Reminiscências X  - Carona Rodoviária

 

Outubro de 1967, sábado, 13h00.

Éramos três: Morresi, Olimpio e o modesto ensaísta.

Reunimo-nos à porta do alojamento e, alinhados, iniciamos nossa caminhada rumo ao ponto "a" da rodovia BQ-São João. Tomamos o corredor marginal ao alojamento, passamos pelo depósito de material bélico, pela barbearia, e ganhamos a frente da escola. Ali, encontramos algumas nabas ocasionais. Imediatamente, troquei o passo e entrei na cauda dos companheiros, para não ser vislumbrado, no detalhe, com aquele uniforme ridículo. Batemos as continências costumeiras e reassumimos a formação inicial. Trespassamos o portão da guarda sem sobressaltos, atravessamos a linha do trem, margeamos a praça de esportes, viramos à direita e seguimos para a estrada.

No trajeto, tomamos a primeira providência radical: autopromoção do grupo à condição de "Cadetes da Força Aérea Brasileira". Questão de marketing pessoal para consumo do público externo.

Depois, trocamos idéias sobre nossas expectativas das próximas 36 horas.

Eu estava mais feliz que pinto no lixo. Era o mais otimista. Pegaria carona em automóvel último tipo. De preferência um Volkswagen ano 67, com motor 1300, igualzinho ao do pai de Ozéas. Desembarcaria triunfalmente dentro do Quartel do Exército. Executaria rapidamente as formalidades de praxe e passaria em revista a tropa. Comandar-lhe-ia o "fora de forma" e cumpriria meu sacrossanto destino de morder todos os biscoitos da cidade histórica.

Comedido, Olímpio recomendava calma. Dizia que eu estava falando muito alto. Deveria controlar minhas emoções, baixar a voz e, suavemente, morder um biscoito de cada vez. Com determinação, mas sem alopração.

Morresi estava confiante. Tinha bala na agulha. Dançava bem e sabia tocar (no bom sentido) canções italianas ao piano. Com esse pedigree, seu futuro era promissor.

Precisamente às 13h30, já estávamos na rodovia.

Concentramo-nos em local estratégico e aguardamos a chegada da viatura particular que teria a honra de levar-nos ao paraíso.

Os primeiros veículos que passaram não atendiam aos requisitos mínimos. Como recém-proclamados cadetes aviadores, exigíamos um confortável automóvel ano 67. Éramos rigorosos nesse aspecto. O que não era 67 era considerado carroça. Por isso, não nos demos sequer ao trabalho de acenar-lhes.

Às 14h00, por unanimidade, decidimos dar uma "acochambrada" no critério. Ampliamos a faixa de aceitação para "veículos da década de 60". Mas continuávamos irredutíveis nos requisitos automóvel e confortável. Paralelamente, passamos a fazer as primeiras abordagens convencionais. Recordem-se os leitores que essas operações eram realizadas de forma padronizada pelo Corpo de Alunos.

Senão, vejamos:

Step 1 - À aproximação do veículo, acenar conforme segue:

a)Dobrar o braço até que este forme, com o ante-braço, ângulo de 30 graus;

b)Cerrar o punho do braço dobrado;

c)Posicionar o polegar na direção da cidade-destino ;

Step 2 - À passagem do veículo, contar 3 segundos;

Step 3 - Simular uma caminhada (em marcha acelerada) na direção do veículo;

Step 4 - Caso o veículo reduza a velocidade, continuar a marcha até a abordagem; o motorista mordeu a isca;

Step 5 - Caso o veículo mantenha ou aumente a velocidade, voltar ao Step 1;

Às 14h30, decidimos radicalizar na acochambração do critério: passamos a aceitar qualquer coisa semovente que nos tirasse dali. Também mudamos a tática. A abordagem em grupo não estava dando os resultados esperados. Continuaríamos a atuar em equipe, mas apenas um dos elementos executaria o procedimento-padrão. Os demais só apareceriam se o chauffeur mordesse a isca.

Às 15h08, finalmente, um grande e confortável veículo parou a 20 m de nosso posto, sem sequer havermos executado o step1. Era o ônibus da linha regular Barbacena-São João que deixara a estação rodoviária de BQ às 15h00.

