Histórias Interessantes sobre nosso tempo de Escola
Escola de Aeronáutica (00499) – Campo dos
Afonsos, Rio de Janeiro-RJ
Edison Ribeiro Pereira (1969-1970) - Membro #
8203
Segurando o Avião na Unha
Enquanto
nossas mentes esclerosadas, mas ainda sadiamente malígrinas, não desvendam o
mistério do piloto do focker perna-de-pau com trem de pouso de quinhentos
metros de altura, lanço mais uma reminiscência daqueles felizes e não sabídos
velhos tempos.
Sabemos
que havia um hábito entre os instrutores de fazer pipi na cauda do avião
enquanto na posição de 45° com a cabeceira da pista, antes de prosseguir para o
vôo. Isto certamente aumentava a autonomia renal para garantir um regresso sem
o desconforto das dores de parto urinário.
Quando
estávamos fazendo vôos solos, provavelmente durante os vôos de manutenção no 2°
ano, alguns cadetes safos adotavam esse hábito.
Certa
vez, provavelmente em outro belo e costumeiramente ensolarado dia daquele “já
lendário”, cenário típico das grandes cagadas, havia duas intrépidas águias
alijando água dos joelhos, quando um terceiro resolveu aderir ao grupo.
Esclareço, desde já, aos apressadinhos, que nenhum deles era o Danado.
A
exemplo da freqüente deficiência de baterias para a partida, que necessitavam
de um conhecido grito para estimulá-las, sendo uns lançados mais estridentes,
outros mais tímidos, as aeronaves não dispunham também de freio de
estacionamento que funcionassem a contento. Com isso mantinha-se o motor
girando enquanto se desopilava a bexiga, para evitar uma necessidade de partida
com grande expectativa de fracasso.
Eis
que conversavam os três atrás das aeronaves, enquanto depositavam seus
sobressalentes de uréia para adubar a grama verde (só a de pira era azul),
quando a recém-chegada começou a caminhar solo, provavelmente para fugir de seu
distraído e perigoso ocupante.
Seu
tripulante, na plenitude de suas forças juvenis, dotado de farta musculatura
cultivada desde os tempos de BQ, tentou desesperadamente a segurá-la pela
cauda.
Mas
não conseguiu vencer a determinação de caminhada do velho focker, que acabou
colidindo com uma outra a seu lado.
Conclusão;
dois vôos abortados, duas aeronaves danificadas e dois marraios com a costumeira
bunda’s face.
66-Saca. Edison Ribeiro
Causo puxa causo.
Enquanto exercitamos a memória em busca do misterioso piloto do focker
pernalta, aqui vai mais um para avivar o folclore que tem sido contado de tempos
em tempos ao redor das fogueiras da tribo meiameia.
A precisão do relato, possivelmente distorcida pelo tempo, poderá ser
questionada. Os personagens permanecem por conta da lembrança de cada
um.
Tudo aconteceu em outra daquelas provavelmente belas manhãs ensolaradas,
típicas do mesmo já lendário, propícias aos grandes acontecimentos, mas também
quase sempre palco de grandes cagadas, quando decolou uma esquadrilha liderada
por um instrutor, com um cadete solo em cada ala.
Novamente vale uma advertência aos afoitos: o Danado não fazia parte da
esquadrilha.
As aeronaves não possuíam rádio para comunicações entre si, sendo estas
efetuadas através de sinais visuais.
Lá pelas tantas do vôo um dos alas (Paulino Lima) passou a sofrer
uma forte vibração na aeronave devido à soltura de uma parte da ponta da hélice,
conforme posteriormente confirmado.
Com isso abandonou sua
posição na ala, decidindo pousar em emergência na pista da Av. Sernambetiba, ainda meio em obras. Este fato
foi publicado pelo Jornal de Brasil de 21/11/1969.
O líder da esquadrilha, ao vê-lo se afastar, passou a acompanhá-lo
visualmente. Para facilitar suas manobras e melhor observar o que se passava com
o ala em emergência, efetuou sinais de mão ao ala remanescente, na intenção de
que este se afastasse um pouco da posição.
