Reminiscências VII

Final de 1967. Dizia-se à boca pequena que, em BQ, havia 7 mulheres para cada homem. Sempre desconfiei desse número. Nunca soube como foi feita a pesquisa.

Nunca me esclareceram se ela abrangia todas as classes sociais e faixas etárias, se incluía os alunos da EPCAR não residentes em BQ, se incluía os malucos do hospício.

Mas eu tinha que respeitar o número. Afinal, estávamos em pleno apogeu da ditadura e o respeito era um fim em si mesmo.

 

Entretanto a realidade das ruas mostrava um quadro diferente, bastante segmentado. Senão, vejamos:

Nas noitadas do Candelabro (ou Gino's), o índice bruto nunca passou de 2,3 por 1. Como se isso não bastasse, o local era muito freqüentado por Ruy, Azzi, Murad, Morresi, Cosme, Fefê, Vilarinho e outras figuras carimbadas da Escola. Indivíduos que, além de oligopolizarem o camofal da high society, bloqueavam o acesso aos menos favorecidos. Gozavam da fama de bons gourmets. Consumiam muito além da cota média. Resultado: o índice líquido (número de camofas líquidas dividido pelo número de alunos descomprometidos) despencava para 0,7.

Como nenhum aluno conseguia abordar 0,7 garota, o mercado estava literalmente trancado.

Os analistas diziam que, quando o índice oscilava entre 0(zero) e 1(um), a situação era de miséria absoluta. Era hora de botar a viola no saco e buscar outro segmento.

Nos bailes rotineiros dos clubes convencionais (Barbacenense, Olympic e outros), observava-se o número cabalístico de 3,2. Não havia variações entre o bruto e o líquido. Se por um lado o local era freqüentado por figuras carimbadas do segundo escalão com alto poder de fogo (Pinto, Bizzi, Maluquinho, Xixigirl, Callado, Ratão, Leitão etc), por outro lado também lá estavam os figurantes não-comedores, aqueles que atuavam como massa de manobra. Aumentando o denominador da fração, prestavam um grande serviço à ciência estatística, sem interferirem na vida das pessoas.

O professor de química (não me lembro o nome) chamá-los-ia de catalisadores, uma vez que ''contribuíam para acelerar a reação, mas não participavam dela''.

Sintetizando: os observadores internacionais garantiam que 3,2 era o número ideal para representar esse segmento mercadológico;.Nas ruas vicinais que circundavam a Escola, verificava-se a precisa marca de 6,785 camofas per capita. Eram os points de Barbacena com maior abundância de recursos. Qualquer precadete podia permitir-se o requinte de desprezar 0,785 garota e ainda ter à sua disposição 6(seis) transeuntes inteiras para seu bel prazer. Nessa faixa de mercado, atuava o time do terceiro escalão, integrado pelos legendários Zé Carioca, Sapuru, Rabiola, Tainha, Papácu, Bolzan, Olímpio-Dentinho e este modesto ensaísta, entre outras não menos valorosas personalidades. Os três segmentos não eram estanques, isolados.

 

Havia certa conectividade (desculpem invadir sua área, Otto e Olímpio) entre eles. Numa típica operação de downgrading, o sr. Ruy de Oliveira (militante contumaz na vertente política da high society) já foi visto circulando por veredas mal iluminadas, tentando descolar bocas-de-cabelo privativas do terceiro escalão. Por outro lado, este modesto ensaísta eventualmente adentrava o Candelabro (Gino's) para abocanhar um pedaço de pizza. Mas toda essa parafernália teórica era inútil.

A única verdade absoluta era que Barbacena tinha 7 mulheres para cada homem. Estava na Lei (desculpe, Mr. Dib). Esse era o cenário vigente quando, no fim de 1967, Morresi me fez a seguinte confidência, ao pé do ouvido: ''Zero três, descobri uma cidade perto daqui que tem 14 mulheres para cada homem''. Eu lhe perguntei: -Quanto? Ele respondeu: -Quatorze mulheres p/ homem. -Qual a cidade? -São João del Rey.

Essa revelação soou como uma bomba, um furo de reportagem. Não somente pelo seu conteúdo, mas também pela procedência. Recordem-se os leitores que o sr. Morresi jogava no time do Gino's , o segmento cujo índice nunca passou de 2,3 camofas brutas per capita.

Para fazer carreira naquele ambiente de escassez, dever-se-ia ter, pelo menos, o curso de sobrevivência na selva. Além disso, Morresi tinha duas qualidades que eu pessoalmente invejava: a)Tocava (no bom sentido) um bom piano (também no bom sentido) - Quando suas mãos deslizavam pelo teclado, esculpindo canções como "Aldilà" e "Dio come ti amo" sob o olhar das meninas do Gino's, eu me perguntava: "Por que ele, e não eu?" b)Dançava direitinho - Fazia o dois prá lá dois prá cá mais elegante que já vi. Não sei de onde vinha tanta inspiração. O homem navegava pelo salão com a suavidade de uma pluma. E eu me perguntava: "Por que ele, e não eu?" Por tudo isso, recebi com muita seriedade a informação de 14 por 1 em São João del King. E fui conferir. Morresi tinha razão.

Realmente, o mercado São-Joanino apresentava grandes vantagens em relação ao de Barabacena.

Mas essa é outra história, como dizia Shirley Mac Lane no filme "Irma la Dulce".

66-003 Joner