Reminiscências
XII - Fora
de Forma. Aish!!!
São João del Rey, outubro de 1967, sábado 18h20.
Enquanto Olímpio e Morresi se dirigiam ao cassino dos
oficiais, o modesto ensaísta seguia para a rodoviária da cidade.
Tinha um commitment agendado às 18h30, com a virgem dos
lábios de mel. Estava atrasado.
Quando já me aproximava do Portão da Guarda, fui abordado
por um sargento verde-oliva padrão Abdalla.
Obviamente, senti um "frisson" no contra-pino. Em
BQ, um sargento com aquele perfil poderia fazer um rombo na ficha militar de
qualquer golpista.
Olhando-me nos olhos, a meio metro de distância, cravou os
calcanhares e levantou a mão direita.
Achei que iria me aplicar uma porrada. Instintivamente, dei
um passo atrás, para fugir do raio de ação de seu braço.
Indiferente a meu pulo-do-gato, o sargento apresentou-se,
cumprindo ao pé da letra o tripé básico de uma apresentação-padrão: mãos
espalmadas, dedos unidos e o pequeno lembrete que faz uma grande diferença:
polegar também é dedo.
Isto feito, expressou sua mensagem: estava com a tropa
formada no Pátio da Bandeira e necessitava de autorização da maior patente
presente - no caso, o modesto ensaísta - para comandar o "fora de
forma".
Respirei aliviado. Pelo menos a princípio, estava afastado o
risco de porradaria.
Por outro lado, senti-me como se estivesse diante de uma
questão qualquer das provas de Química: na dúvida, entre cinco alternativas
possíveis.
Senão, vejamos:
(a) - Confessar ao sargento minha condição de simples aluno,
ex-bicho e não-autoridade;
(b) - Assumir a autoridade que me foi outorgada;
(c) - Informar que a maior autoridade presente estava
jogando sinuca, no cassino dos oficiais;
(d) - (a) + (c);
(e) - Todas as acima.
Usando o bom-senso que me fazia justiça ao apelido
"Joner do QI" eliminei, de cara, a alternativa (e).
A alternativa (c) - transferir aos companheiros o ônus da
decisão - me agradava. Tinha forte apelo hilariante. Imaginei as possíveis
reações dos colegas, caso fossem abordados pelo sargento, entre uma e outra
tacada.
Olímpio, certamente, tentaria alguma negociação, como no
caso da Poltrona "X".
Morresi, se assumisse o comando, usaria sua habilidade
natural. Marcharia ao lado do sargento, em ritmo de bolero e ao som do hino
"Dio Come ti Amo".
Enquanto imaginava essa cena, não me contive e esbocei um
sorriso-relâmpago.
Diante do olhar intrigado do sargento, que voltara
perigosamente a encurtar a distância, me recompus e fechei a cara. A situação
era grave e exigia decisão imediata. Descartei rápido as alternativas (c) e
(d).
Fiquei restrito às (a) e (b).
A alternativa (b) - assumir a autoridade outorgada - me
fascinava e, ao mesmo tempo, provocava calafrios na arruela.
Em BQ, nunca havia tido a oportunidade de mostrar a
verdadeira dimensão de minha autoridade.
Até então, tinha exercido o comando do Corpo de Alunos - como
Aluno-de-Dia - apenas uma vez. Um desastre. Passei as 24 horas mais longas de
minha vida militar. Um dia inteiro servindo de alvo fixo, exposto à ação de
nabas dos mais variados formatos e tamanhos.
Terminado o serviço, eu me considerei vitorioso, por ter
sido alvejado por apenas uma delas. Troquei o uniforme de serviço pelo de
prisão (o décimo uniforme). Sofri, nos assentamentos, prejuízo de apenas 2 P
(dois dias de prisão). Dadas as circunstâncias, um milagre.
Agora, o sargento me proporcionava as condições adequadas
para uma redenção pessoal: no quartel, ninguém me conhecia como golpista,
desconceito ou japona-de-manteiga. Ali, eu era um representante da Aeronáutica.
Estava no nível do Sr. Eduardo Gomes.
Por outro lado, aquela era a Casa de Duque de Caxias. O
templo sagrado da hierarquia e da disciplina. Uma transgressão tão simples
quanto mexer em forma poderia assumir proporções de atentado à segurança
nacional.
Se descobrissem que minha autoridade não se segurava em pé,
não sobraria pedra sobre pedra.
Tremi em pensar na possível redação que dariam ao Boletim,
em sua Quarta Parte - Justiça e Disciplina:
"Utilização de falsa identidade, com objetivo de
usurpação de poder e subversão da ordem militar".
Em termos práticos e objetivos, a punição provável seria:
perda irreversível da capacidade de sentar.