O ala (Armigliato) repetiu os sinais com a mão no intuito de obter
uma confirmação por parte do líder. Ao receber um dedão em sinal de positivo,
partiu desembestado rumo ao infinito, efetuando diversas curvas para um lado e
para o outro, ora subindo, ora descendo.
Quem estava no estágio de vôo tomou conhecimento do que se passara ao
observar a chegada do lider, isolado, visivelmente furioso e
gritando:
- Esses alunos me deixam doido! Minha esquadrilha se desfez! Um de meus
alas teve uma pane e está pousado na Barra. Fiz sinal para o outro se afastar um
pouco e ele desapareceu, sei lá pra onde!
Versão do ala remanescente apresentada ao líder, logo após seu
regresso:
- Tenente, pelos seus sinais eu entendi que era para eu puxar uma
cobrinha. Eu repeti os sinais e o senhor confirmou. Daí eu saí fazendo manobras
com essa intenção.
66-Saca. Edison Ribeiro
MSF – Movimento dos Sem Filó
Mais uma estória, provavelmente também deturpada pela iminente senilidade
de um nem tanto eminente pagador de mistérios.
Esta não aconteceu em outra daquelas provavelmente belas manhãs
ensolaradas, típicas do mesmo já lendário, palco de heróicos acontecimentos,
porque já era noite e as luzes do alojamento já estavam apagadas. Mas não
deixava de ser o cenário propício às grandes cagadas.
O Campo dos Afonsos, fazendo jus as suas tradições aéreas e acadêmicas,
sempre foi povoado por muitos mosquitos. Estes, embora nunca tenham sido
lembrados como verdadeiros símbolos das escolas de aviação, eram mestres no vôo
e na arte de sugar. Apesar disso a época deixou saudades, pois o mosquital
carioca apenas nos usava como repasto, não tendo ainda se especializado na
prática ingrata de deixar a dengue como gorjeta.
Agora imaginem um cenário harmônico, com mais de uma centena de camas,
todas cobertas e alinhadas, inclusive pela vertical, numa bela formatura, onde apenas uma
delas era protegida por um mosquiteiro.
Aquela ostentação de riqueza e de imunidade quase parlamentar, monumento
à alienação, ilha de tranqüilidade destoante do conjunto, símbolo de que um
único filho teu que fugiu à luta, gerou logo um movimento dos sugados sem
mosquiteiro.
Na calada da noite, seus sabotadores integrantes tinham o saco de
capturar mosquitos à luz dos banheiros, transportá-los em um vidro para
soltá-los furtivamente dentro daquele santuário ecológico, verdadeira reserva de
mercado preservada incólume pelo filó, enquanto seu nababo posseiro dormia. Foi
o único tipo de tentativa de reforma sanguinária de que tenho
conhecimento.
Isto fazia com que seu burguês ocupante abandonasse desesperadamente o
conforto de seu refúgio aparentemente intransponível, a fim de expulsar os
indesejáveis invasores e poder então desfrutar de algum sono em paz. Até que
nova horda de involuntários retirantes fosse desembarcada para assentamento em
seu reduto, quando iniciava um novo ciclo de convulsão interna. E assim ia noite
adentro.
Ainda tenho a impressão de que os que saiam mais estressados dessa rotina
beirando à insanidade eram os mosquitos.
Outros, da ala mais radical do movimento, bombardeavam aquela casamata
com todo o armamento disponível, principalmente butes.
Numa daquelas acirradas batalhas, após descrever uma trajetória perfeita,
fruto de um preciso cálculo balístico, um dos travesseiros lançados atingiu em
cheio aquele supostamente indestrutível abrigo antiaéreo. Após ricochetear em
sua estrutura, cambaleou e depositou-se inerte no solo, próximo do caminho para
a varanda e banheiros.
Eis que, neste mesmo instante, toalha e sabonete nas mãos, escova de
dentes entre os lábios, alheio ao que se passara naquele bizarro campo de
batalha, retornava do banheiro um cadete-padrão. Ser superior, normalmente
ausente daquelas brincadeiras mundanas que maravilhavam os
demais.
