Reminiscências
XVI - V.I. na Z.B.M. (Parte 2)
O Precadete 66-150 Olímpio estava pendurado na broxa.
Acabara de servir-se levianamente da primeira-dama do baixo
meretrício. Como se isso não bastasse, dispôs-se a remunerá-la com uma quantia
que, de tão irrisória, tornava-se obscena.
Agora, tinha diante de si uma mulher moralmente ofendida e
emocionalmente desestabilizada. Uma mulher que, entre um e outro impropério,
conjugava verbos desagradáveis como cortar, capar, castrar.
A seu lado, respaldando sua fala, havia dois cafetões do
terceiro escalão. Eram fiéis cães-de-guarda do cafetão-mor do estabelecimento,
carinhosamente conhecido como Nêgo.
Nêgo também era o guardião e protetor da primeira-dama. De
tão mau, odiava as criancinhas.
Enquanto os cães-de-guarda aqueciam a musculatura para
prevenir lesões musculares no exercício da possível sessão de porrada, Dentinho
permanecia imóvel, acuado no canto do quarto.
Quando lhe surgiu a oportunidade pediu, educada e
encagaçadamente, licença para fazer uso da única arma de que dispunha para
neutralizar a violência e a intolerância iminentes: a palavra falada.
A outrora primeira-dama - agora truculento animal ferido na
alma - acedeu ao pedido, como se esta fora a última concessão feita a um
miserável chacal de alcova.
No uso de sua arma, Dentinho precisava convencer, para
sobreviver.
Deslocou-se ao centro do quarto e fez a melhor exposição de
motivos que um advogado circunstancial poderia fazer em causa própria.
Com a cara-de-pau própria de seus 19 (dezenove) anos de vida,
fundamentou a linha de defesa nas seguintes fantasias:
a)Não estava ali por acaso. Cumpria missão secreta, a
serviço das forças armadas;
b)Não estava só. Havia um companheiro de missão, fora da
Zona, atento a suas manobras intraprostibulares;
c)Não estava duro. O arame-de-bolso que lhe faltava estava
em poder do companheiro de missão.
Alicerçado nessas premissas, desenvolveu a argumentação
demonstrando que o uso de intolerância e porradaria não eram boas alternativas.
Além de gerarem animosidade nas forças armadas, impediriam à primeira-dama o
resgate de sua dignidade com uma remuneração justa e certa.
Em contrapartida, sua liberação imediata permitiria obter o
numerário e liqüidar definitivamente o entrevero, para plena satisfação das
partes envolvidas.
Empolgou-se no final, fechando a apresentação com otimismo e
pompa, prevendo um futuro promissor nas relações bilaterais entre aquela
instituição social-filantrópica e o "braço armado" da nação
brasileira.
Suas palavras tiveram o mérito de amenizar o clima de
agressividade. A platéia se sensibilizou. Sobretudo com a parte que falava em
remuneração justa e certa.
Entretanto um problema, de difícil solução, continuava
pendente: a credibilidade do garoto era mais baixa que estanino do listão. Já
havia escorregado na maionese 3(três) vezes: quando se apresentou como sendo
Nêgo, quando se disse amigo de Nêgo e quando se fez passar por cliente
preferencial.
Os algozes hesitaram. Sem dúvida, não era sensato sair
distribuindo porrada e passando a navalha num membro de instituição militar,
por mais miserável que fosse. Mas, como acreditar que o comilão com sorriso de
coelho, uma vez livre e fora da zona, a ela voltaria somente para efetuar um
desembolso com efeito retroativo?
Fez-se silêncio no quarto.
Sorrateiramente, um dos cafetões - o de maior porte físico -
se aproximou de Dentinho e passou-lhe a mão às costas. Assustado, o bom garoto
saltou de banda, estranhando aquele comportamento de bicha em momento tão
grave.
Surpreendido com a reação impetuosa e auto-preservativa, o
cafetão comentou:
-Uai, sôrr!! Iesse trem já foi murdido de cobra...
Num súbito ataque de coragem, Olímpio reagiu:
-Vocês querem resolver o problema ou vão ficar de sacanagem?
A primeira-dama compreendeu o significado da pergunta.
Reassumiu o comando e ordenou ao cafetão, com classe e delicadeza:
-Porra, Neném. Vamo acabar logo cum isso, que já tá na hora
dos freguês chegar!
