Reminiscências
XV
- V.I. na Z.B.M. (Parte 1)
Considerações
Iniciais
Após os percalços do primeiro dia de viagem a São João del
Rey, no sábado histórico de outubro de 1967, nossas operações ficaram em
banho-maria.
O domingo seguinte foi meio-barro-meio-tijolo. Levantamo-nos
às 11h00, ainda com um abominável bafo de Cuba Libre contraído na noite
anterior. Para matar o tempo até a hora do rancho, jogamos algumas partidas de
sinuca no cassino de oficiais. Depois, piruamos o rango do quartel e saímos,
para uma visita de cortesia a algumas universitárias da Faculdade de Filosofia,
que co-habitavam em apartamento no centro da cidade.
A visita foi rigorosamente monitorada pelo Comandante
Morresi já que, na noite anterior, havia fincado o pau da bandeira naquele
nicho de mercado para seu exclusivo uso-fruto.
Antes de sairmos, convocou a tropa e esclareceu que a)A área
já estava demarcada e lhe pertencia; b)Movimentos de grilagem não estavam
autorizados e c)A única missão da visita era abrir novos nichos.
Passamos uma tarde bastante sugatória, entre as ecléticas
universitárias. Como era natural, o assunto predominante foi Filosofia.
Elas citaram Jean-Paul Sârtre e seu polêmico "affaire
d’amour" com uma tal Simone de Beauvoir. Eu contra-argumentei com Sócrates
e sua máxima "só sei que nada sei" sem imaginar que, anos depois, ele
se consagraria no Botafogo de Ribeirão Preto, e no Corínthians de São Paulo,
por seus filosóficos passes de calcanhar.
Tiramos alguns sarros ocasionais mas, no atacado,
preservamos a propriedade morresiana.
No final da tarde, voltamos ao quartel, pegamos os
apetrechos e retornamos à escola. Sem emoções.
Em 1967, não mais viajamos a São João del Rey.
Nas semanas seguintes àquele sábado de outubro, desviamos
nossas atenções para o projeto Cabangu/67.
Depois, entramos na contagem regressiva para as férias
67/68. Registramos, no canto esquerdo do quadro-negro um número parecido com
3.888.000. Expressava o tempo total (em segundos) que faltava para o
encerramento das atividades letivas. À passagem de cada dia, tínhamos o prazer
de deduzir 86.400 segundos. O novo total era registrado ao lado da sigla
"SS", que refletia nosso estado de espírito àquela época: "Sem
Saco".
Eu receava voltar ao quartel. Temia que o evento-sargento
Abdalla houvesse se tornado de domínio público e chamuscado irreversivelmente
minha imagem.
Quando voltamos a São João, lá pelm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify; mso-pagination: widow-orphan">Quando voltamos a São João, lá pelo mês de abril de 1968, já
estávamos em outro patamar. Havíamos deixado para trás o humilhante posto de
Aluno e galgado o pomposo título de Precadete. O comando da Escola tinha optado
por trazer o terceiro ano - até então cursado no Campo dos Afonsos - para
Barbacena. A maioria dos meia-meia gostou da decisão. Para expressar essa
satisfação, dizia-se à boca pequena, que havíamos "deixado de ser o rabo
da baleia para nos transformar na cabeça da sardinha".
Assumimos orgulhosamente essa nova identidade e abandonamos
a prática suicida de pregarmos, aos quatro ventos, que éramos "cadetes
aviadores em vias de promoção a aspirantes a oficial".
Reocupamos São João del Rey pela porta da frente.
Conscientes de nossas limitações no campo hierárquico, mas convictos de nosso
poder de fogo junto ao camofal feminil.
Com o tempo, os membros da junta foram solidificando suas
posições junto às bases, e o grupo foi se dividindo, passando a prevalecer o
vôo solo nas operações locais.
