Reminiscências
XI - Recepção no
Quartel
Outubro de 1967, sábado, 17h10.
Desembarcamos na rodoviária de São João del Rey.
Olímpio e Morresi cumprimentavam o camofo da poltrona 10
pelo sentido de cooperação, que permitiu levar a bom termo o compartilhamento
da poltrona.
Foi um exemplo perfeito de como funciona a técnica de
negociação, hoje tão propalada nos cursos de sociologia organizacional. Cada
parte cedeu um pouco, para o bem comum: o camofo cedeu a poltrona para repouso
de Olímpio. Olímpio cedeu o corpo para repouso na poltrona.
Enquanto os três continuavam naquela conversa de
cerca-Lourenço, este modesto ensaísta observava as meninas recém-desembarcadas
de outro ônibus, proveniente de Ubá.
Necessitava urgentemente pontuar, para recuperar a
auto-estima.
Minha última operação bem sucedida tinha sido o golpe no
rancho de meio-dia. Há mais de 5 (cinco) horas, só vinha tomando bola nas
costas. Como preconiza Jão da Moóca, até paciência tem limite.
Apontei o periscópio para uma das meninas do grupo. Era uma
bela morena com lábios de mel e cabelos mais negros que a asa da graúna, como
dizia Quincas-Pau-Duro enquanto acariciava o próprio, em seus rompantes acessos
de tesão literário por Iracema de José de Alencar.
Ajeitei o quepe, apertei o nó da gravata, reposicionei o
flap e fiz minha discreta abordagem.
Apresentei-me como Cadete Aviador da valorosa Força Aérea
nacional-brasileira em missão na cidade, junto ao comando do exército idem.
Estava acompanhado por dois subordinados e...
Quando cheguei nesse ponto, percebi que Olímpio e Morresi já
tinham sentido o cheiro de carne fresca e marchavam sequiosos em nossa direção.
Só tive tempo para agendar um reencontro às 18h30 na própria
rodoviária e decretar um "fora de forma" extemporâneo.
Marchei em direção aos voluptuosos colegas. Encontrei-os no
meio do caminho.
Antes que me transformassem em outro camofo da poltrona 10,
fui logo inventando que o ônibus já ia voltar para Ubá, e que daquele mato não
saía coelho.
Eles aceitaram meus argumentos.
Juntos, seguimos em busca do quartel.
O Quartel do Exército ficava no topo de uma colina, há cerca
de 100 m da base.
Da entrada, o sentinela observava zelosamente os transeuntes
que caminhavam na rua embaixo.
Quando alguém não uniformizado em verde-oliva começava a
subir a colina, o sentinela assumia prontamente a posição de Sentido e, alto e
em bom som, ordenava-o a parar imediatamente e a identificar-se.
O sentinela - provavelmente um jovem de 19 ou 20 anos -
exorbitava no cumprimento do dever. Seu brado de "pare e
identifique-se" soava aos ouvidos do pseudo-invasor, como um aviso de que,
a qualquer momento, mandaria chumbo grosso.
Um civil distraído, surpreendido nessa situação, teria
grande dificuldade em explicar-se.
Mas nós não éramos civis nem estávamos distraídos.
Éramos muito bem treinados para suportar situações de
pressão, ou situações que exigissem um reflexo na ponta dos cascos.
Primeiro, por que éramos Cadetes Aviadores da Força Aérea
Brasileira, desde quando ultrapassamos o Portão da Guarda da EPCAR.
Segundo, por que já tínhamos sobrevivido a Cabangu/66. Lá,
em diversas ocasiões, nos vimos à frente de canos de mosquetão nervosos,
prontos para cuspir balas de festim, se não falássemos sem gaguejar a senha
"NOITE DE LUAR UM DOIS TRÊS".
Terceiro, tínhamos nossos reflexos diariamente postos à
prova pelos próprios colegas, em situações cada vez mais adversas.
Senão, vejamos:
-No primeiro semestre de 1966, os comandos de REFLEXO!!!
eram seguidos de descrições informativas do nome e das dimensões do objeto a
ser lançado na direção do aluno-alvo. Os objetos lançados eram de pequenas
dimensões e pequeno valor, para evitar acidentes e prejuízos.
O aluno-alvo tinha bastante tempo para se mobilizar e pegar
o objeto lançado, antes de ser atingido. Em caso de falhas, o único prejuízo
possível era uma pequena mancha no prestígio de seu reflexo. Quando essas
manchas começavam a se acumular, os lançadores de objetos (que se
autodenominavam "checadores de reflexos"), começavam a espalhar, na
boca pequena, o bizu de que o aluno-alvo não sairia aviador, por que sofria de
"retardamento no tempo de resposta a estímulos". Isso era pior que
xingar a mãe.
Lembro-me do Magalhofo Camofodinha, dizendo:
"REFLEXO!!!, 03. Segue um pedaço de giz de 4 cm em sua direção". E
mandava o giz, com certa contundência. Mas era mole.
-No segundo semestre de 1966, os objetos já tinham certo
porte. Além disso, foram suprimidas as descrições informativas. Havia apenas o
comando. REFLEXO!!!. Dependendo das circunstâncias, o aluno-alvo tinha que
decidir entre pegar o objeto ou desviar-se dele.
Em minhas reminiscências pessoais, consta que o hoje Sr.
Brito (na época bicho Otto Leal) se destacava como um dos grandes lançadores de
apagador. Tal como o Sentinela de São João del Rey, às vezes exorbitava no
nível de exigência.
Certa vez, numa noite de encornação para a prova de Física,
resolveu inverter a ordem: primeiro, lançou o apagador na minha direção.
