Reminiscências IX - A caminho de São João del Rey

 

Outubro de 1967.

Minha primeira viagem a São João del Rey foi marcada por sucessos e fracassos. Na fase de preparação, a primeira tarefa foi definir quais alunos participariam do evento. A equipe deveria ser a menor possível, já que a cidade era área de preservação ambiental. Nada de Ruys de Oliveiras, Tainhas, Jacarés e outros do gênero. Morresi (Pé-de-Valsa) descobriu (ou inventou) o índice 14 por 1. Logo, não poderia ficar de fora. Olímpio-Dentinho tinha tradição em operações sexuais aleatórias. Era imprescindível. O modesto ensaísta tinha que documentar esse fato para a eternidade. Então, com licença. Chega! Não havia espaço para mais ninguém. O time estava completo. Pé-de-Valsa, Morresi e o modesto ensaísta. Na primeira reunião de trabalho, definimos:

 a)O Ponto de Encontro - porta do alojamento;

b)A hora - imediatamente após o rancho de meio-dia de sábado;

c)O local de partida - entrada da rodovia;

d)O uniforme I - Quinto "A" (com luva);e)O uniforme II - Calça de tergal + blusão de vôo piruado;

f)O meio de transporte - carona rodoviária.

No "briefing", ficou claro: sendo o mais antigo, eu deveria assumir o comando. Mas, por incompetência, abria mão dessa prerrogativa em favor do grupo. Atuaríamos democraticamente. Seríamos uma junta com três membros plenipotenciários, e não três membros impotentes atuando na junta. Na sexta-feira - véspera do dia "D" - decidi verificar o estado geral do uniforme. Essa medida era absolutamente necessária. Afinal, os membros da junta buscariam hospedagem em pleno Quartel do Exército, o reduto do Sr. Luís Alves de Lima e Silva. Chamá-lo de Caxias seria "pleonasmo altamente vicioso", como diria nosso brilhante professor de português QPD (Quincas-Pau-Duro). Hospedar-se na casa do próprio Caxias seria coisa de muita responsabilidade para um aluno que carregava as pechas de "coceba", "desconceito" e "japona-de-manteiga".  Para a junta, impecabilidade era a palavra de ordem. Para mim, era uma questão de honra. Meu pobre Quinto "A" já estava fora de operação desde 07/09. Após o desfile tradicional do Dia da Independência, eu o utilizara para aplicar um GP (Golpe Publicitário) nas irmãs vibradoras de alguns companheiros que visitavam a Escola. O GP não deu resultado por que os pirus tradicionais (aquele pessoal da Sociedade Acadêmica) tinham feito um bom trabalho (bom para eles) de boca-de-urna. Inconformado, joguei o uniforme no armário, sem pensar que um mês depois ele poderia abrir-me as portas de São João del Rey.  O Quinto "A" estava bastante prejudicado. Das principais peças do kit (quepe + calça + paletó + luvas + sapatos), somente o quepe e as luvas estavam em condições de uso.  Os sapatos, embora com aparência morfética-calamitosa, poderiam ser recuperados a tempo. Com uma boa dose de Nugget, piruada no armário ao lado, eles voltariam a parecer sapatos.  Já a calça e o paletó eram verdadeiros "maracujás-de-gaveta". Necessitavam de um trabalho especializado somente possível na lavanderia. Como já estávamos na véspera da viagem, não mais havia possibilidade de utilizá-los. Só me restava a alternativa da piruação. Lembrem-se os leitores que, no dicionário dos alunos, piruação não significava apenas "o ato de adquirir bens ou direitos de terceiros". O termo tinha conotação muito mais profunda. Os aspectos ético, legal e social estavam implícitos. Com a licença do nosso eminente jurista Dibe (o criador dos amplexos fraternais), eu ousaria definir piruação como um "direito intrínseco e inalienável de qualquer aluno". O conceito de piruação conflitava e, por isso mesmo, revogava o conceito de propriedade. Em termos práticos, isso quer dizer que: todo e qualquer aluno, pelo simples fato de ser aluno, disponibilizava automaticamente seus bens e direitos à piruação alheia. Quem pirua tem sempre prioridade. Piruou, levou. Esse conceito estava arraigado não só no corpo de alunos, como também entre alguns professores mais esclarecidos. Apenas como exemplo ilustrativo, recordo que, na turma A-1 (em 1966), o professor de matemática apresentou o seguinte problema ao então bicho 66-023 Dantogles:  "Num supermercado, há duas latas cilíndricas com o mesmo preço e a mesma mercadoria. A primeira, tem 5cm de raio e 10cm de altura. A segunda, tem 10 cm de raio e 5 cm de altura. Com qual delas você ficaria?"  Depois de fazer muita conta, Dantogles saíu com essa pérola: "Eu ficaria com a primeira". "Mas piruaria a segunda". A resposta foi exaltada ostensivamente pela bicharada. Tenho vivas na memória as gargalhadas grotescas de Brucutu, Dum-Dum, Oswaldo (Mão-de-Pilão), Jordaço (ainda na fase pré-pilotão) e Etienne (antes de trocar o nome de guerra para QUEIJAS!!!). Mui discretamente, o mestre homologou a resposta. Mesmo sendo bicho, Dantogles teve seu direito de piruação aclamado. Faltavam-me a calça e o paletó do Quinto "A". Bastavam-me então identificar um aluno com biótipo semelhante ao meu e aplicar-lhe a "lei da piruação universal".  No atacado, 66-102 Pedro Paulo de Menezes (posteriormente auto-intitulado Menezão) atendia às especificações. Seus números coincidiam com os meus: 1,78 m, cerca de 70 kg.  Abordei-o e disse-lhe: -Piruei seu Quinto "A". Ele levantou as mãos e perguntou:-Todo? Eu: -Não; só a calça e o paletó  Peguei o material e, cuidadosamente, guardei no armário.Terminado o rancho de sábado, voltei ao alojamento, vesti meu novíssimo uniforme e fui conferir o resultado no espelho do banheiro. Minha imagem estava perfeita. Padrão Gastaldoni.  Nunca me senti tão aluno. Pelo menos naquele instante, eu teria a coragem de enfrentar tête-à-tête o Cap. Sampaio e bater-lhe uma continência de macho. Estava orgulhoso e confiante. Dirigi-me (em passo de marcha) à porta do alojamento, onde já estavam os demais membros da junta. Ao ver-me, Morresi questionou:-O que é que é isso, Zero? Onde você piruou essa coisa?Não entendi a pergunta e, por isso, não respondi.Insistente, Morresi virou-se para Olímpio e perguntou:

-Diz aí, Olímpio. O que é que você acha?

Com sua irreverência professoral, Dentinho esclareceu:

-Pode até ser defeito de alfaiate. Mas eu acho que o dono do paletó é da P.A., e a calça só pode ser do Perréu..

Não gostei da retórica.

Em marcha acelerada, voltei ao espelho do alojamento para reconferir a imagem.

Olímpio estava certo. A escolha de Pedro Paulo como fornecedor do Quinto A não tinha sido tão feliz como eu pensava.

No atacado (peso e altura) nossas medidas eram parecidas. Mas só no atacado.

Já no varejo, havia diferenças inconciliáveis.

Recordem-se os leitores que o 66-102 tinha uma estrutura física atípica. Da cintura prá cima, era um atleta do nível de Bissaco ou Pinto Machado. Da cintura prá baixo, ele era sustentado por um par de estacas de finíssimo calibre somente comparáveis às canetinhas de Perréu. O homem tinha peito de elefante e canela de sabiá.

Em seu uniforme, sobrava-me paletó e faltava-me calça.

Olhando bem, não dava para encarar nem o Sargento Abdalla..

Mas, àquela altura do campeonato, eu não podia recuar.

Com passos firmes, reincorporei-me à junta, e partimos para a estrada.

São João del Rey, here we go.

Mas essa é outra história.

66-003 Joner

 

 oops!!!,

 
Comandante Joner,
 
Depois de uma semana de ausencia, estou podendo me dedicar novamente a uma atividade que vem me proporcionando crescente satisfacao: ler as 
mensagens da turma e ter o privilegio de saborear mais uma de suas 
preciosas e divertidissimas cronicas.
 
Apesar da minha memoria ser reconhecidamente pouco privilegiada para 
alguns tipos de acontecimentos ("selective", segundo minha ex americana, 
o que nao deixa de ter as suas vantagens) e muito boa para outros (e.g.: 
datas, numeros de telefone, etc, o que, decididamente, nunca me ajudou 
muito), eu juro que podia me ver marchando com voces para pegar carona 
com destino a Sao Joao del Rey. Aguardo, ansiosamente, "Reminiscencias 
X".
Querido Olímpio
Minha ex-esposa e eu estamos de corações abertos para receber 
Sweet Katia e você na outrora cidade maravilhosa.
Sempre.
Aguardamos contato.
Joner  66-003