O motorista encostou a viatura e abriu a porta. Já cansados e de saco cheio, interpretamos esse gesto como uma puta cortesia para com a F.A.B. Subimos a escada, enquanto o secretário do motorista sacava e nos entregava três bilhetes, mediante pagamento à vista.

Sentimo-nos aliviados. Tomamos um prejuízo inesperado mas, em compensação, viajaríamos confortavelmente instalados.

Quando íamos ocupar nossos assentos, o secretário comentou:

"Se os senhores houvessem tomado o ônibus na rodoviária, poderiam viajar sentados. Tinha uns 10 lugares lá".

Só então constatamos que os 36 assentos estavam ocupados. E já havia 3 camofos em pé, lá no fundo.

Conferimos os bilhetes. No campo onde deveria colocar o número do assento, o secretário tinha marcado um "X". Isso significava "sem direito a assento".

Naquele momento, fiquei com fortes tendências aloprativas. Mas procurei "controlar as emoções", conforme a recomendação do companheiro.

Ao ver o "X" marcado em nossos bilhetes, Olímpio entortou a boca e, por entre os dentes caninos rigorosamente fora do alinhamento, soprou-nos ao pé do ouvido:

"Calma, que aqui tem espaço prá negociação".

Não entendi o comentário. Mas aquele bafo seco em forma de rajadas me transmitiam certa confiança. Acreditei.

Adentramos, e nos juntamos ao camofal de pé, no fundo.

Isto feito, Olímpio pediu-nos para aguardar um momento, e foi confabular com o camofo que estava sentado na poltrona número 10.

Conversaram durante uns 5 minutos. Decorrido esse tempo, ambos (Olímpio e o camofo-dono da poltrona 10) levantaram o polegar, dando a entender que finalizaram um acordo.

De volta ao fundo do ônibus, Olímpio voltou a entortar a boca e a soltar novas rajadas (dessa vez, acompanhadas de micro-salpicos de saliva):

-Tá tudo certo.

Intrigado, perguntei-lhe:

-Certo o que?

Respondeu:

-Ele fica mais 10 minutos, depois é minha vez.

-Quer dizer que o camofo vai saltar?

-Não. Vem prá cá.

-Ele vai ficar em pé, aqui no fundo?

-Claro.

-O que é que você falou prá ele?

-Primeiro eu perguntei se ele estava na poltrona certa. Ele disse que sim, a dele é a 10. Eu pedi prá ver o bilhete. Tava lá. Número 10. Aí eu disse que também tinha a poltrona 10. Prá não haver dúvida, mostrei o bilhete. Tava lá. Poltrona "X". 10 em algarismo romano. Ele achou estranho. Eu também. Mas eu disse que não vale a pena criar problemas com a empresa. Ele fica mais um pouco e depois a gente troca.

10 minutos depois, o bom-camofo juntou-se a nós, no fundo, enquanto Dentinho passava a desfrutar o conforto da poltrona número 10.

Aquela situação estava me deixando meio puto:

Desde quando envergara o uniforme de Pedro Paulo, só tinha levado fumo: sem Volks 1300/67, sem carona, sem o dinheiro da passagem, viajando em pé.

Como Arthuro Ximbanski (66-025), eu me sentia "o último animal da escala zoológica".

Morresi era um caso à parte. Mantinha seu bom humor imune às vicissitudes das contingências. Limitava-se a sorrir sempre, transmitindo a confiança de que, no final, é ele que vai dançar a valsa.

Enquanto isso, Dentinho aprofundava seu relax e já dormia plácida e escandalosamente, como se estivesse em plena aula de Filosofia.

Assim chegamos a São João del Rey.

Mal desembarcamos na rodoviária, o clima mudou.

Simultaneamente com nosso ônibus, chegou outro, de Ubá, e descarregou na cidade histórica 36 estudantes do belo sexo.

Este modesto ensaísta ressurgiu das cinzas, como se houvesse recebido uma dose cavalar de adrenalina diretamente na veia.

Mas essa é outra história.

Joner 66-003