Somente quando este já estava a caminho, emitiu o comando REFLEXO!!! Como eu
estava de costas, só tive tempo de me jogar no chão. O apagador passou batido e
foi explodir no quadro-negro.
Questionado sobre o nível de exigência do teste o bicho Otto
Leal, como típico bem-humorado C.D.F., esclareceu que, além de observar meu
tempo de reação, queria testar a velocidade de propagação do som.
-No primeiro semestre de 1967, chegamos ao estado de
mobilização permanente. Além da obrigatoriedade de mantermos os reflexos no
limite máximo, deveríamos estar sempre alertas para enfrentar situações de
stress. As próprias aulas de Instrução Militar, acompanhadas de filmes sobre a
Segunda Guerra, ajudavam a reforçar essa tendência. O Cap. Pliópas exaltava as
cenas em que os pilotos da RAF eram atacados enquanto dormiam e, em pouquíssimo
tempo, colocavam seus aviões no ar em condições de combater.
Houve uma fase em que, até durante o sono, a rapaziada
ficava semi-mobilizada.
Uma vez, por volta de meia-noite, sonhei que alguém ia jogar
alguma coisa em mim, enquanto estava dormindo. Rapidinho, pulei da cama. Só
então percebi que não era sonho. Tinham "deixado cair" uma mochila no
meio da cama. Na escuridão, vi diversos vultos correndo.
O plantão do alojamento não viu porra nenhuma E o caso nunca
foi esclarecido.
Por tudo isso, não seria um simples Sentinela megalomaníaco
que iria nos intimidar. Se ele era maluco, nós éramos aviadores.
Mal ele assumiu a posição de Sentido lá no topo da colina,
nós também a assumimos aqui na base, com uma puta porrada no chão, como se
estivéssemos passando o serviço diante do Cap. Sampaio.
Quando ele gritou para que nos identificássemos, nós três,
ao mesmo tempo, em altíssimo e ótimo som, derramamos nossa contundente
verborragia identificatória:
CADETE CA 66 CA DE DE CA 03 150 TE 243 OLÍM JONER PIO MORRE
DA SI DA DA PRIMEI PRI RA MEI ESQUA PRI MEI DRI DRI LHA DRI DO PRIMEIRO ESQUADRÃO
etc...
O som da verborragia era ininteligível. Mas o efeito
pirotécnico fez o sentinela megalomaníaco voltar a seu tamanho natural. Com
certeza, causamos uma excelente impressão.
O sentinela convidou-nos a subir.
Uma vez no Quartel, fomos muito bem recepcionados pelo
Oficial de Dia, um Tenente de cerca de 26 anos. Apresentou-nos, de forma
abrangente, as instalações gerais e, de forma detalhada, as que seriam
particularmente utilizadas pelos nobres representantes da Aeronáutica:
alojamento, rancho e cassino dos oficiais.
Coisa de primeiro mundo, sobretudo se levássemos em
consideração que, na vida real, éramos simples alunos segundanistas que tinham
abaixo de si apenas o bicharal de 67.
Enquanto o Tenente apresentava o alojamento e suas
confortáveis camas Morresi, discreta e furtivamente, pisava em meu pé, para
expressar seu deslumbramento. Fiz algum esforço para não rir e prossegui atento
à apresentação.
No rancho, causou-me certa embriaguez o cheiro de bife
acebolado que vinha da cozinha. Passou-me pela cabeça o dia-a-dia de golpista
na Escola, tendo que sobreviver às nabas de todos os calibres e extensões, para
descolar um pentelhésimo quinhão de palmito e dois nacos de sola de borzeguim.
Agora, sem nabas nem atropelos, saborearíamos uma generosa fatia de gorduroso
bife, acompanhada de acessórios nunca dantes comidos. Não me contive. Iniciei o
processo de salivação e dei uma bicuda no calcanhar de Olímpio. Este assimilou
bem o golpe, e acenou-me para baixar a bola e continuar atento à exposição.
No cassino, havia uma mesa de sinuca tamanho oficial com
feltro de primeira. Os tacos e as bolas estavam ali, disponíveis. E não havia
ninguém da Sociedade Acadêmica para dar um lance ou encher o saco da junta.
Ali, Olímpio pisou no tomate pela primeira vez.
Enquanto o Tenente falava, ele não resistiu à tentação de
experimentar uma tacada: colocou a bola cinco no centro da mesa, colocou a bola
zero meio enviesada, deu uma meia-porrada na orelha da bola cinco e acertou a
caçapa do meio. Jogada digna de Naka, de Armando ou do saudoso Santanna. Coisa
rara, em se tratando de Olímpio. Uma cagada, se me permitem.
Orgulhoso, comentou:
"Impressionante. Não tem nenhuma descaída!!".
Pela primeira vez, apliquei-lhe o corretivo que ele próprio
preconizava. Recomendei-lhe controlar as emoções para manter a boa imagem da
Força Aérea, e seguir demonstrando atenção para com o Tenente.
Terminada a exposição, o Tenente deixou-nos a sós e deu uma
saída à cidade.
Acomodamo-nos no alojamento, trocamos o Quinto "A"
por roupa civil - para evitarmos eventuais exposições às nabas verdes-oliva - e
fomos ao rancho, para curtir as benesses gastronômicas reservadas ao
oficialato.
De barriga cheia, optamos pela dispersão temporária do
grupo. Voltaríamos a nos reunir às 21h00 na rua embaixo, em frente ao quartel.
Olímpio e Morresi foram bater uma sinuca no cassino e o
modesto ensaísta dirigiu-se à rodoviária, a fim de cumprir seu destino com
Iracema.
Mas essa é outra história.
Joner 66-003