Reminiscências
III
Voltando à explosão da caldeira, eu pergunto o seguinte:
a)Quem participou do golpe?
b)Quais os oficiais que adentraram o rancho?
c)Onde andam "Catão" e Olímpio?
d)Quem gritou: LÁ VEM A NABA?
e)Quem introduziu a expressão NABA na turma e qual o seu
real significado?
f)Quem foi atingido pela caldeira? A primeira questão foi
respondida em "Reminiscências II". Passemos à
b)Quais os oficiais que adentraram o rancho? Vil(cek) citou o Ten. Nascimento.
A informação que consta
de meu arquivo é a seguinte: de fato, o Ten. Nascimento estava na área.
Mas insisto em perguntar: ele adentrou o rancho? Eis minha versão:
Hora do rancho. Pelotão de golpistas já posicionado à porta, aguardando a abertura da mesma:
Vil(cek), Catão, Bolzan, Olímpio, Alfredinho, Ratão, eu e alguns elementos
ainda não identificados. O momento era de grande expectativa.
Nossos olhos estavam fixos no painel de controle. O painel nos permitia ter um domínio
completo da área de golpe. Por ele, fazíamos duas leituras: uma, utilizando os
conhecimentos de reflexão da luz, adquiridos nas aulas de física.
O vidro da porta refletia a imagem de qualquer NABA (oficial ou sargento fodão) que se
dirigisse ao rancho, qualquer que fosse sua trajetória.
Uma vez identificada a NABA e sua trajetória, o pelotão se deslocava numa trajetória oposta, evitando
a colisão.
Quando a NABA tomava o caminho do rancho descendo pela direita, a
informação era detectada no painel, e os golpistas evacuavam a área, subindo
pela esquerda.
O movimento tinha que ser coordenado, e executado com precisão.
Um eventual atraso (ou adiantamento) na liberação da área poderia expor o
pelotão.
Se a NABA desce um degrau, o pelotão sobe exatamente um degrau. Se a
NABA desce rápido, o pelotão tem que subir rápido. Muitos golpistas foram
abatidos por não respeitar esse princípio.
A outra leitura era feita através do
vidro. Dentro do rancho. Lá estava o "Barra-Limpa", o maior taifeiro
da história da FAB, comandando a logística do abastecimento.
Nosso foco de
atenção se concentrava em três aspectos:
1-Qual o teor de palmito da salada?
2-A sobremesa é de boa cepa?
3)Qual a previsão de abertura da porta? No dia do
vazamento da caldeira, havia céu de brigadeiro.
Nenhuma NABA no radar, 2 polegas de palmito, creme de abacate na sobremesa e o ETO (estimated time of
opening) "encima da bucha".
Solenemente, "Barra-Limpa"
enfiou a chave no cadeado, abriu a porta e comunicou o que todos já sabíamos:
"Barra limpa, pessoal". Dito isto, deslocou-se para seu posto de
observação, de forma a nos dar a proteção e tranqüilidade que necessitávamos
para fazer uma boa digestão.
Os primeiros que se serviram sentaram-se à mesa
especialmente designada para os golpistas mais conceituados. Só havia 8
cadeiras.
Os que se serviram depois, a partir do nono, sentaram-se à mesa ao
lado.
No jargão da rapaziada, essa operação era chamada de "piruar
adjacência".
Estávamos tranqüilos, mergulhados no palmito quando, de seu
posto de observação, Barra-Limpa gritou: "LÁ VEM A NAAAAAAABBBBBBBBBAAAAAA"...
Note-se que essa versão, de certa forma, responde à questão d)Quem
gritou:"Lá vem a Naba?"
Foi um Deus-nos-acuda. Foda-se o palmito. O
grupo, que até então tinha o domínio da situação, despirocou. A dispersão se
fez em todas as direções.
Uma parte se escondeu imediatamente no compartimento
da caldeira. Eu fui checkar a informação com Barra-Limpa, e acabei me
atrasando. Quando cheguei no compartimento da caldeira, "o maracanã já
tava lotado".
Prá não ficar com o rabo de fora, desisti da caldeira e, sem
opção, fui obrigado a invadir o cassino dos oficiais. Eu tava indo bem mas, lá
dentro, ouvi alguém chamar: "NASCIMENTO". Voltei rapidinho pro rancho
e, num movimento ousado, abri a janela, pulando no estacionamento. Foi então
que ouvi do então Ten. Av. Nascimento a seguinte frase: "Ótimo, 03.Nem
preciso perguntar seu número..." Mas essa é outra história. Voltemos à
vaca fria.
A NABA anunciada por Barra-Limpa era o Ten. Nascimento? Essa dúvida
me martiriza há 3 décadas. Se alguém souber de algo, que traga a luz.
Joner 66-003