Reminiscências
XIII
- Arrivederci, Iracema!
Quartel de São João del Rey, 18h45, sábado, outubro de 1967.
O modesto ensaísta tinha encontro marcado com Iracema, às
18h30, na estação rodoviária da cidade.
Estava 15 min atrasado.
A vistoria inesperada da tropa no Pátio da Bandeira e suas
conseqüências no sistema de escoamento interno atrasaram o cronograma.
Em passo acelerado, saí do quartel pelo Portão da Guarda,
desci a ladeira e segui à estação.
Por volta das 19h00, cheguei ao destino.
Lamentavelmente, não havia vestígio de Iracema.
Fiquei decepcionado.
Permaneci no local por uns 10 minutos, até aceitar
definitivamente o fato de haver dado mais uma varada na água.
Sentia-me duplamente vazio: no plano físico, por que havia
despejado uma carga respeitável no banheiro do alojamento; no plano psíquico,
por que tinha deixado escapar a primeira oportunidade de morder um biscoito na
del King.
Meu relógio Cyma, adquirido por trinta dinheiros, assinalava
19h10.
Sem Iracema, o único compromisso agendado era com os demais
membros da junta - Olímpio e Morresi - às 21h00, em frente ao quartel.
Restava-me portanto 01h50 disponível para fazer uma incursão
exploratória pelas veredas centrais da cidade.
Deixei a rodoviária e empreendi uma caminhada aleatória,
enquanto observava as peculiaridades mercadológicas e os hábitos
sócio-culturais do camofal local.
Algumas constatações me chamaram particularmente a atenção,
a saber:
a)Naquele segmento de mercado, o índice camofa por macho
andava entre 4(quatro) e 5(cinco). Recordem-se os leitores que a premissa
básica que trouxe a junta a São João del Rey foi o índice 14, veiculado em
caráter confidencialíssimo pelo aluno Morresi ao modesto ensaísta;
b)As comofas de São João não tinham as batatas-da-perna
acentuadas, como era comum às de BQ. Posteriormente, esclareceram que a
topografia acidentada de BQ exigia, de suas meninas, um permanente trabalho de
pernas, aumentando-lhes a tendência à "hipertrofia de batata";
c)No ar, havia um clima de curiosidade em torno de minha
presença. 3 (três) entre 5(cinco) camofas que cruzavam com o ensaísta (cruzavam
com, no sentido de passavam pelo), olhavam para trás. Deste fato, inferi a
grande lição que nortearia meu pensamento econômico até os dias de hoje:
"o tamanho de um mercado não se mede pela massa populacional, e sim pela
propensão das pessoas a atuarem como agentes econômicos".
Embora tendo 1,2 bilhão de pessoas, o mercado da China é
menor que o dos Estados Unidos, com seus 250 milhões de habitantes.
O índice divulgado na boca pequena (7 mulheres por homem em
BQ) e o indice-bizu morresiano (14 mulheres por homem em São João) induziam a
grandes falácias de análise mercadológica.
A verdadeira informação estava ali, diante do modesto
ensaísta, nas ruas e becos de São João del King. 3(três) entre 5(cinco) camofas
tinham, de fato, propensão a atuarem como agentes econômicos.
Elas consumiriam o modesto ensaísta, se este fosse um
produto à venda nas prateleiras dos supermercados.
Isto sim, é o verdadeiro índice mercadológico.
O resto é diálogo flácido para bovino dormitar.
Esta análise me deixou confiante.
Se o mercado era farto, não havia necessidade das correrias
e dos atropelos típicos da busca pela defloração do palmito do rancho na
Escola.
Dei 2(duas) voltas na rua principal, com calma, e então
percebi, do outro lado da calçada, um grupo de meninas de bom nível. Focalizei
o periscópio numa lourinha de cabelos longos.
Atravessei a rua e me misturei ao grupo. Quando ia jogar a
isca, a loura se antecipou. Disse que era do time de Ubá e que havia me visto
na rodoviária, ao desembarcar em São João del Rey.
Achei que aquela conversa poderia ser o embrião de um
relacionamento profícuo para os fins a que se destinavam.
Já ia dar meu lance, quando Iracema surgiu do nada. Com ar
de gatinha manhosa, insinuou que eu havia pisado no tomate, ao deixá-la
esperando na rodoviária.
Abandonei o projeto da loura e voltei a concentrar meus
esforços em Iracema. Esclareci que meu atraso fora provocado pelo
evento-sargento Abdalla. Restabelecemos as relações e nos destacamos do grupo,
para aprofundarmos o conhecimento mútuo.
Havia pouco tempo disponível. Seu ônibus retornaria a Ubá às
20h30, e meu relógio Cyma (de trinta dinheiros) já acusava 19h50.
Concordamos em assistir uma parcela de sessão de cinema,
para aproveitar o intervalo entre 20h00 e 20h25.
Sobre o enredo do filme, quase não tenho recordações. Lembro
apenas que um cara forte, parecido com nosso Bissaco, cobria de porrada seus
desafetos.
Já da sala da platéia, tenho vivas reminiscências.
Foi ali, com o cinema quase lotado, que Iracema abriu a
caixa de ferramentas para mostrar ao modesto ensaísta a sensualidade e volúpia
que camuflava em sua aparência doce e frágil.
Usava a boca como arma. Beijava à velocidade média de 20
rotações por minuto. Agia como se não possuísse músculos na face.
O repertório era variado: às vezes suavemente, como se os
lábios do modesto ensaísta fossem um cristal delicado; às vezes voluptuosamente,
como se estivesse desentupindo uma pia. Nesses momentos, a poltrona mal pregada
rangia perigosamente, ameaçando desabar.