Morresi se tornou o visitante menos assíduo da cidade. Com
certa freqüência, viajava para São Paulo ou preferia passar o fim-de-semana em
BQ, onde tinha fã-clube cativo, que freqüentava os círculos do Gino’s e os
bailes dos clubes Olympic e Barbacenense. Mas quando ia a São João del Rey,
transitava facilmente entre as elites intelectuais.
Olímpio se fixou no ramo empresarial. Estabeleceu laços
sólidos com a filha da Fábrica de Cimento Barroso que, coincidentemente, era
também aluna da Faculdade de Filosofia em del King. Essa ligação colocou-lhe às
mãos um luxuoso automóvel Aero Willis 64, com o qual aprendeu a conduzir
veículos motorizados. Aperfeiçoou-se tanto nessa área que, duas décadas depois,
viria a tornar-se conceituado profissional do volante, a ganhar a vida
circulando nas ruas de Manhattan.
O modesto ensaísta encontrou sua alma-gêmea juvenil. Viveu
com ela uma eterna paixão de meio ano. Depois, a distância e outras
circunstâncias a reduziram a apenas uma inesquecível reminiscência.
As viagens feitas a São João del Rey em 1968 significam,
para o ensaísta, um valioso patrimônio de recordações. Mas quase todas são de
interesse puramente pessoal.
Lembro-me entretanto de 2(dois) incidentes que reputo marcantes,
ocorridos no segundo semestre daquele ano. Tomo a liberdade de trazer minha
versão à apreciação pública e peço desculpas por eventuais erros e omissões.
A
Reminiscência
Eram 16h00 de um morno sábado de 1968.
Olímpio e o modesto ensaísta acabáramos de chegar à cidade,
fazer o rotineiro "check in" no quartel e sair em V.I. de
reconhecimento nas adjacências.
Tínhamos a tarde livre. Nossos compromissos sociais somente
começariam às 19h00.
Caminhamos a esmo pela cidade, enquanto trocávamos
figurinhas sobre os pecados planejados para aquela noite. Fizemos uma pausa no
pit stop de um boteco. Alijamos um pouco de efluente aquoso e ingerimos um
cafezinho de três dedos. Cada um de nós deu uma redonda (moeda) em pagamento e
cortesmente, autorizou o barman a ficar com o pseudo-troco.
Depois, Olímpio sacou dois cigarros de seu tradicional maço
de Continental estoura-peito sem filtro. Ofereceu-me um e prendeu o outro nos
lábios. Riscou um fósforo Fiat Lux e acendeu seu cigarro. Aproveitando a chama,
virou-se para me ceder um pouco de seu fogo e perguntou:
-Cadê o cigarro?
Respondi:
-Guardei prá uma ocasião especial.
Retomamos a caminhada. Passamos pela avenida principal,
entramos em ruas secundárias, dobramos esquinas e nos deparamos com um beco que
nos parecia especialmente familiar.
Instintivamente, pressenti o momento: filei o fósforo de
Olímpio, acendi o estoura-peito prepiruado, dei uma puxada de meia polegada e
iniciei o processo de auscultação do cenário.
No beco, havia poucas pessoas à vista. As raras camofas
presentes não eram de boa cepa: se colocassem um Quinto A., passariam
facilmente por Cabo taifeiro em fim de carreira.
As casas, de aparência modesta, tinham fachadas semelhantes.
À frente de algumas delas, camofos tipo bull-dog observavam a área.
Em geral, o cenário era típico de uma ruela de cidade do
interior. Mas a área tinha um aconchegante fedor de pecado remunerado.
Meu cigarro, de tão pequeno, já começava a queimar o dedo.
Reposicionei-o entre as unhas e inspirei o último quinhão de fumaça. Solenemente,
arrisquei um diagnóstico:
-Trata-se de uma Z.B.M. Zona de Baixo Meretrício.
Não ouvindo o respaldo do parceiro, virei 90 graus à direita
e, só então, percebi que ele já entabulava negociação com um cabo-de-saia
piruado ao acaso.
