Reminiscências V - Kaburé

 

Kaburê, Chez Gros-Rat, 23h45 de 28/11/98. Sentados, formávamos um círculo: autoridades cinqüentenárias, esposas, namoradas, filhos, enteados, amigos. Nas duas extremidades opostas (se é que um círculo tem extremidades), estavam os donos do espetáculo: Ruy de Oliveira (ex-beque parado, hoje apenas parado) e Calazans (ex-pé-de-mesa, hoje apenas uma incógnita). A formação da galera sugeria psicoterapia grupal, encontro de casais ou qualquer suga mental equivalente.Mas não era nada disso. Era um puta talk-show. Coisa de primeiro mundo. Oliver Ruy é hors-concours.Não como Tom Cavalcante, que repete gestos e falas de terceiros. Mr. Oliver incorpora os mais variados personagens, dando-lhes credibilidade e graça. Foi médico, paciente, comandante, português,Joãozinho, marido, amante. Abusou da arte de interpretar. Não é imitador. É comediante. Dito isso, solicito ao sr. Ruy para creditar o valor de meus honorários na C/C 7243-5 Ag. 0001-9 Banco do Brasil - Rio - Centro. Na outra extremidade do círculo (se é que círculo tem extremidade) estava o Pai Calazza, nosso Wilson Simonal que nunca foi preso. O cara canta paca. Mas não vou exagerar nos elogios. Poderia ser perda de tempo, já que não combinamos o valor dos honorários. Mesmo sem receber chongas, devo reconhecer que o pé-de-mesa transita fácilpela pop music. Enquanto Simona cantava (e muito bem, diga-se de passagem) a música "Travessia", a memória me proporcionava uma viagem virtual até o ano e 1968, trazendo novas reminiscências que me permito relatar aos colegas: Enfermaria da EPCAR, 1968. Hospitalizados (baixados enfermaria, como se dizia), estavam os seguintes Precadetes, e seus respectivos diagnósticos: Calazans - Cancro DuroJoner - Cancro Mole Nerosky - Gonorréia Kawase (*) - ChatoPerdigão (**) - Diagnóstico não confirmado de cancro duro, cancro mole, gonorréia, uretrite, e chato. (*) - Detentor do melhor currículo da turma de 66; useiro e veseiro na contração de enfermidades não convencionais; (**) - Detentor do melhor currículo da turma de 67; tinha armário e beliche cativos na enfermaria; era da casa. Vale destacar que, àquela época, ter doença venérea nos assentamentos médicos era símbolo de status. Ter cancro, seja ele mole ou duro, significava que pelo menos uma pessoa foi comida pelo doente. Ter chato, doença menos cotada no ranking, significava o seguinte: se não comeu ninguém, pelo menos militou na área. Provou que é do métier. Com essa visão distorcida, passei os 3 anos de BQ. Quando bicho, em 66, comecei a fazer as primeiras incursões na área. Andei mordendo alguns biscoitos ocasionais, de qualidade duvidosa. Zona? Nem pensar. Uma simples consulta poderia mutilar o combalido soldo da ordem de CR$ 5.000,00 (salvo pane de memória, somente mais tarde o General deu um tapa nos últimos três zeros, criando o NCR$). A melhor alternativa ainda era a linha férrea. Ali, havia pequenas sobras de carne deixadas pelos abutres de 65. Eles consideravam "material impróprio para o consumo". Eu considerava "a salvação da lavoura". Mesmo o "material inservível" era difícil de ser ingerido, por que: a)Egoismo dos abutres - Eles não comiam nem deixavam comer. E avisavam: "Quem fosse surpreendido com a mão na massa, trocaria de lado: ao invés de comedor, seria o comido"; b)Indisponibilidade de pontos de abordagem - A plataforma de acesso à linha do trem ficava infestada de abutres no horário nobre (entre 21h00 e 23h00). A simples presença de um deles inviabilizava a operação do bicharal; c)Falta de comida - Quando os abutres evacuavam a área, praticamente não havia mais carne no pedaço. O último rebanho já passou (elas ecerravam o expediente numa fábrica próxima às 22h00 e trespassavam a escola pela linha de trem na faixa das 22h20 às 23h00); sobravam apenas Jupira (que eu pessoalmente considerava material fora de especificação) e alguns carcomidos pedaços de Hilda ou Teresinha (caridosas bocas-de-caçapa que engoliam todas as bolas). d)Stress de linha - Uma vez estando "limpa" a plataforma e tendo a oportunidade de saltar na linha, o bicho-noviço