia de cautela, baseada na filosofia do "Bobeatus Suntis Inrabatus Est" não estava dando resultados. Cada vez mais ele se afundava em obstáculos imprevistos, atrasando o cronograma de saída.

Cada minuto perdido ali dentro significava mais tempo para o staff do puteiro se reorganizar e pegá-lo de calça arriada.

Era hora de lançar a sorte.

Passou à frente de todos os quartos e chegou à sala de rebu.

O Maracanã estava botando gente pelo ladrão.

Fez uma varredura rápida.

Vislumbrou, num canto da sala, o cafetamofo Neném conversando com a primeira-dama. Ele parecia nervoso, a julgar pelos gestos ostensivos. O barulho de música frustrava qualquer pretensão de escutar o que falava. Possivelmente, estaria explicando - mas não justificando - como o capote do preiboi de merda tinha sumido do cabide.

Na porta de interface entre a sala de rebu e a varanda, havia um cafetamofo de orelhas compridas. Era o vulto que havia assomado à janela do quarto da primeira-dama. Parecia vigiar a área, à procura de um ainda desconhecido "ladrão de capote".

Com a gola do blusão hasteada a meio pescoço, Olímpio atravessou com dificuldade a apinhada sala de rebu, passando entre os casais.

À saída para a varanda, cruzou com o orelhudo.

Olhou-o nos olhos e, com segurança e convicção aparentes, disse-lhe alto e em bom som:

-Opa!!

O orelhudo sentiu firmeza. Respondeu ao cumprimento e voltou a vistoriar a área.

Chegou à varanda. Estava a oito metros da liberdade.

Pensou em tentar o sprint final. O bom-senso (ou cagaço) soprou-lhe ao pé do ouvido que suas chances seriam nenhuma.

Ao portão, vigiando a área externa da Z.B.M., estava o cafetão que havia ajudado Neném a acuá-lo no quarto da primeira-dama.

Com esse, o buraco seria mais embaixo. Não era como o orelhudo, que procurava por alguém sem ter ao menos visto um retrato falado. Este não só participara ativamente do confisco do blusão-de-vôo, como também ajudara a escoltar Olímpio à saída da zona.

Dentinho avançou em direção ao portão, mantendo a calma exterior.

Quando dava o terceiro passo, ouviu às costas:

-Pssst...

Gelou.

Entregar a rapadura agora seria como morrer afogado a 5 m da praia.

Por outro lado, um sprint nessa circunstância somente o levaria mais rápido ao colo do cafetão do portão.

Deu mais dois passos à frente, para confirmar o chamamento. Veio um barulho mais forte e ameaçador:

-PSSSSSSSSSSST...

Estava a três metros do portão.

De tão alta, essa nova convocação despertou a atenção do cafetão ao portão. Ele virou-se para trás e olhou ao interior do meretrício.

Olímpio sabia que, se fosse visto de frente, estaria no fim da linha.

Agindo mais por reflexo que por qualquer outra causa, virou-se também para trás e continuou andando - de costas - em direção ao portão.

O chamamento não era para ele. Era para um cliente que passara pelo orelhudo e vinha saindo da zona, atrás de Dentinho. Provavelmente o cafetorelha havia desconfiado dele.

Olímpio ia respirar aliviado. Não houve tempo. Já estava ao portão, de costas para seu último obstáculo. Disse-lhe, já botando o calcanhar na rua:

-Tá chamando lá dentro.

Pego na defensiva, o cafetão comentou:

-Num é comigo não.

Colocou o segundo calcanhar na calçada e, de soslaio, viu-se observado pelo interlocutor.

Fez "esquerda volver", mantendo-se de costas para o adversário.

Caminhou pela calçada, de ouvidos bem abertos para captar qualquer alteração no status quo.

Ganhou 15 m de afastamento do portão.

Escutou:

-Preiboi de Merda!!!

Esse foi seu último contato com aquela Z.B.M.

Ao ouvir o chamamento, deu a largada e fez sua melhor marca de 100 m rasos.

Só reduziu a velocidade ao dobrar a esquina, deparar-se com o modesto ensaísta, segurar-lhe o braço e falar:

-Vam-vambora rrrrrápido que dedeu merda!

Depois, ficou mais nervoso ainda e gritou:

-Pô pô porra ,Zzzero. To tocou o rebu !

No jargão epecariano, a expressão "tocar o rebu"...

Acho que já contei essa história.

Joner 66-003