Pesadas a vantagem - oportunidade sui generis de uso da
autoridade - e a desvantagem - risco de danos irreparáveis à arruela - decidi:
cravei um "X" na alternativa (b).
Se o sargento me fez autoridade, autoridade eu era. Não o
decepcionaria.
Já na condição de maior autoridade presente no quartel,
comuniquei ao sargento que vistoriaria a tropa, antes da desmobilização.
Fi-lo acompanhar-me.
Em grande estilo, marchamos perfilados pelas instalações do quartel,
em direção ao Pátio da Bandeira.
No caminho, não resisti à tentação de aplicar um pequeno
teste em seus reflexos: adiantei dissimuladamente o passo, de forma a deixá-lo
defasado.
Prontamente, o valoroso sargento fez o contra-tempo e
corrigiu o passo, com a naturalidade de quem chupa uma laranja e o garbo digno
da elite da Infantaria de Guarda.
No Pátio da Bandeira, estava a tropa, formada, em rigorosa
posição de Sentido.
Mal chegamos, o sargento comandou:
-Pelotão a meu comando. Pelotãããããão Ssscaaan-sar!!!
O pelotão assumiu a posição de Descansar.
-Pelotããão Ssssssentido!!!
O pelotão voltou à posição de Sentido.
O sargento virou-se para o modesto ensaísta e, em
continência, afirmou:
-Cadete, passo-lhe o comando do pelotão para revista.
Naquele momento, o peso da responsabilidade tornou-se quase
insuportável. Eu já estava envolvido até o pescoço, qualquer que fosse o
desfecho. Não podia mais recuar. Só havia um caminho a seguir: acreditar
cegamente na minha autoridade e utilizá-la em toda a sua plenitude. Morrer por
ela, se necessário.
Amarrei mais ainda a cara e gritei:
-Perfeitamente, sargento. Comando recebido.
Isto posto, fiz uma pequena incursão semi-suicida no meio da
tropa. Inspecionei barbas, bibicos, cintos e borzeguins.
Não vi irregularidades. A tropa estava afiada.
Mas isso me deixava meio vulnerável.
Lá em BQ, aprendi que toda revista, para ter credibilidade,
tem que pegar alguma não-conformidade. Alguém sempre tem que levar um fumo de
rola. Nem que seja para justificar a operação.
Autorizar o fora-de-forma direto, sem aplicar ao menos uma
mijadinha em alguém soava tão incoerente como dar um golpe na aula de Educação
Física para fazer suga no banheiro.
Voltei a me embrenhar no meio da tropa. Em BQ, também
aprendi que era exatamente ali, no meio, que se escondiam as mazelas das
esquadrilhas.
Era mandamento básico dos proscritos deixar sempre as
extremidades para os colegas bem conceituados. Somente eles tinham cuecas à
prova de nabas.
Eu próprio adotava esse procedimento quando, dando golpe no
próprio golpe, comparecia às formaturas.
Focalizei o periscópio num soldado de biótipo indígena e
estatura média, que estava mais ou menos na quarta linha da terceira coluna.
Enquanto ele permanecia imóvel como estátua, executei a
inspeção, de cima para baixo: bibico ok; barba sem problemas (para azar meu, o
homem era imberbe); camisa limpa, passada e engomada; calça, pulei esse item;
achei a verificação inconveniente; borzeguim padrão.
Estava difícil fazer algum reparo. O soldado dignificava o
nome do patrono de sua instituição.
Mas eu me sentia acuado. Encontrar uma não-conformidade já
era questão de sobrevivência.
Então, falei:
-Muito bem, soldado. Você consegue ver o ombro do segundo
homem à sua frente?
Não sei se ele entendeu a pergunta. Mas, enfaticamente,
gritou:
-Sim, senhor!!!
Foi como se houvesse jogado a corda para me salvar do
naufrágio.
Concluí:
-Muito bem soldado. Apresentação padrão. Masssssss, precisa
aprender a cobrir.
Para evitar quaisquer especulações em torno de minhas
palavras, comandei abruptamente:
-Pelotããããão. Fora de Forma. Aisssh!!!!!
O pelotão se dispersou.
Somente então, percebi que aqueles últimos momentos de
tensão me haviam convulsionado as tubulações.
Evacuei rapidamente o Pátio da Bandeira (note-se: evacuei o
Pátio e não evacuei no Pátio) e voltei ao banheiro do alojamento, para
descarregar o caminhão.
Terminada a operação, observei que meu relógio Cyma
recém-adquirido de um companheiro por trinta dinheiros, já marcava 18h45.
Lembrei-me de Iracema e do encontro marcado para as 18h30.
Mas essa é outra história.
Joner 66-003