O cafetão Neném justificou-se:
-Pois é, madama. Iesse trem é doido. Tá pensando qui sôr
viado. Mais ieu só tôr oiando se o capote dele vale arguma coisa...
Refez-se o silêncio.
Lentamente, a primeira-dama se aproximou de Olímpio e
pediu-lhe para retirar o capote.
Ele atendeu ao pedido.
Não era um reles capote. Era um belo e maceteado
blusão-de-vôo. Comprado ao Sargento Camelôbusiness Carvalho por cerca de 25
dinheiros, ou 3,2 soldos. Uma senhora nota, para os padrões da época. Tinha
recebido o toque pessoal do proprietário, com adornos de insígnias temáticas
aviatórias tais como Senta a Pua, Esquadrilha da Fumaça e Escola de
Aeronáutica.
A primeira-dama examinou-o carinhosamente. Depois,
pendurou-o num cabide de parede e disse, com o fino estilo que a caracterizava:
-Okay, seu preiboi de merda. Pode ir buscar o dinheiro.
Olímpio nem sequer ousou olhá-la. Cabisbaixo e encagaçado,
só pensava em sair vivo dali. Escoltado pelos cães-de-guarda, deixou o quarto,
tomou o corredor, passou pela sala de música. Ali, percebeu que o movimento de
pessoas se intensificava, com a aproximação da noite. Contornou os casais que
dançavam, passou pela varanda e chegou ao portão.
Foi liberado.
Ato contínuo, ouviu o cafetão Neném, em tom de provocação,
improvisar um doloroso refrão mais ou menos assim:
-Murdido de cobra / Trem doido ele é / Preiboi de merda /
Teu capote é chulé / Murdido de cobra...
Teve ganas de emputecer-se. Mas não conseguiu. Seu
subconsciente fez prevalecer um cagaço cauteloso, auto-preservativo. Manteve-se
sereno, enquanto se afastava da zona de perigo.
No fundo, o camofíssimo sotaque de Neném lhe despertava
certa simpatia. Embora fosse um elemento de alta periculosidade, tinha ar de
inocente e engraçado.
Na via pública, voltou a degustar o doce sabor da liberdade.
Em pouco mais de uma hora, tinha percorrido os dois extremos
da escala do prazer. Esteve no paraíso - quando amou e foi amado pela mais bela
dama do puteiro. Esteve no inferno - quando o gorila que havia dentro da dama
ameaçou decepar-lhe o veículo de acesso ao paraíso.
Aos poucos, ia voltando ao estado-da-arte natural: vivo,
livre e discretamente feliz.
Já se sentia em condições de raciocinar.
Para se reposicionar no tempo e no espaço, informou-se da
hora. Eram 18h05. Observou que ainda lhe restava quase uma hora para o
compromisso oficial das 19h00 na avenida central.
De bem com a vida, fez uma avaliação crítica das recentes
manobras prostibulares.
Apesar do susto, considerou a incursão vitoriosa: comeu e
bebeu da melhor mulher, não gastou absolutamente chongas, manteve preservada a
integridade física e...
Olhou para o próprio tórax e se deu conta de que o maceteado
blusão-de-vôo era agora apenas uma reminiscência.
Entrou em parafuso. Perdera seu maior patrimônio. Quase uma
extensão do corpo. Desde a aquisição na EPCAR, o blusão se transformara em
inseparável companheiro de todas as operações extra-muro.
Sem ele, sentia-se rigorosamente nu.
Inconformado e deprimido, lembrou-se deste modesto ensaísta
e passou a procurar-me nas imediações. Não por que achava que eu pudesse
subsidiar a remuneração da primeira-dama. Ao contrário, sabia que, se me
revisse, correria o risco de perder o pouco numerário que ainda tinha. Mas
precisava ouvir uma palavra de consolo, uma idéia criativa que o ajudasse a
recuperar o alter ego.
Nada. Nenhum sinal do ensaísta. Notem os leitores que,
enquanto isso, eu estava circulando na periferia e só voltaria à zona, pela
última vez, em torno das 18h20.
Lá pelas 18h18, Olímpio voltou ao epicentro do rendez-vous.
A uma distância segura, vislumbrou a residência oficial da primeira-dama.