Para não despertar a atenção dos bull-dogs, aguardei
discretamente o desfecho do diálogo, enquanto me mantinha em movimento
dissimulado. Concluídas as negociações, Olímpio se aproximou e esclareceu:
-Zero, isso aqui é uma Zona.
Falei:
-Bzzzzz... Claro, meu garoto. Bzzzz. Mas, como funciona o
"métier"?
Respondeu:
-Meter? É negociação mais quarto.
-O que??
-Negociação mais quarto. Você negocia o preço da moça e paga
o quarto por fora.
-Quanto sai o quarto?
-Caro prá cacete.
Embora a resposta parecesse imprecisa, ela me satisfazia.
Qualquer preço superior a zero era suficiente para me tirar do mercado. Meu
arame de bolso mal cobria a passagem de volta a BQ. Além disso, eu ia precisar
de um reforço de caixa para molhar a cueca àquela noite, com a alma-gêmea.
Esclareci:
-Tô fora. Segunda-feira, Terezinha da linha do trem quebra
meu galho. Ela não cobra o corpo e a Rede Ferroviária Federal não cobra o
quarto.
-Segunda-feira é só depois de amanhã. Tá muito longe. Eu
tenho que comer alguma coisa hoje. Nem que seja só prá amansar o bicho. Vou
queimar uns trocados e...
-O-kapa, meu garoto. Mas já que você tem trocados prá
queimar, deixa algum comigo.
-De novo, Zero Três? Já piruou o cigarro. Agora vai querer
levar a grana?
-Bzzzâncio... mas só pro cafezinho.
Enfiou a mão no bolso e sacou umas moedas. Separou uns
microcentavos e os deixou cair na minha mão, com a expressão de pesar de quem
dá esmola sem acreditar na causa do mendigo.
Para consolá-lo, afirmei:
-Quem dá aos pobres empresta a Deus.
Pensou um pouco e contra-argumentou, enquanto se embrenhava
no epicentro do meretrício:
-Quem dá aos pobres ou te empresta... adeus!!
Sozinho, retomei a caminhada, procurando não me afastar
muito da zona.
Estava preocupado com a segurança do garoto naquele ambiente
infestado de bull-dogs.
Por outro lado, eu tinha interesse pessoal no resultado da
operação. Um eventual sucesso de Olímpio poderia carrear-me alguma sobra de
carne-de-mijo a custo zero.
Voltei ao local diversas vezes: às 17h30, às 18h00 às 18h20.
Nenhum vestígio. Na última vez, fiquei uns dez minutos na calçada, analisando
as alternativas de ação, sem saber o que fazer.
Em princípio, não havia motivo de pânico. Olímpio era
escoladíssimo rato-de-zona. Estava no mesmo nível do legendário Ratão. Além
disso, era ótimo negociador - vide episódio da poltrona "X". Eu não
me surpreenderia se convencesse um bull-dog a pagar-lhe o quarto, a título de
contribuição filantrópica.
Desisti de esperar. Possivelmente ele já teria saciado o
instinto animal e evacuado a área. Ou então ainda estaria num quarto qualquer,
pagando mistério sobre sua infância sofrida no Paraná, enquanto dava ao ganso a
oportunidade de ganhar fôlego para mais um afogamento.
Decidi abandonar definitivamente a área.
Quando já havia alcançado a esquina, alguém me segurou o
antebraço e falou:
-Vam-vambora rrrrrápido, que dedeu merda!
Era um Olímpio muito diferente do normal: pálido, tremulante
e, sobretudo, gago. Perguntei:
-O que é que aconteceu, meu garoto?
Ficou mais nervoso ainda e gritou:
-Pô pô porra, Zzzero. To tocou o rebu !
No jargão epecariano, a expressão "tocar o rebu"
era quase sagrada. Tinha o poder de tornar improcedente qualquer
questionamento. Era uma ordem de evacuação imediata, emergencial.