Nas curtas paradas para respirar, eu ouvia discretos
sussurros do camofal mais próximo. Os conservadores falavam que éramos uma
ameaça ao conceito da tradicional família mineira. Os curiosos insinuavam que o
filme erótico na platéia era mais interessante que a porradaria da tela. Os
profetas do apocalipse lamentavam que uma possível mancha branca fatalmente
sujaria a poltrona.
Aos poucos, a platéia adjacente foi abandonando a área,
deixando um clarão ao nosso redor.
Eu percebia esses fatos e me sentia desconfortável. Tinha
consciência de que um escândalo por mau comportamento em local público poderia
encerrar prematuramente minha carreira na F.A.B. Mas não conseguia sair da
sinuca de bico.
Sempre quando ia pedir arrego, Iracema reconectava o
desentupidor de pia, embargando-me a voz.
Num dado momento, o encosto da mal pregada poltrona não
resistiu à pressão e se rompeu, provocando um grande barulho. Iracema caiu
sobre o ensaísta e este sobre o encosto.
Na escuridão, alguns curiosos se levantaram para identificar
a origem e a causa do barulho.
Urgia uma providência de minha parte. Se fosse surpreendido
naquela situação ridícula, o mundo me condenaria por 30 anos.
Levantamo-nos rapidamente e abandonamos o epicentro das
atenções.
Quando já caminhávamos pelo corredor entre as poltronas, a
projeção do filme foi interrompida e as luzes do salão se acenderam.
A massa presente pôs-se de pé e já se perguntava
ostensivamente sobre o responsável pelo desabamento.
Apertei a mão de Iracema e continuei o trabalho de retirada,
tomando o cuidado de manter a velocidade rigorosamente constante. A experiência
golpista de BQ recomendava que as operações de fuga não fossem muito rápidas -
para não parecer pânico - nem muito lentas - para não parecer negligência.
Sem olhar para trás, abandonamos o pandemônio da sala de
projeção, passamos pela sala de espera, descemos a escadaria e seguimos para a
rodoviária.
Chegamos às 20h35.
O ônibus de Ubá já estava com o motor ligado, pronto para
sair.
Rapidamente, Iracema soltou minha mão, subiu a escada e
partiu. Sem dizer uma palavra. Sem ao menos olhar para trás.
Foi a última vez que a vi.
Aos poucos, o sabor de seus lábios de mel foi dando lugar a
um insuportável gosto de caldo de cabo-de-guarda-chuva.
Eu já a amava perdidamente.
Jamais soube seu verdadeiro nome.
Iracema era apenas um apelido de referência, dada sua
semelhança física com a personagem de José de Alencar e o símbolo sexual do
senhor Quincas-Pau-Duro.
Sem Iracema, com a bequilha torta e a fuselagem amassada,
voltei ao quartel.
Na rua de baixo, reencontrei os companheiros Olímpio e
Morresi que, estranhamente, estavam vestidos a caráter, de Quinto A com luva e
tudo.
Vendo-me sorumbático e amarrotado, Morresi alfinetou:
-Arrego aí, Zero. Te passaram no liqüidificador?
Ignorei o comentário e perguntei, preocupado com os
possíveis danos do evento-sargento Abdalla, ao "statu quo" da ordem
militar:
-Por que estão vestidos de Quinto A? Algum problema no
Quartel?
Olímpio esclareceu:
-Calma, rapaz. Já tá tudo negociado.
-Negociado como? Fomos expulsos?
-Expulsos não. Fomos convidados.
-Convidados a quê? A nos retirar?
-Não. Convidados a um baile de gala.
-Dá prá explicar melhor?
-Dar, nós não damos. Esse não é nosso negócio. Mas podemos
explicar. Enquanto você passeava por aí, nós trabalhávamos prá arranjar comida.
Conhecemos umas meninas da Faculdade de Filosofia. Elas falaram do baile.
Negociamos e arranjamos os convites. Mas só tem um problema.
-Que problema?
-Tem que ir de Quinto A.
-Isso não é problema. Vou botar o meu.
-Porra, Zero. Vai estar cheio de Oficial lá dentro.
-E daí? Qual é o problema?
-O problema é que o Quinto A tá meio esquisito.
-O meu?
-O teu, não. O de Pedro Paulo.
Essa observação me fez voltar à realidade. Eu ainda tinha
sob minha guarda o Quinto A piruado ao 66-102. Apresentar-me com ele em um
baile repleto de nabas verdes-oliva certamente inflacionaria meus
assentamentos, além de comprometer a imagem do grupo.
Por outro lado, eu não podia me dar ao luxo de desperdiçar
oportunidades.
Para sensibilizar os companheiros, pensei numa frase de
efeito com forte apelo à vibração aeronáutica.
Disse-lhes alto, em bom som, e com certa mágoa simulada:
-A verdadeira esquadrilha jamais abandona seus pilotos
feridos.
Antes que me apresentassem algum chavão de efeito em sentido
contrário, completei:
-Em meia hora, tomo um banho e a dita esquadrilha vai ao
bate-coxa. Com todos os seus pilotos!!!
Deixei o grupo e marchei em direção ao quartel. Tal como
Iracema, sem olhar para trás.
Quando já tinha dado uns 10(dez) passos, ouvi a voz de
Morresi:
-Afirmativo, Zero. Daqui a meia hora. Nesse mesmo ponto.
Feliz, entrei no quartel cantarolando uma bela canção, que
começava assim:
"Vamos filhos altivos dos ares..."
Mas essa é outra história.
Joner 66-003