Reminiscências XIV - Bate-Coxa Social

Introdução

"A História não se faz com fatos, e sim com versões".

Alguém disse essa frase e eu a aceitei como tese.

A meu ver, um fato histórico só passa a existir quando alguém o percebe.

E quando alguém percebe um fato, já o faz sob seu ponto-de-vista. Já o interpreta. Cria sua própria versão.

À medida que o tempo passa, aquela versão se altera, assim como se alteram todas as pessoas.

Minhas modestas recordações do período entre 02/66 e 05/69 são apenas versões, geradas mais de 3 décadas depois.

Mas são a minha História.

 

Reminiscência

São João del Rey, 21h30, sábado, outubro de 1967.

Enquanto Olímpio e Morresi davam pequenos bordejos nas adjacências do Quartel, com o objetivo de fixarem suas posições junto às alunas da Faculdade de Filosofia, o modesto ensaísta jogava sobre a carcaça confortáveis jatos de água quente proporcionados pela boa hospitalidade do exército nacional-brasileiro.

Em BQ, essa benesse era raramente acessível aos golpistas.

O taifeiro controlador tinha instruções rigorosas do comando da Escola para liberar a água quente somente quando a tropa encerrava suas atividades oficiais.

Com essa medida, restavam aos golpistas em exercício as seguintes opções:

(a)Aguardar a chegada da tropa oficial para tomar um banho de bom nível;

(b)Enfrentar a água semi-congelada comum naquela fase do ano;

(c)Convencer o taifeiro a liberar extemporaneamente a água quente;

(d)Dar golpe também no banho;

Na escolha das alternativas, os proscritos se dividiam, de acordo com suas preferências pessoais.

Eu normalmente oscilava entre as alternativas (c)-Lobby no taifeiro e (d)-Golpe no banho.

Quando Olímpio (o precursor da técnica de negociação) estava sem saco de fazer uma sugatória de aquecimento no banheiro, a alternativa (c) ganhava força. Usando uma fração de cigarro marca Continental (sem filtro) como brinde e argumento, ele normalmente convencia o taifeiro a executar uma das seguintes medidas de exceção previstas no regulamento: "antecipação extra-oficial" ou "liberação de emergência".

Na "antecipação extra-oficial", a mão do taifeiro dava um tapa acidental no mecanismo de ativação da caldeira, antes da hora determinada pelo comando. Quanto maior o tempo de antecipação, maior o esforço de persuasão do negociador. Antecipações superiores a 30 minutos estavam cotadas ao preço de um cigarro inteiro, mais 10 minutos de baba-de-quiabo.

Normalmente, havia tempo suficiente para um relax total e uma faxina corporal global, em meio às grossas camadas de nuvens provocadas pelo choque térmico entre a água semi-fervente e o ambiente semi-congelante.

Os golpistas aproveitavam a ocasião para lavar até o último fiapo de Trompelho.

Às vezes, o banho era interrompido abruptamente, transformando o relax total em mobilização compulsória, e a faxina corporal global em meia-sola de gato.

A interrupção abrupta tinha duas causas possíveis, a saber:

a)Naba na caldeira

Eventualmente, algum oficial ou sargento-fodão se aproximava inadvertidamente da caldeira. Receoso, o taifeiro-controller dava um contra-tapa no mecanismo, desativando o aquecimento sem aviso prévio. Em poucos segundos, a temperatura da água despencava 40 graus, provocando um súbito frenesi embaixo dos chuveiros. Em meio a um turbilhão de impropérios, corpos de golpistas mal lavados abandonavam rapidamente suas posições para se abrigarem nas toalhas mais próximas.

b)Naba no alojamento

Para chegar ao banheiro, qualquer oficial tinha que passar necessariamente pelo alojamento. Quando alguma naba entrava no alojamento, o plantão (ou alguém que tivesse dispositivo de proteção anti-rola) gritava estrepitosamente: "Alojameeeeeeeeiiinto Sssssssssssssentido!!!"

Esse comando tinha dois objetivos básicos: 1)Reverenciar a autoridade presente e 2)Injetar adrenalina no banheiro.

Ao ouvir a reverência, o pessoal do chuveiro se espalhava rapidamente em todas as direções, escondendo-se nas cabines de despejo, nos armários, embaixo dos beliches.