Ao ouvi-la, apressei rapidamente o passo, em full-power até
chegar a uns 15 km/h. Nesse ritmo, voamos lado a lado pelas ruas, seguindo o
trajeto de retorno ao centro, em direção ao boteco pit stop.
No destino, ofegante, Dentinho pediu ao simpático barman um
copo de água filtrada e os dois costumeiros cafezinhos de três dedos.
Apoiou-se no balcão, bufou até recuperar a normalidade
psicomotora e, só então, dispôs-se a me prestar os esclarecimentos devidos.
A Versão da
Versão de Dentinho
Depois de me doar a esmola - ou emprestar a Deus, como eu
preferia - escolheu uma das casas e entrou: passou por um bull-dog ao portão,
uma varanda e uma sala. Na sala, havia movimento: música, moças, camofos. Uns
dançavam, outros riam estrepitosamente de alguma sacanagem. Continuou entrando
vagarosamente, sem chamar a atenção dos presentes. Passou pelo corredor e teve
acesso aos quartos. Curioso, tentou abrir algumas portas, para fazer uma
averiguação "in loco". Não conseguiu. As primeiras estavam trancadas.
Lá pela quarta tentativa, encontrou uma entreaberta. Empurrou-a. A porta
rangeu. De dentro, uma voz feminina sonolenta perguntou:
-É você, meu bem?
Respondeu:
-Sim, meu bem.
Entrou e fechou a porta.
Na cama, uma mulher de boa cepa estava deitada. Ao sentir a
presença do estranho falou, sem demonstrar muito espanto:
-Pensei que fosse meu Nêgo...
Calmamente, Dentinho sentou-se à cabeceira e fantasiou que:
-Era muito amigo do Nêgo;
-Nêgo mandou avisar que não viria vê-la;
-Nêgo o recomendou, como "cliente especial".
Percebendo que sua baba-de-quiabo tinha respaldo na
boca-de-cabelo, o bom garoto foi, paulatinamente, se despojando da
indumentária, nessa ordem:
a)Blusão de vôo - Recém-adquirido do Sargento-Business
Carvalho por cerca de 3,2 soldos a ser pago em parcelas mensais e sucessivas
até o fim do ano;
b)Camisa - Piruada de uma companheiro baixado enfermaria
vítima de "blenorragia de tabela";
c)Sapatos - Emprestados pela F.A.B. Faziam parte do kit do
Quinto A;
d)Calça - Própria. Trouxe de casa;
Para evitar constrangimento, tomou o cuidado de manter o
relógio, o par de meias e a cueca, todos próprios.
Abrigou-se sob o cobertor e deixou-se envolver pela tentação
da carne.
Saciado o instinto animal, levantou-se feliz e recolocou a
indumentária, enquanto trocava as juras de amor protocolares.
Como bom cavalheiro, agradeceu poética e gentilmente pelos
mágicos momentos de prazer, e preparou-se para deixar o recinto.
Só então a bela moça informou seu pedigree:
a)Ela era a primeira-dama da zona;
b)Seu preço era tão alto quanto o prestígio de seu corpo;
c)Nêgo era o cafetão-mor do estabelecimento;
d)Nêgo era seu dono, guardião e protetor;
e)Nêgo não gostava de criancinhas.
Surpreendido, Olímpio apelou aos sensos de nobreza e
compreensão comuns a toda primeira-dama. Visando a sensibilizá-la, abriu à sua
frente todos os bolsos para demonstrar que o total de numerário disponível não
dava sequer para beijar o pé da cama.
O tiro saiu pela culatra.
Sentindo-se mal comida e vilipendiada por um miserável
plebeu de sangue amarelo, a primeira-dama perdeu a classe e radicalizou: emitiu
palavras de baixo calão - não condizentes com sua posição social - abriu a
porta e convocou ao quarto dois leões-de-chácara do terceiro escalão, para
solucionar o impasse e bater o martelo.
Sem dúvida. Olímpio-Dentinho tinha fortes motivos para tocar
o rebu.
Joner 66-003