Imaginou que, lá dentro, seu blusão poderia estar adornando a carcaça de algum
leão-de-chácara de qualquer escalão. Teve um puta acesso de ciúme.
Num rompante de irresponsabilidade, tomou a decisão mais
inconseqüente de seus últimos 19(dezenove) anos: voltar à zona, mesmo sem a
remuneração da primeira-dama.
Com passos kamikazes, firmes e determinados, avançou. Passou
pelo portão sem problemas. Para sorte sua, não havia cão-de-guarda à entrada.
Do espaço que existia entre o portão e a varanda, percebeu que, na sala de
música, havia movimento intenso de fregueses e funcionárias. Teve a consciência
de que entrar naquele burburinho seria oferecer todas as cabeças gratuitamente
à guilhotina.
Virou à esquerda e desviou-se da varanda. Andou uns 10(dez)
passos à frente, até aproximar-se do muro lateral do terreno. Ali, notou que
havia uma espécie de corredor externo entre a parede lateral da edificação e o
muro lateral do terreno. Dobrou à direita e avançou pelo corredor externo. Não
encontrou viva alma.
No trajeto, margeou a varanda, a sala de rebu e os quartos.
Identificou os quartos pelos tamanhos e tipos de janela,
todas semelhantes. Eram pequenas e altas - localizavam-se a cerca de 2 m do
chão.
Para localizar o aposento da primeira-dama, lembrou-se de
que, após a sala de rebu, ele era o quarto quarto.
Contou as janelas: uma, duas, três, quatro.
À frente da quarta janela, deu uma acrobática trepada no
muro lateral do terreno.
Procurou um ângulo favorável e, através do vidro da janela,
localizou o blusão-de-vôo, jazendo soberano sobre o cabide de parede. O coração
quase saltou do peito.
Respirou fundo e movimentou o periscópio de forma a varrer
toda a extensão do quarto. Não havia ninguém.
Preso ao muro, segurou uma fenda da janela e puxou-a
fortemente em sua direção. A janela rangeu e se abriu.
Do muro, saltou para o parapeito da janela. Sentado no
parapeito, fez uma última varredura geral da área. Céu de brigadeiro. Jogou-se
dentro do quarto, deixando-se cair como um autêntico p.q.d. Nervoso, tentou
levantar-se. Tropeçou em si mesmo e voltou a cair. Levantou-se em definitivo.
Contornou a cama, alcançou o cabide e finalmente pegou o blusão de vôo.
Vestiu-o e, com esse gesto, voltou a se sentir olímpico.
Antes de sair, optou por rememorar sua primeira passagem no
quarto. Deu uma olhada na cama - onde teve acesso ao portal do paraíso - e no
canto do quarto - onde esteve a ponto de engolir o tridente de belzebu.
Nessa breve pausa, perdeu não mais que 20 (vinte) segundos.
Com isso, alterou favoravelmente o rumo da história.
Trepou na janela. Sentou-se no parapeito. Procurou um ponto
seguro do corredor externo onde pudesse saltar com segurança.
Quando já ia se lançar, ouviu barulho de passos vindos do
próprio corredor externo. Simultaneamente, ouviu o cafetão Neném gritar a um
possível interlocutor:
-Uai, sorr!! A madama isqueceu a janela aberta! Vamo ali
vê...
Se houvesse trepado na janela alguns segundos antes,
Dentinho teria ouvido os passos de Neném somente após haver saltado no corredor
externo. Seria flagrado e autuado pelo cafetão como "ladrão de
capote". Estaria encurralado entre a parede externa do quarto e o muro.
Hoje, seria mais um mártir associado à História de São João
del Rey.
De cima do parapeito, rápido como uma gazela, saltou... de
volta ao interior do quarto.
Enquanto seu corpo voava para o assoalho, raciocinou à
velocidade da luz, para escolher uma das seguintes alternativas:
(a) - Esconder-se no armário;
(b)
- Mergulhar embaixo da cama;
(c)
- Permanecer ao lado da janela, para tentar uma porrada-surpresa;
(d)
- Tentar uma negociação milagrosa;
(e)
- Nenhuma das acima.
Ao tocar o chão, já havia cravado um "X" na
alternativa que lhe pareceu a mais adequada.
Alea jacta
est.
Joner 66-003