Ao ver o travesseiro no chão, levado pelos seus princípios inspirados em
Baden Powell (o inglês, não o violonista), sentiu ali a oportunidade de realizar
sua última boa ação antes de entregar-se aos braços de Morfeu e dormir o sono
dos justos.
Pegou aquele instrumento multiuso, tanto utilizado por alguns como
repouso da consciência quanto de petardo por outros, na pura intenção de
depositá-lo sobre a cama mais próxima, de onde imaginou tivesse caído.
Qual não foi a sua surpresa, subitamente transformada em um sentimento de
incompreendida ingratidão diante de seu nobre gesto, quando o aguerrido ocupante
da casamata, entendendo que aquele vulto na penumbra do alojamento pegara o
travesseiro para desfechar-lhe novo ataque, abandonou os limites de seu bunker e
partiu de porrada sobre o jovem e bom samaritano.
Nesta altura todos foram acordados pela seção de pancadaria, que durou
uma aparente eternidade, ainda que o autor da boa ação, entre um sopapo e outro,
balbuciasse infrutíferas explicações:
- Não fui eu. Não confere. Não fui eu. Não confere.
Após a turma do deixa disso sempre de prontidão colocar as coisas em seus
devidos lugares, finalmente o alojamento pode dormir em
paz.
De quando em vez, entre um ronco e outro, podia-se ouvir alguns risinhos
abafados. Dizem alguns que era dos mosquitos.
O mosquiteiro nunca mais foi visto no alojamento. Algumas más línguas
espalharam uma notícia, não confirmada, alegando que a última vez que se soube
dele era que ostentava o cafofo de uma quenga no mangue, fruto de doação feita
por um cadete duro em retribuição por serviços ali prestados. Outros diziam que
seus pedaços foram vistos no ano seguinte, em Pirassununga, transformados em
toalhinhas e ornamentando um apartamento de cadetes
Vai saber. Esse povo pode não inventar causos, mas que aumenta, aumenta.
66-Saca
Joao Rodrigues daMooca (1969) - Membro # 198
Aproximação Kamikazi
Eu só me recordo do causo,
não dos detalhes, " o dia em que o Marien, ao taxiar bateu com a asa
esquerda na coluna do estágio de vôo, depois de ter colocado muita gente pra
correr"...alguém se lembra, ou irão perguntar a ele também? Tivemos também
um rep da turma de 65, magro, meio corcunda, que acionou os freios na decolagem
com o T-21, e ficou aquele monumento plantado no meio da pista de grama, quem
se recorda?
Essa
foi minha, com muito orgulho. Vinha eu de uma aproximação de 360º, chequei o
pouso na perna do vento, sobre a pista a 300 mts, no sentido do pouso, e na
vertical da cabeceira reduzi todo o motor, para iniciar a curva descendente, de
média inclinação, acho que o plane era em torno de 65 nós. Ao aproar o traveis
da cabeceira da 08, havia uma lista pintada de branco, marcando o inicio da
pista, e nela ficavam alguns instrutores sentados nas almofadas laranja,
anotando os pousos e tentando ouvir se dávamos motor para alcançar a pista.
Subitamente olho a pirâmide e o vento esta forte e de proa. Troco altura por
velocidade, "cutuco" mais um pouco, e vejo a cerca de arame que
separava o quartel do PQD's dos Afonsos, se aproximando. Num relance pensei,
vou entrar voando na cerca. Com aquele reflexo absurdo que ainda possuía,
cabrei o T-21, passei a cerca, e piquei abruptamente. Já estava bem próximo da
cabeceira, tão próximo que minha ultima curva para direita, foi sobre os
instrutores que tiveram que se jogar no chão, o Ten. Leite saiu em disparada
para o centro da pista, e eu toquei no ultimo culhonesimo de espaço dentro da
área prevista. Capitão Batista, chefe do estagio me presenteou com uma "constelação",
não vim para Sampa durante um mês, fiquei literalmente duro, mas bem pousado.
damooca