era submetido a stress no limite do suportável. Tinha que perseguir a caça enquanto fugia dos caçadores (os tais abutres de 65 que eventualmente operavam na linha); tinha que comer sem ser comido; e)Cristalização na hora do abate - Superados os percalços acima enumerados, restava ao pobre precadete primeiranista o maior dos desafios: encontrar tesão suficiente para montar o acampamento, conectar o mangote e bombear o óleo. A estatística registra fracassos históricos, cuidadosamente mantidos longe do conhecimento público. Uns não conseguiam sequer levantar o pau da barraca; outros trabalhavam com a bandeira a meio pau, sem possibilidade de conexão; outros faziam tudo certinho, mas simplesmente não conseguiam transferir a propriedade do óleo. Acho que esse teria sido o caso de um saudoso amigo X, a quem o 66-102 (Pedro Paulo) diuturna e exaustivamente repetia esse refrão: "Aluno X, cujo pau se ouriça, se ouriça, mas não goza". Ao ouvir o refrão, eu me borrava de medo imaginando quão vilipendiado seria, caso meus acidentes de percurso se tornassem patrimônio da rapaziada. Segundo pseudo-anotações, minha performance em 1966 teria sido a seguinte: -Na cara do gol - 4 vezes; -Chutes prá fora - 1; -Defesas do goleiro - 1; -Vezes em que a bola entrou (caprichosamente, é bom que se diga) - 2 (*) (*) - Numa das vezes, vivi o mesmo drama do Aluno X; na outra, praticamente furei a rede, mesmo porque não posso perder todas.  Não pintou nada. Nem um chato, como troféu para afastar as gozações dos Pedros Paulos. Intimamente, eu me sentia inferiorizado. A auto-estima tava uma merda. Só conseguia levantar o moral quando me dava conta de que bicho não precisa de auto-estima. Veio o ano de 67. Abriram-se novas perspectivas de mercado. Os abutres de 65 se foram para os Afonsos, deixando em BQ alguns repes valorosos, que aumentaram a família 66. Agora, os abutres éramos nós. A tecnologia de abordagem na linha se tornou obsoleta. Passou a ser adotada apenas em ocasiões especiais, em operações de guerra. As zonas de BQ faziam promoções especiais na baixa temporada ou seja, nos dias de semana, após 22h00. As reduções de preço variavam de 10 a 100%, à medida que a noite avançava. As opções eram fartas: Rancho Alegre, Km60, Sayonara etc. Com os preços em queda (desculpe invadir sua área, professor Heron), a oferta em alta, e novas tecnologias disponíveis, não tive outra opção senão manter pressionado o gatilho da metralhadora até então reprimida pelos abutres de 65. Fora dos muros da Escola, agia instintivamente como doberman:atacava qualquer coisa semovente que usava saia e soltava cheiro. Não pelo simples prazer de atacar. Mas pelo nobre objetivo de comer. Resumindo: 67 foi um ano bastante profícuo, no que toca à atividade sexual. O mesmo não pode ser dito com relação à aquisição do símbolo de status. Eu consegui contrair uma gonorréia spot. Mas a contaminação se deu no banheiro do alojamento. Com a gonorréia, vieram o reconhecimento público e respeito dos ratos de zona. Eu me sentia desconfortável, porque o troféu não fora obtido no "front de combate". A auto-estima continuava uma merda. E eu não podia abrir mão dela, já que não era mais bicho. Veio 1968 e, com ele, a idade da razão. Nada de comportamento doberman, nada de comer por comer. Tinha que haver sentimento. Foi a fase dos grandes amores do Rancho Alegre, do Km-60, de Sayonara. Mulheres fantásticas, que vendiam seus corpos diversas vezes a cada noite, mas que se reservavam para dormir gratuitamente com seus amantes. Amavam como ninguém. Com uma delas - não me recordo o nome - vivi um mês de intensa relação meio platônica meio carnal. Relação tão intensa que me fez pensar em incluí-la como dependente na FAB, para efeito de assistência médica... De lembrança, deixou-me um presente inesquecível, objeto principal dessa reminiscência-suga: o cancro mole, que levantou minha auto-estima, desta vez adquirida em combate. Esse bem-vindo percalço me permitiu baixar enfermaria ao lado de monstros sagrados da promiscuidade juvenil: Calazans, Nerosky, Kawase e Perdigão.

Joner 66-003