Na "liberação de emergência" a operação era rápida. A mão do taifeiro escorregava por tempo determinado. Normalmente não passava de 3 minutos brutos. Nessa circunstância, o sabão era passado a seco, e só havia tempo para dar uma guaribada nas chamadas partes baixas - região que abrangia os 3(três) membros inferiores e a junta de escoamento.

No quartel do exército em São João del Rey, terminei o banho de bom nível. Vesti o Quinto A piruado de Pedro Paulo, calcei os sapatos outrora morfético-calamitosos, e executei a tradicional inspeção no espelho.

Gostei do que vi. À noite, a folga do paletó me fazia parecer mais forte.

Para não haver dúvida, testei essa impressão nas mais variadas situações: de frente ao natural, de frente com os pulmões a pleno, de lado com movimentos em slow motion, de lado com movimentos bruscos do pescoço nos dois sentidos.

Confirmado. A caixa toráxica tinha um delta a mais.

Satisfeito, abandonei o quartel, juntei-me ao grupo e seguimos para o bate-coxa social.

Na portaria do clube, um grupo de camofos se acotovelavam, pressionando o porteiro a permitir-lhes acesso. Ao ver-nos com aparência de oficiais azulões, o porteiro abriu um clarão no camofal e nos convidou a ingressar.

No hall de entrada, as paredes laterais eram espelhadas. Não pude deixar de perceber minha imagem de corpo inteiro, o que não tinha sido possível no banheiro do quartel.

Tive a ingrata insatisfação de constatar que a ilusão de um delta a mais na parte de cima acentuava mais ainda a realidade de um delta a menos na parte de baixo. Agora, com uma visão crítica global, percebi que tinha conseguido o impossível: tornar minha imagem ainda pior.

Para remediar a situação, só encontrei uma solução: fingir que aquilo não tinha acontecido.

Chegamos ao amplo salão de baile.

A presença feminina abundava. O material humano era de boa cepa. Havia mulheres das mais variadas idades: franguinhas de 14, balzaquianas de 20 e até algumas coroas com data de nascimento há mais de 22 anos.

O baile estava na ascendente. O salão de dança já funcionava com 60% de sua capacidade operacional. A cada instante, novos casais deixavam as mesas e se juntavam aos que já navegavam em velocidade de cruzeiro.

No palco, a composição do conjunto musical não fugia aos padrões da época: três guitarras, uma bateria e um cantor com pandeiro-de-coxa.

O repertório era variado, mas ao longo da noite houve certa ênfase na dobradinha anglo-brasileira "I Can Get no Satisfaction" e "Quero que Vá tudo pro Inferno".

Nos arredores, mesas ainda repletas de camofas desacompanhadas denunciavam a ausência dos tradicionais predadores epecarianos.

Sendo pé-de-valsa especializado em dois-prá-lá-dois-prá-cá, Morresi sentia-se em seu habitat natural. Nasceu para brilhar na ribalta. Sua simples presença naquele ambiente o alçava à condição de líder situacional do grupo. Reuniu seus comandados e me perguntou:

-Que horas tem aí, Zero?

Consultei meu Cyma de trinta dinheiros e respondi ecleticamente:

-Precisamente 22 horas e 20 minutos.

Falou ao grupo:

-Pessoal. Aqui é cada um por si. Às 2 horas a gente se encontra na portaria e volta pro quartel. Entendido?

Mal concluiu a frase, dirigiu-se a uma das mesas dos arredores, tomou uma das meninas pelas mãos, conduziu-a ao epicentro do bate-coxa e desapareceu nas nuvens.

Olímpio não estava tão à vontade; não militava na spot light. Dançava com a sutileza de um trator.

Seu ponto forte era a negociação de bastidores; era a atuação discreta por trás das câmeras; era a comilança silenciosa atrás do toco.

Disse-me:

-Zero. Vou ter que dar uma saída.

Perguntei-lhe:

-Já achou algum campo de pouso?

-Sim. Vou fazer uns toques-e-arremetidas.

-Ok. Mas deixa uns dois cigarros comigo.

Meteu a mão no bolso, sacou de um maço novo de Mistura Fina (com filtro), abriu-lhe uma das laterais, deu-lhe uma mini-porrada na base do polegar e me ofereceu um deck.

Peguei 4(quatro) unidades.

Gritou:

-Epa! Não eram só 2(dois)?

Acatei a observação e devolvi os excedentes de piruação.

Ele recolocou um cigarro no maço e acendeu o outro. Puxou uma tragada cavalar e, eliminando círculos de fumaça a intervalos regulares, desapareceu na penumbra.

Sozinho, eu me sentia vulnerável. Já não tinha a meu lado a camuflagem proporcionada pelos semelhantes. Minha imagem ridícula dentro do Quinto A de Pedro Paulo tornou-se mais evidente, contrastando diretamente com a cor verde-oliva predominante.

Para diminuir o risco, não podia ficar ali, parado. Deveria me movimentar, me misturar às massas, interagir com o meio-ambiente.

Sem me fixar em alvos específicos, passei o resto do tempo fazendo pequenas abordagens e rápidas retiradas.

Precisamente às 02h00, o grupo voltou a se reunir, à saída do clube. O clima era de certa satisfação com os resultados alcançados.

Morresi dançou a dar com o pau. Estabeleceu uma boa base de sustentação política junto às alunas da Faculdade de Filosofia.

Olímpio nunca disse exatamente onde se meteu. Sintomaticamente, após essa data, ele passou a circular nos meios empresariais, como candidato a genro do proprietário da Fábrica de Cimentos Barroso.

O modesto ensaísta empatou o jogo: se por um lado não mordeu ninguém, por outro lado também não foi mordido pelas nabas ambulantes.

Solfejando desafinadamente o Hino do Aviador, marchamos felizes pelas ruas silenciosas de São João del Rey, rumo ao quartel.

Passamos pela rua de baixo, galgamos a base da colina e começamos a subir a ladeira de acesso.

Estávamos tão absortos em nossa alegria irresponsável que nos esquecemos do sentinela megalomaníaco.

Já a 15 m da rua de baixo, fomos surpreendidos pelo estridente brado de "pare e identifique-se", acompanhado de diversos sons de preparação da arma para cuspir fogo.

O fator surpresa fez aflorar a índole golpista.

O grito de "pare e identifique-se" soou como uma ameaça. E se há ameaça, então há que se evacuar. Esse era o fundamento básico do regulamento de auto-preservação.

Impulsionado pela tração das pernas e auxiliado pela lei da gravidade desci, no limite da velocidade humana, os 15 m de retorno à rua de baixo, virei à esquerda, e saí do campo de visão do sentinela.

Mal parei a correria, percebi que os demais membros da junta já estavam ao meu lado, também fora da zona de tiro.

Morresi questionou:

-Que é que é isso, Zero? Por que a sangria?

Respondi, ofegante:

-Você não ouviu? Aquele maluco ia acertar a gente.

Assumiu ar professoral e ponderou:

-Nada disso, rapaz. O cara não é maluco. Se fosse maluco, já teria atirado. Ele é só megalomaníaco. Assusta mas não mata.

-Então, por que você também correu?

Respondeu:

-Corri porque vocês correram. Eu não ia ficar lá sozinho, com um megalomaníaco apontando a arma prá mim.

Dirigi-me a Olímpio, buscando apoio para a tese da auto-preservação:

-Nós corremos prá não morrer. Certo, meu bom garoto?

Sentindo-se prestigiado, Olímpio bateu o martelo:

-O que aconteceu foi o seguinte, Zero Três: você correu porque ficou com cagaço; nós corremos porque você correu.

Como eles tinham 2/3 dos votos, ficou claro que houve precipitação de minha parte. Não havia razão para fuga. O modesto ensaísta tinha diagnosticado como loucura um simples arroubo de megalomania.

Visando a recuperar o statu quo da junta, fizemos, ali mesmo, uma mini-reunião de emergência. Concluímos o seguinte:

a)Em princípio, a reocupação do quartel se daria pelo Portão da Guarda;

b)Estava descartada a opção de pular o muro;

c)Para inibir a ação do sentinela, adotar-se-ia a já consagrada identificação macromegalomaníaca padrão.

Imbuídos dos sensos de responsabilidade e disciplina que nos caracterizavam, cumprimos rigorosamente o planejado.

Dessa vez, um assustado sentinela nos deu passagem, fazendo as reverências protocolares.

Em grande estilo, nossa tropa reocupou o quartel.

E assim demos por encerradas as atividades do primeiro dia em São João del Rey.

Joner 66-003

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